Heráldica de sobrenomes

A heráldica de sobrenomes requer conhecimentos e estudos muito complexos e fascinantes. Aqui você pode aprender sobre os mais importantes brasões heráldicos.

A pergunta chega sempre pela mesma ordem: qual é o brasão do meu sobrenome? Heráldica e sobrenomes andam juntos, mas o laço é mais frouxo do que faz crer o comércio de « brasões de família ». Um brasão nunca pertenceu a um nome: pertence a uma pessoa e, depois dela, aos seus descendentes.

É por isso que um mesmo sobrenome pode estar associado a vários brasões completamente diferentes — cada um pertencente a uma família distinta que por acaso usa o mesmo nome. E é por isso que a descendência importa: quem não descende da linhagem a que as armas foram concedidas, ou pela qual foram assumidas, não tem por costume heráldico direito a usá-las.

Nada disso torna o assunto menos interessante, pelo contrário. Nestas páginas encontrará, para cada sobrenome, o que está realmente documentado: os brasões que lhe estão associados, o seu brasonamento, o significado das suas peças e os países onde o nome é hoje usado. Mais abaixo, tudo o que é preciso para ler um brasão — ou para compor o seu.

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O que é a heráldica

A heráldica é uma das ciências auxiliares da história e tira o nome do arauto. Na Idade Média os arautos eram muito mais do que anunciadores: levavam mensagens entre exércitos inimigos, proclamavam a abertura do torneio, observavam os combates e registavam quem usava que insígnias. Dessa escrituração nasceu um corpo de regras, e das regras uma disciplina.

Era essa a tarefa difícil do arauto: verificar se um cavaleiro tinha realmente direito às figuras que exibia no escudo e na sobreveste. Os arautos sabiam de cor as armas das grandes casas, compilavam armoriais e decidiam os litígios quando dois homens reclamavam as mesmas insígnias.

As armas aparecem no século XII, por uma razão muito concreta: o elmo fechado tornava irreconhecível quem o usava. Quem precisava de distinguir o amigo do inimigo no meio da refrega precisava de um sinal legível à distância. Daí o carácter plano, contrastado e radicalmente simplificado dos brasões: foram identificação muito antes de serem ornamento.

Do escudo a figura passou para toda a parte: para os selos, para as lápides, para as bandeiras, para os vitrais, para a iluminura, para as fachadas. E como o selo autenticava o documento, o brasão tornou-se sinal jurídico. Já no século XIII era hereditário e, a partir daí, ligado ao nome de família.

Uma particularidade portuguesa: o Livro do Armeiro-Mor

Portugal conserva uma das fontes heráldicas mais notáveis da Europa, e vale a pena conhecê-la antes de procurar o próprio sobrenome. O Livro do Armeiro-Mor, iluminado por João do Cró em 1509 por ordem de D. Manuel I, reúne as armas das casas do reino num único códice — hoje na Torre do Tombo. Ao lado dele, o Livro da Nobreza e Perfeição das Armas de António Godinho fixou boa parte da doutrina heráldica portuguesa.

Três consequências práticas. Primeira: em Portugal as armas de família foram objecto de registo régio, o que significa que muitos brasões que circulam hoje têm origem documental verificável — e que muitos outros, vendidos como « brasão do sobrenome », não têm nenhuma. Segunda: o elmo e o timbre têm em Portugal um peso maior do que noutras tradições, e é frequentemente o timbre, e não o escudo, que distingue duas famílias de armas parecidas. Terceira: a heráldica portuguesa passou ao Brasil com as famílias e com o Império, pelo que muitos sobrenomes brasileiros têm brasão de origem peninsular — e, com frequência, mais do que um.

No Brasil, onde nunca existiu autoridade heráldica com competência sobre armas de particulares depois da República, um brasão pessoal é hoje matéria de identidade e não de estado: qualquer pessoa pode assumir armas próprias, desde que não usurpe as de outrem.

Como se compõe um brasão

O brasão completo tem várias partes, mas só uma é indispensável.

Os esmaltes: cores, metais e forros

A heráldica não usa cores quaisquer, mas esmaltes, e são poucos. Dois metais: ouro (amarelo) e prata (branco). Cinco cores: vermelho, azul, negro, verde e púrpura. E os forros — arminho e veiro — definidos pelo desenho e não por uma tinta única.

Uma cautela que qualquer fonte honesta lhe dará: estes significados são posteriores aos brasões que dizem explicar. Vêm dos tratados heráldicos da época moderna, que projectaram um simbolismo sobre escudos compostos dois ou três séculos antes. São tradições, não provas.

A única regra que vale mesmo

De todas as regras heráldicas só uma é realmente obrigatória — a regra de contrariedade dos esmaltes: nunca metal sobre metal, nunca cor sobre cor. O ouro não se põe sobre a prata, o vermelho não se põe sobre o azul. A razão é outra vez prática: duas cores juntas confundem-se à distância, uma cor sobre um metal continua legível. Há excepções, e a mais famosa — as cruzes de ouro sobre prata do reino de Jerusalém — era tão notória para os contemporâneos que teve de ser explicada.

Peças e figuras

O que ocupa o escudo divide-se em duas famílias. As peças honrosas são geométricas e nascem da partição do campo: o pala, a faixa, a banda, o chevron, a cruz, o sautor, o chefe, a bordadura. As figuras são tudo o que é representado: leão e águia acima de todos, depois urso, veado, peixe, rosa, flor-de-lis, estrela, crescente, torre, roda, âncora, chave, ferramentas, figuras humanas.

O essencial a entender é que uma figura heráldica não é um retrato. O leão de um brasão não é um leão em particular, é o leão — estilizado, numa atitude fixa, traçado com a mesma força de linha. Um brasão não se define, portanto, pelo seu desenho.

O brasonamento

Define-se pelo seu brasonamento: a descrição escrita, que é a forma mais verdadeira das armas. O brasonamento segue uma ordem fixa — primeiro o campo, depois a figura principal, depois as secundárias, depois o resto. « De azul, um leão de ouro » é um brasão completo. Que o artista desenhe o leão esguio ou robusto, que o azul seja claro ou escuro, é com ele. Duas imagens muito diferentes podem ser as mesmas armas.

Uma particularidade que apanha toda a gente: a destra e a sinistra dizem-se do ponto de vista de quem leva o escudo, não de quem olha. O lado destro fica, portanto, à sua esquerda quando observa o brasão.

Porque mudam os brasões

Um brasão não é fixo. Muda quando muda a família.

Se encontrar sob o seu sobrenome dois brasões parecidos mas não iguais, em regra não é um erro da fonte: são dois ramos da mesma casa.

E se o meu sobrenome não tiver brasão?

Então está no caso mais frequente, e resolve-se mais facilmente do que parece. Em Portugal e no Brasil, como na maior parte da Europa continental, qualquer pessoa pode assumir um brasão e usá-lo. Não é preciso título nenhum, nem existe hoje autoridade que conceda armas a particulares. Usar armas é uma questão de identidade, não de categoria.

Três precauções, se compuser o seu. Primeira: tem de ser novo. Adoptar as armas de outro por ele usar o seu sobrenome é exactamente o que não se deve fazer — é usurpação. Segunda: tem de respeitar a regra de contrariedade; um desenho que põe vermelho sobre azul não é um brasão, é um logótipo. Terceira: deve ser simples. As armas mais fortes da história cabem em dois esmaltes e uma figura.

Os brasões dos outros portadores do seu sobrenome continuam a ser o melhor ponto de partida. Veja que figuras se repetem, se o nome foi representado por um trocadilho — as armas falantes são a lógica mais difundida de toda a heráldica —, que esmaltes a região preferia. Daí tirará uma composição que fala a mesma língua visual sem pedir emprestado o que é de outrem.

Para que um brasão novo seja verificável e duradouro, o costume é registá-lo e publicá-lo num armorial contemporâneo. É a publicação que o torna oponível — e evita que outro adopte sem saber o mesmo sinal.

Brasão e identidade pessoal

A heráldica conhece um regresso inesperado, porque muitos procuram um sinal pessoal mais duradouro do que um logótipo. A diferença é real: um logótipo refaz-se de poucos em poucos anos, um brasão transmite-se. Um logótipo pertence a uma empresa, um brasão a uma pessoa e à sua descendência.

Mas um brasão não enobrece ninguém. Regista quem se foi e por que se esteve, nada mais. Se decidir tomar armas, componha-as de modo que daqui a cem anos ainda digam alguma coisa verdadeira sobre si.