Translate
quinta-feira, 30 de janeiro de 2025
House Of Lords - Full Tilt Overdrive (2024)
Viima - Väistyy Mielen Yö (2024)
A banda finlandesa Viima retornou de um longo hiato de 15 anos com o álbum Väistyy Mielen Yö, marcando o seu renascimento na cena do rock progressivo. Após o lançamento de dois discos em 2006 e 2009 a banda desapareceu sem dar pistas de um possível retorno e deixou na cabeça daqueles que a acompanharam na época uma incerteza sobre o futuro. No entanto, em 2024 eles surpreenderam a todos com o que é sem dúvida o seu trabalho mais refinado até hoje.
A formação do quinteto é praticamente a mesma de 15 anos atrás, com Hannu Hiltula (flauta, teclados, vocal e backing vocals), Mikko Uusi-Oukari (guitarras e Mellotron), Mikko Väärälä (bateria, vocal, teclados e sinos) e Aapo Honkanen (baixo). A única mudança significativa foi a entrada de Risto Pahlama (vocal, teclados e Mellotron), substituindo Kimmo Lähteenmäki nos teclados. Mesmo tendo saído da banda, Lähteenmäki ainda faz uma participação especial na faixa "Vuoren Rauha."
Väistyy Mielen Yö é composto por cinco faixas que demonstram uma maturidade musical impressionante ao combinar elementos sinfônicos com incursões jazzísticas e toques de folk, além de referências à música clássica. A banda se destaca por soar sempre fresca e inovadora, evitando uma sonoridade repetitiva ou derivativa. É claro que influências de bandas como Camel, Genesis e Jethro Tull, assim como dos conterrâneos Tabula Rasa e Scapa Flow, são perceptíveis, mas a banda consegue incorporar essas referências sem comprometer sua originalidade.
A primeira faixa, "Tyttö Trapetsilla", é uma peça compacta e melódica com destaque para os temas de flauta, violão e guitarra solo. A seção rítmica e as inserções pontuais de órgão também contribuem para a atmosfera animadora do início do álbum. "Äiti Maan lapset" é uma suíte de quase 19 minutos que se desenvolve de forma coesa se alternando entre passagens serenas e momentos mais intensos, porém, sem exageros. A peça se destaca pelas camadas de teclados, linhas compactas de baixo, guitarras robustas e um vocal adequado que complementa a rica instrumentação.
"Pitkät Jäähyväiset" começa com uma flauta delicada e notas de teclado antes de evoluir para o tema central que é marcado por uma batida envolvente. A música ganha peso à medida que avança com riffs de guitarra intensos e uma seção rítmica pulsante que culmina em uma atmosfera psicodélica criada pelos teclados. "Perhonen" é um dos destaques do álbum, começando de forma hipnotizante e crescendo em intensidade até alcançar um momento mais pesado, com bateria e baixo em destaque, enquanto a guitarra e o teclado criam um clima sinfônico e atraente. "Vuoren Rauha" é a última faixa do álbum, inicia com sons de vento criados por Kimmo Lähteenmäki, seguidos por uma serena combinação de piano e voz. A música evolui com a entrada da bateria e do Mellotron que conferem um caráter épico à peça que tem seu clímax em um solo de órgão e termina de forma sutil com sons de vento e uma voz distante.
Väistyy Mielen Yö é um trabalho coeso, onde os músicos atuam como um conjunto sem protagonismos, mas com uma pluralidade harmoniosa que mantém a banda bem direcionada em suas inúmeras ideias. Para os interessados, as letras das músicas estão disponíveis em inglês no site oficial da banda, viima.org, oferecendo uma experiência ainda mais completa para os fãs de rock progressivo.
NOTA: 9,4/10
Gênero: Rock Progressivo, Folk Rock
Faixas:
2. Äiti Maan Lapset (18:50)
3. Pitkät Jäähyväiset (6:38)
4. Perhonen (6:45)
5. Vuoren Rauha (7:37)
quarta-feira, 29 de janeiro de 2025
Pearl Jam - Dark Matter (2024)
Ao mencionar o Pearl Jame estou evocando o ponto de partida da minha relação profunda com o mundo do rock. Remonto a um momento marcante de 1992 quando me deparei com o videoclipe de Jeremy. Aquela narrativa visual culminando em um desfecho poderoso foi como uma revelação para mim, despertando um interesse imediato e visceral pelo grupo. Foi um momento crucial onde minha conexão com a música e a expressão artística atingiu um novo patamar.
Nos meses seguintes, fui cativado ainda mais pela presença do Pearl Jam quando a MTV exibiu a icônica performance de Porch no Pinkpop. A energia, paixão e a autenticidade da banda eram palpáveis e eu me vi totalmente absorvido pela experiência musical. Logo depois, o Unplugged MTV me ofereceu uma perspectiva mais íntima e crua da musicalidade do grupo, consolidando ainda mais minha admiração.
Dark Matter chega como o 12º disco de estúdio da banda – o que considero pouco para uma carreira discográfica de 33 anos. Mas de qualquer forma – e o mais importante de tudo -, eles parecem querer continuar soando relevantes ao entregar um disco cheio de dinamismo, frescor e de uma sonoridade que mantém sua música envolvente durante todos os seus cerca de 48 minutos divididos em 11 canções. Apenas um adento, se você é daquelas pessoas que até hoje evocam discos como Ten ou VS para comparar com álbuns mais recentes da banda, não sei o que o que você faz ouvindo-os ainda, agora se você compreende o que é o Pearl Jam hoje em dia, certamente Dark Matter vai atingi-lo da melhor forma possível.
"Scared Of Fear" abre o disco entregando uma vibração clássica da banda, vocais enérgicos, guitarras cativantes e uma seção rítmica sólida, precisa e sincronizada que sustenta o ritmo da faixa muito bem. "React, Respond" mantém o disco dentro de uma sonoridade de alta voltagem, com refrão chiclete e uma linha instrumental maciça. A faixa captura a energia crua da banda, combinando riffs intensos e ritmos pulsantes. "Wreckage" é uma balada que se destaca no álbum por seu estilo emocional e envolvente. Por meio de sua estrutura estilística a música parece prestar homenagem a Tom Petty ao incorporar elementos de sua abordagem distinta à composição e à performance.
"Dark Matter" é uma das peças mais pesadas do álbum. Seção rítmica penetrante, riffs encorpados de guitarra e um solo ao melhor estilo Mick McCready, um cara que nunca foi um “guitar hero”, porém, sempre entendeu bem o que é necessário pra soar marcante dentro da banda. "Won't Tell" é outra balada do álbum que embora não seja tão impactante quanto "Wreckage", ainda oferece uma experiência de qualidade. A faixa se destaca por sua batida constante e envolvente, proporcionando uma base sólida. É enriquecida com o acréscimo de alguns leves toques de sintetizadores.
"Upper Hand" possui uma introdução bastante atmosférica de mais de um minuto e meio feita por sintetizadores e guitarra até entregar mais uma peça em ritmo lento. Os floreios de guitarra solo são belíssimos e exemplificam exatamente o que eu disse na faixa anterior. "Waiting For Stevie" me fez sentir uma grande “vibração grunge” encontrada em discos – da banda ou não – da primeira metade dos aos 90. Talvez a produção mais polida possa atrapalhar um pouco essa percepção, mas basta se concentrar e perceber que o grunge clássico, digamos assim, está ali.
"Running" é outro dos momentos mais pesados do disco. Assim que começou foi impossível não lembrar de Rearviewmirror, clássica faixa do disco VS. Possui a melhor seção rítmica do álbum e alguns dos vocais mais raivosos. As guitarras como sempre soam perfeitas, tanto nos riffs quanto nos solos. "Something Special", após a “violência” da faixa anterior, tudo suaviza de novo por meio de uma peça em que Vedder faz um aceno para as suas filhas. Nota-se uma boa influência na música country moderna.
"Got To Give" é um daqueles velhos exemplos em que o básico pode funcionar muito bem, um rock and roll direto e objetivo que apresenta uma abordagem clássica que é ao mesmo tempo empolgante e envolvente. O acréscimo de algumas linhas de piano encaixou muito bem. "Setting Sun" é a faixa de encerramento. Novamente há uma boa vibração country e entrega um fechar de cortinas extremamente aconchegante para o disco.
Dark Matter apresenta um Pearl Jam confiante e com uma sonoridade totalmente própria e característica. A banda demonstra que embora valorize suas raízes e tenha respeito por sua história, não deixa de buscar novas perspectivas em sua arte. No mais novo capítulo de sua história, a banda entrega uma celebração da sua identidade e que tem a capacidade ressoar positivamente tanto nos fãs de longa data, quanto com novas gerações de ouvintes.
NOTA: 7,2/10
Gênero: Rock Alternativo, Hard Rock
Faixas:
2. React, Respond – 3:30
3. Wreckage – 5:00
4. Dark Matter – 3:31
5. Won't Tell – 3:28
6. Upper Hand – 5:57
7. Waiting for Stevie – 5:41
8. Running – 2:19
9. Something Special – 4:06
10. Got to Give – 4:37
11. Setting Sun – 5:43
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
Julia Holter - Something in the Room She Moves (2024)
Julia Holter é conhecida por sua abordagem musical experimental na música pop e alternativa. Começou a estudar música desde cedo, aprendendo piano, violão e canto. Ela frequentou a Alexander Hamilton High School e depois estudou composição musical no California Institute of the Arts, onde obteve seu BFA e MFA.
A música de Holter é frequentemente descrita como uma fusão única de diversos gêneros, incluindo música erudita, pop experimental e eletrônica ambiental. Essa fusão eclética resulta em um som original e cativante. O aspecto mais notável são suas letras poéticas e atmosféricas, que podem transportar os ouvintes para um universo emocionalmente rico e evocativo. As letras muitas vezes exploram temas profundos e introspectivos, enquanto a atmosfera musical proporciona uma sensação de imersão e contemplação.
Something in the Room She Moves é o mais novo álbum da artista, trazendo novamente suas principais características, como composições intrincadas e arranjos complexos. Cada faixa é cuidadosamente elaborada, com camadas de instrumentação que se entrelaçam de maneira sofisticada, criando uma experiência auditiva rica em detalhes e texturas sonoras.
Something in the Room She Moves possui uma carga emocional profunda, influenciada em parte pela experiência pessoal da artista Julia Holter durante a pandemia do COVID-19 e sua jornada na maternidade. A composição captura momentos íntimos e reflexivos, refletindo a complexidade dos sentimentos que surgem em tempos de incerteza e transformação. Holter infunde a música com uma sensação de reverência e maravilha diante da vida e do amor. Os arranjos sonoros evocam uma atmosfera de contemplação e introspecção, enquanto as letras poéticas exploram temas de conexão humana, esperança e resiliência.
"Sun Girl" é uma música que inicia por meio de uma boa vibração de indie pop e se mantem assim na maior parte do tempo. O final expansivo e atmosférico em uma frase repetida várias, pode significar uma narração cheios de ideias e visões criativas, onde a mente se liberta para explorar novas possibilidades. "These Morning" é uma faixa melancólica que tem o saxofone como maior destaque, porém, no geral tudo soa de forma profunda provocando uma espécie de cruzamento entre as sensações conforme tudo vai se desenvolvendo. Tudo isso sob uma letra que parece explorar temas de esperança, arrependimento, vulnerabilidade e escapismo
"Something in the Room She Moves" começa doce e serena, mas conforme vai se desenvolvendo, também cresce bastante em intensidade, chegando em um pico quase sinfônico antes de retornar para as suas batidas serenas e melodia melancólica. Traz a busca como tema de sua narrativa, além da admiração e contemplação, com uma mistura de elementos mundanos e surreais.
"Materia" é bastante intimista e produzida basicamente por meio dos vocais e usos pontuais de teclados que adicionam uma atmosfera taciturna e melodia arrastada, enquanto Holter explora um amor idealizado e compartilhando experiências intensas. "Meyou" é bastante experimental e viajante, onde a sua letra se baseia apenas em repetir inúmeras vezes o nome da faixa. De vocal solo que vai se transformando aos poucos em uma improvisação heterofônica, liricamente pode indicar um equilíbrio ou uma dinâmica de reciprocidade na interação entre duas pessoas.
"Spinning" possui uma base mais pulsante, com o baixo nas alturas e sintetizadores que a permeiam por toda parte, além das batidas serem mais tempestuosas. Uma autorreflexão que sugere uma aceitação diante de uma jornada pessoal, incluindo tanto os momentos de alegria quanto de tristeza. "Ocean" é uma faixa instrumental. Composta principalmente por teclados espaciais e sintetizadores, a música é construída em camadas intricadas, criando uma paisagem sonora densa e envolvente.
"Evening Mood" possui uma atmosfera bastante liquida, enquanto as suas melodias se entrelaçam, sendo as linhas de baixo e as camadas de teclados seus maiores destaques. Uma verdadeira evocação de sentimentos nostálgicos, conexão e contemplação sobre a passagem do tempo. "Talking to the Whisper", uma desconexão e separação entre duas pessoas e que explora temas como a distância, comunicação, esperança e a natureza complicada do amor. É mais um momento do disco que contem boas doses de experimentações e pinceladas lisérgicas encaixadas brilhantemente.
"Who Brings Me", a ideia do menos é mais que existe dentro do minimalismo pode ser aplicada facilmente aqui. O disco chega ao fim com uma peça encantadora, entregando novamente teclas em camadas, enquanto isso, Holter explora temas como sonho, natureza e o amor, evocando uma sensação de admiração e devoção pelo mundo ao nosso redor e pela pessoa amada.
Something in the Room She Moves é um disco que se comporta como uma montanha-russa de experiências musicais. É evidente que Holter se aventurou por uma variedade de estilos, sons e temas, buscando desafiar as expectativas e criar algo valioso, nos convidando para mergulharmos nas profundezas da nossa própria alma e explorar os mistérios do coração humano.
NOTA: 9,2/10
Gênero: Art Pop
Faixas:
2. These Morning - 3:49
3. Something in the Room She Moves - 6:18
4. Materia - 3:08
5. Meyou - 5:55
6. Spinning - 6:14
7. Ocean - 5:38
8. Evening Mood - 6:24
9. Talking to the Whisper - 6:52
10. Who Brings Me - 3:38
terça-feira, 21 de janeiro de 2025
sonhos tomam conta - corpos de água (2024)
The Circle Project - Bestiario II (2024)
segunda-feira, 20 de janeiro de 2025
Luiza Brina - Prece (2024)

Luiza Brina é uma artista multifacetada, destacando-se como cantora, compositora e multi-instrumentista. Com uma voz delicada e uma habilidade musical ampla, ela tem raízes em Belo Horizonte e é uma presença marcante no cenário da música independente brasileira. Seu trabalho é uma fusão equilibrada de MPB, samba, jazz e folk, resultando em um som encantador e envolvente. Além de sua trajetória solo, Luiza é conhecida por suas colaborações frequentes com diversos artistas e bandas, onde contribui com sua sensibilidade e criatividade. Ela é vocalista, guitarrista e compositora da banda Graveola, além de também já ter feito parcerias com vários outros nomes da música como Ceumar, Arthur Nogueira, Chico Bernardes e Vovô Bebê, entre outros
Entre suas muitas qualidades, Luiza é altamente valorizada por sua habilidade de criar músicas que são tanto íntimas quanto universalmente impactantes. Suas composições têm o dom de captar a essência de vivências e sentimentos pessoais, ao mesmo tempo em que tocam temas que ressoam com um público variado. Essa capacidade de unir o pessoal ao coletivo confere a Luiza uma autenticidade e versatilidade musical notáveis, o que lhe garantiu uma boa base de admiradores.
Em Prece, seu álbum mais recente, ela mergulha em temas profundos e pessoais, convertendo suas introspecções em músicas que tocam profundamente o coração e a alma. As faixas do disco capturam sua jornada emocional e espiritual, oferecendo uma combinação de suavidade e intensidade. Com sua voz delicada e arranjos musicais bem acabados, Luiza cria uma atmosfera íntima, onde suas vivências e emoções são transmitidas de forma genuína e cativante. Prece se torna uma celebração da conexão humana e da busca por sentido, proporcionando ao ouvinte uma experiência musical que é ao mesmo tempo reflexiva e abrangente.
Cada detalhe do disco é tão suave e encantador, que dá a impressão de que, através da música, estamos nos ligando a algo além da nossa realidade cotidiana. É como se a música nos envolvesse em um abraço acolhedor e reconfortante, sussurrando em nosso ouvido que tudo vai ficar bem. A atmosfera de paz e meditação transmite uma profunda sensação de conforto e conexão sonora.
Através de cada uma de suas canções, a ideia parece ser a do ouvinte entrar em um espaço de contemplação e então poder encontrar consolo e esperança. Esse aspecto espiritual do disco é um de seus pontos mais fortes, criando uma experiência auditiva que é tanto curativa quanto inspiradora. Mostrando, por exemplo, em "Oração 2" – que conta com a participação de Silvana Estrada -, que em momentos de vulnerabilidade, a necessidade de apoio torna-se evidente, indicando que apesar das incertezas, a busca pelo pertencimento e a conexão com algo além de si mesmo são fundamentais para a construção de uma vida com significado.
Em "Oração 18 (pra viver junto)", Luiza parece sugerir a importância de uma independência, porém, essa autossuficiência não significa isolamento, mas sim, um estado de autoconfiança e clareza sobre si mesmo e que facilita interações mais profundas e significativas. "Oração 13 (coração candongueiro)" parece soar como um consolo que é buscado na herança cultural africana, que por sua vez, é retratada como uma fonte profunda de sabedoria e resiliência, destacando a importância de tradições, rituais e histórias que moldam a identidade e a experiência. Aqui Luiza conta com a companhia de Sérgio Pererê.
Em "Oração 19 (oração pra Oxum)", Ianna Rennó se junta a Luiza para uma celebração da conexão entre o ser humano e o mundo natural, parecendo querer sugerir que a verdadeira paz pode ser encontrada na harmonização com a natureza e no cultivo de um espaço interior de acolhimento e tranquilidade. Em "Oração 15 (oração à Cobra Grande)", Luiza tem a parceria de Thiago Amud na composição e a participação especial é de Maurício Tizumba. Se trata de uma invocação à uma entidade nomeada Cobra Grande, sendo sua presença algo vital para um rio. É uma peça carregada de saudação e respeito, refletindo a importância dessa entidade na manutenção do fluxo e da pureza do rio.
Mesmo sem listar todas as faixas, é importante destacar que cada uma delas possui méritos e importância dentro do álbum. Todas desempenham um papel essencial no desenvolvimento do conceito e na construção da narrativa total de Prece, contribuindo de maneira única para a experiência de quem se deixar levar pelo disco, seja através de suas letras, melodias ou arranjos, formando assim uma tapeçaria coesa que enriquece o trabalho como um todo.
Por falar em melodias e arranjos, é impossível não se maravilhar com a atenção aos detalhes, principalmente evidenciados no trabalho orquestral realizado por 19 mulheres. A complexidade dos arranjos se mistura de maneira bastante harmoniosa com a simplicidade e a elegância de cada uma das peças lideradas pela voz doce de Luiza. A orquestração é feita com enorme sensibilidade, onde cada uma das frases dos instrumentos é combinada de maneira condizente com a progressão da narrativa.
Por fim, o disco me coloca em um dilema: ou eu não o entendi muito bem, ou eu o entendi de uma forma tão intensa que isso gerou um impacto ainda maior do que eu esperava. De qualquer forma, o que é inegável, é que não vejo Prece simplesmente como uma coleção de faixas, é algo muito mais significativo. Com bons fones de ouvido em um quarto escuro, ele me provocou um turbilhão de emoções que vão muito além da experiência comum de ouvir música, ressoando profundamente com minhas próprias vivências e sentimentos.
NOTA: 8,8/10
Gênero: MPB, Música de Câmara
Faixas:
2. Oração 2 - 3:51 part Silvana Estrada
3. Oração 18 (Pra viver junto)- 3:02
4. Oração 3 - 3:23
5. Rainha Belinha entoa Velhos de Coroa - 1:59 part Rainha Isabel Casimira
6. Oração 13 (Coração candongueiro) - 3:42 part Sérgio Pererê
7. Oração 19 (Oração pra Oxum) - 4:17 part Iara Rennó
8. Oração 15 (Oração à Cobra Grande) - 5:03 part Maurício Tizumba
9. Oração 17 (Risco) - 4:22
10. Oração 16 (Dios / Adiós) - 3:11 part LvRod
11. Oração 10 (Oração ao porto) - 2:35
Blood Incantation - Absolute Elsewhere (2024)
Blood Incantation é uma banda de death metal formada em Denver, Colorado, que rapidamente se destacou na cena do metal extremo por meio de uma abordagem musical bastante atraente. Combinando o peso e a brutalidade do death metal com influências atmosféricas e elementos progressivos, eles criam uma sonoridade densa e que foge dos padrões convencionais. Suas composições são complexas e carregadas de camadas sonoras que transitam entre riffs intensos, passagens psicodélicas e mudanças de ritmo bem elaboradas.
Ao longo dos anos, a banda evoluiu artisticamente, com cada álbum trazendo novos níveis de complexidade técnica e inovação sonora. A música do grupo frequentemente se inspira em temas cósmicos, filosóficos e existenciais, o que se reflete tanto nas letras quanto nas atmosferas criadas em suas composições. Essas inspirações conferem um ar místico e quase ritualístico à sua música. Essa mistura de peso, brutalidade e sofisticação atmosférica, acaba cativando variados tipos de ouvintes, e não apenas amantes da música pesada e extrema.
Costumo evitar eleger o melhor álbum do ano antes de ouvir todos os lançamentos relevantes até o dia 31 de dezembro. No entanto, diante de uma obra como Absolute Elsewhere, posso dizer tranquilamente — e sem temer que algum lançamento futuro mude minha opinião — que em termos de death metal e metal progressivo, 2024 já atingiu seu auge. Um disco que estabeleceu enorme padrão de profundidade, técnica e impacto emocional. Não é uma experiência musical que sintetiza apenas o melhor do ano do gênero, mas apresenta um grau de excelência que vai demorar ser alcançado dentro desse nicho.
Dando uma conferida em alguns sites que escrevem bastante sobre esse tipo de som, vi que Absolute Elsewhere é um álbum conceitual que explora uma jornada profunda em busca de sentido e conexão dentro de um universo vasto, desconhecido e hostil. Cada faixa leva o ouvinte a uma travessia por paisagens cósmicas repletas de mistério e introspecção. As músicas "The Stargate" e "The Message" são divididas em três atos cada, estruturando-se em movimentos que transitam entre o caos e a harmonia, criando um forte equilíbrio entre tensão e tranquilidade.
"The Stargate [Tablet I]" abre o álbum com uma intensidade avassaladora, mergulhando o ouvinte em uma atmosfera de agressividade e turbulência. As guitarras afiadas e a instrumentação brutal, aliadas aos vocais carregados de raiva, criam um início que parece inabalável em sua ferocidade. No entanto, a faixa se transforma, abrindo caminho para uma sessão psicodélica. Esse momento de calmaria surreal segue por alguns minutos, e então a música retorna a um estado de vigor extremo, encerrando o movimento com uma explosão de energia selvagem que reafirma a natureza da banda.
"The Stargate [Tablet II]", traz uma colaboração de Thorsten Quaeschning, membro da banda Tangerine Dream. Essa parceria, logo deixa transparecer a direção sonora que a faixa tomará, mergulhando o ouvinte em paisagens sonoras oníricas e atmosféricas. A fusão de elementos eletrônicos e progressivos cria uma tapeçaria musical rica e envolvente, onde melodias etéreas flutuam suavemente, evocando sensações de introspeção. Um universo de tranquilidade e reflexão, contrastando com a ferocidade do movimento anterior – embora aqui aconteça alguns ataques de fúria também.
"The Stargate [Tablet III]", a terceira e última parte do primeiro épico apresenta uma alternância entre um clima opressivo e passagens de serenidade que remetem ao Opeth. Esses contrastes são habilmente explorados para criar uma dinâmica envolvente que prende o ouvinte e o guia por diferentes atmosferas. A peça também entrega uma inesperada influência da música indiana, trazendo texturas exóticas e um toque místico. O ponto alto, porém, vem com um dos riffs de guitarra mais memoráveis de todo o catálogo da banda.
"The Message [Tablet I]" inicia sua jornada sonora com uma explosão de agressividade e caos, mergulhando o ouvinte em um turbilhão de intensidade. No entanto, essa ferocidade é suavizada por arpejos delicados que criam uma atmosfera mais amena, proporcionando um respiro momentâneo em meio à tempestade sônica. Apesar desses momentos de tranquilidade, a faixa se desenvolve predominantemente por meio de vocais rosnados e uma instrumentação triturante que emergem a brutalidade característica da banda.
"The Message [Tablet II]", inicia com uma sonoridade tranquila. No entanto, essa tranquilidade é apenas uma introdução para algo muito mais intenso, onde surgem elementos marcantes e vibrantes que revelam o seu lado mais visceral e incendiário, com a banda imprimindo uma energia poderosa e explosiva. Porém, mesmo com essa intensidade, o som geral da peça mantém um toque leve, carregado de nuances psicodélicas que evocam paisagens sonoras e atmosferas etéreas que são claramente influenciadas pelo estilo da banda Eloy.
"The Message [Tablet III]", com mais de onze minutos de duração, é a faixa mais extensa do álbum e uma verdadeira viagem sonora. Desde os primeiros segundos, riffs intensos de guitarra rompem o silêncio, carregados de raiva e furor, enquanto a seção rítmica pulsa com uma energia incrível. No entanto, em seu núcleo, a faixa desacelera repentinamente, afastando a agressividade e dando lugar a uma sonoridade suave e contemplativa. Nesse ponto, o violão e texturas delicadas de sintetizadores surgem cuidadosamente, proporcionando uma transição celestial, mas que logo se dissolve para dar espaço ao retorno da instrumentação visceral e que segue até quase o final da música. O álbum se despede com a sutileza de notas de sintetizadores e o som distante de ondas se quebrando.
Por fim, é simplesmente fascinante a forma como a banda consegue criar uma fusão única, entrelaçando influências de grupos como Opeth em sua fase inicial e ainda adicionando sutis pinceladas de Pink Floyd e Eloy, especialmente em seu álbum Ocean. Absolute Elsewhere revela uma Blood Incantation que ao mesmo tempo em que preserva suas principais características, também aperfeiçoa com maestria a sua abordagem sonora, explorando uma paleta rica e diversificada que desconsidera qualquer tentativa de se encaixar em padrões estabelecidos.
NOTA: 10/10
Gênero: Death Metal, Metal Progressivo, Space Rock
The Stargate - 20:21
1. Tablet I - 8:21
2. Tablet II - feat. Thorsten Quaesching of Tangerine Dream - 5:09
3. Tablet III - 6:51
The Message - 23:24
4. Tablet I - 5:57
5. Tablet II - 5:59
6. Tablet III -11:28
samlrc - A Lonnely Sinner (2024)
Realizei uma busca por informações sobre uma artista que descobri recentemente e que eu admito que chegou a ser exaustiva, mas para minha surpresa, também descobri que muito pouco sobre ela está disponível online. No entanto, a escassez de informações não diminuiu o impacto que sua música causou em mim; pelo contrário, fiquei instantaneamente encantado. As melodias e harmonias que ela cria possuem uma qualidade única, envolvendo-me de maneira profunda e emocional, quase como se cada nota fosse uma espécie de abraço sônico confortante.
Basicamente, a única informação que consegui encontrar sobre ela estava em seu perfil no Bandcamp. Lá, Samantha, que adota o pseudônimo samlrc, se apresenta de maneira breve. Ela se identifica como uma artista experimental, um termo que carrega consigo uma amplitude de possibilidades e em muitos casos um convite à inovação. Este é aquele tipo de rótulo que embora não forneça detalhes específicos, sugere uma inclinação para romper com as convenções musicais e experimentar texturas, estruturas e sonoridades que podem ir além das expectativas.
A Lonely Sinner, seu mais recente álbum, é uma obra encantadora que navega por uma diversidade de paisagens musicais. O disco apresenta uma mistura rica de estilos e texturas, indo desde linhas melódicas delicadas e quase etéreas até seções mais densas e intensas, caracterizadas por influências, por exemplo, do post-metal e shoegaze. O álbum também reserva espaços para momentos de serenidade, com segmentos ambientais enriquecidos por melodias acústicas suaves. Esses trechos mais complacentes contrastam de forma marcante com as explosões mais vigorosas.
Algo que ajuda o disco a se tornar um material impressionante, é sua coesão. Apesar da diversidade de sons e estilos, ele entrega com clareza que cada um dos seus elementos foi cuidadosamente escolhido e orquestrado para coexistir harmoniosamente. Uma demonstração incrível de uma habilidade em balancear a fragilidade com a força, permitindo que elementos aparentemente conflitantes convivam em harmonia, complementando-se em vez de competir entre si, soando como uma verdadeira celebração da capacidade experimental de uma artista que sabe como manejar uma grande variedade de influências e inspirações.
A Lonely Sinner é um álbum arrebatador e complexo que por meio de uma narrativa requintada e cativante, submerge nas páginas de uma espécie de diário emocional, onde cada faixa conta a história de uma ovelha solitária em busca de sua redenção e realização pessoal. As melodias delicadas e os arranjos melancólicos estabelecem uma atmosfera de vulnerabilidade e autoconhecimento. À medida que o álbum progride, somos levados por uma montanha-russa de sentimentos amplos.
Cada música desempenha um papel vital na construção da paisagem sonora vasta e rica que define a essência do álbum como um todo, porém, claro que há os seus destaques. Philautia evoca uma atmosfera melancólica e introspectiva, suas texturas sonoras proporcionam uma sensação convidativa de exploração aos cantos profundos de uma experiência emocional. Tudo é carregado de nuances e sentimentos complexos, oferecendo do começo ao fim uma verdadeira viagem sônica envolvente e introspectiva.
Flower Fields é uma belíssima peça de piano ambiente que transmite uma atmosfera etérea e contemplativa. A melodia delicada e envolvente do piano cria uma sensação de tranquilidade, serenidade e paz. Porém, suas letras adicionam uma profundidade emocional intrigante, usando de metáforas e símbolos para explorar temas complexos como mortalidade, transformação e desejo. É aquele tipo de música de melodia onde a sonoridade suave do piano e as letras introspectivas criam uma experiência extremamente agradável.
Storge é outra exploração fascinante através do âmago de uma dramaticidade musical brilhante. Uma peça de paisagens intensas e camadas sonoras densas, onde o seu humor sombrio é fascinante. Quando a energia da música é amplificada de forma impetuosa, tenho que admitir que não vou me lembrar da última vez que me arrepiei tanto ouvindo algo. Uma bela harmonia para expressar temas como a coragem, ambição e enfrentamento dos medos que podem nos impedir de alcançar nosso potencial de forma plena.
Tudo bem que o seu conceito acontece com base na perspectiva de uma ovelha, mas eu peguei essa ideia e a trouxe para a minha própria existência, o que acredito que também seja um dos objetivos do álbum, permitir justamente que o ouvinte se identifique e interprete as narrativas de forma pessoal, aplicando essas ideias ao contexto da sua própria vida, afinal, o disco não apenas conta uma história, mas parece incentivar uma reflexão individual.
Como mencionei, todas as faixas tem seus próprios méritos e contribuem para a criação de um disco extremamente coerente, onde cada uma de suas melodias abraçam de forma condizente suas narrativas. É evidente como cada composição foi cuidadosamente trabalhada para garantir uma harmonia musical que ecoa perfeitamente a intenção e visão por trás de todas as ideias pensadas em relação ao álbum. A Lonely Sinner é simplesmente sublime.
NOTA: 10/10
Gênero: Post-Rock, Post-Metal, Música Ambiente, Shoegaze
1. Lamb Theme - 1:48
2. Philautia - 12:00
3. Sinner - 7:55
4. Flowerfields - 4:44
5. Storge - 11:42
6. Sheep Theme - 3:05
7. For M. - 5:13
8. The Beauty Of The Present Moment - 2:38
sábado, 18 de janeiro de 2025
Jon Anderson - True (2024)
Jon Anderson é um desses raros artistas cujo nome por si só evoca admiração e reverência. Sua voz que é pura como cristal, além de etérea e singular, ressoa como uma marca registrada inconfundível, sendo o coração pulsante do som icônico e inimitável do Yes em sua era de ouro. Ao longo dos discos mais emblemáticos e aclamados da banda, Anderson desempenhou o papel de alma vocal, tecendo com sua interpretação única um legado musical que transcende o tempo e toca profundamente diferentes gerações.
Além de sua trajetória com o Yes, Anderson também construiu uma carreira solo prolífica e diversificada ao explorar uma vasta gama de gêneros que vão desde a música eletrônica até a world music. Sempre soube reinventar-se sem perder sua essência. Sua versatilidade o levou a colaborações com grandes nomes da música, como por exemplo, o compositor Vangelis. Essas parcerias não só expandiram os horizontes de sua própria expressão artística, mas também reafirmaram sua capacidade de transcender fronteiras musicais e consolidaram seu lugar como um dos mais criativos e influentes músicos de sua geração.
Seu mais novo disco, True, em parceria com a banda The Band Geeks - que é renomada por suas performances detalhadas e habilidade em recriar sons intricados, especialmente em tributo ao próprio Yes -, Anderson explora temas e sonoridades que relembram o auge criativo da música progressiva dos anos de 1970, criando um álbum que combina a complexidade instrumental e a riqueza melódica típicas do gênero, com camadas de arranjos vocais elaborados e que é uma marca registrada de Jon ao longo de sua carreira.
"True Messenger" começa com energia e intensidade ao introduzir no álbum uma vibração forte e envolvente. Anderson está em ótima forma, entregando uma performance poderosa que realmente dá vida à música. Com arranjos bem construídos e um ritmo que flui de forma natural, a peça se destaca como uma excelente abertura para o álbum, já deixando claro que ele entregará para o ouvinte uma experiência empolgante.
"Shine On" proporciona uma continuidade empolgante no álbum. O destaque aqui vai para o trabalho de baixo que entrega um groove consistente e envolvente que serve como uma base sólida para o restante dos instrumentos. A linha de baixo, além de bem executada, adiciona uma profundidade à faixa, fazendo com que a peça brilhe de uma forma especial, com aquele toque de nostalgia fazendo lembrar os melhores momentos do Yes.
"Counties and Countries", com seus quase 10 minutos, é um dos dois épicos do disco. Logo no seu início a música entrega uma atmosfera cinematográfica. O trabalho de guitarra emocional e impactante faz claramente um aceno à Steve Howe, intensificando a narrativa da peça. Bastante dinâmica, é oferecido ao ouvinte uma jornada musical complexa e riquíssima em nuances onde tudo é produzido de uma maneira claramente bem pensada. Mas sem dúvida alguma, a melhor parte é a final, com teclas ao melhor estilo Wakeman e Anderson fornecendo um vocal intenso.
"Build Me an Ocean", nem sempre baladas lentas demais me agradam, no entanto, eu estaria sendo injusto se não reconhecesse o apelo emocional que é entregue aqui. Desde o início é criado uma atmosfera suave e contemplativa que se destaca pela sua simplicidade e sinceridade com que tudo é executado. Seus arranjos delicados conseguem soar muito dramáticos enquanto que a interpretação de Anderson carrega uma vulnerabilidade genuína que faz cada verso ressoar de maneira profunda.
"Still a Friend", novamente encontramos linhas robustas de baixo e vocais inspiradíssimos. Mas também existe um porém, inicialmente são muitas ideias musicais se sobrepondo e tornando o fluxo um pouco fragmentado. Embora essas mudanças constantes tragam variedade, a faixa acaba parecendo um pouco sobrecarregada, como se estivesse tentando explorar direções demais ao mesmo tempo. Poderia ser melhor? Poderia. O que não quer dizer deixou de ser uma boa música – principalmente na sua segunda metade.
"Make it Right", inicia por meio de um violão cativante. Tem um andamento lento e é centrada nos vocais em uma melodia que fica facilmente na cabeça, revelando uma simplicidade que destaca a performance de Anderson e as emoções transmitidas. Só acho que a música poderia se beneficiar de passagens instrumentais mais amplas que dessem aos músicos a chance de explorar temas musicais com mais profundidade. Ainda assim, possui um belo solo de guitarra como destaque.
"Realization Part Two" soa como uma espécie de extensão natural da faixa anterior, mantendo um senso de continuidade e fluidez entre as duas músicas. A batida descontraída e as linhas melódicas simples criam uma atmosfera agradável e acolhedora, convidando o ouvinte a mergulhar na suavidade dos acordes e no charme da percussão.
"Once Upon a Dream", será que chamar de obra-prima serie exagero? De qualquer forma, esse épico de mais de 16 minutos é incrível. Desde o começo a faixa se destaca como uma experiência musical poderosa. Toda a sua estrutura é impecável e cheia de contrastes envolventes que conseguem manter sua intensidade o tempo inteiro. Apesar de ser maravilhosa do começo ao fim, é a parte final que por meio do seu toque de grandiosidade e emoção, consegue capturar a essência do Yes em sua melhor fase, ao mesmo tempo em que é incluída uma magia particular de Anderson, criando um encerramento espetacular que amarra brilhantemente tudo que a peça entregou até aqui. Aquele tipo de música que já nasce com o status de clássico.
"Thank God" é a faixa que encerra o disco. Vi em algum lugar que Anderson aqui presta uma homenagem à sua esposa. Uma música discreta e suave quase como um suspiro final e que traz uma sensação de paz e amplitude. A simplicidade da composição e a leveza dos arranjos deixam um efeito acolhedor que permite que o ouvinte absorva e reflita sobre toda a experiência do álbum. Uma excelente maneira de encerra esse disco lindíssimo.
É realmente gratificante ver artistas como Jon Anderson, aos 79 anos, ainda dedicados a entregar trabalhos sólidos e relevantes. Isso não apenas evidencia sua paixão duradoura pela música, mas também ressalta sua habilidade de continuar inovando e se conectando com o público. True é uma demonstração clara de como ele mantém sua essência musical ao mesmo tempo em que explora novas sonoridades e ideias. E é exatamente essa combinação de respeito pelo legado e vontade de se reinventar que o torna tão especial.
NOTA: 9.2/10
Gênero: Rock Progressivo
Faixas:
2. Shine On - 4:18
3. Counties and Countries - 9:51
4. Build Me an Ocean - 3:19
5. Still a Friend - 5:01
6. Make It Right - 6:07
7. Realization Part Two - 3:32
8. Once upon a Dream - 16:31
9. Thank God - 3:48
sexta-feira, 17 de janeiro de 2025
Perfect - Monkey Jockey and the Safari Tick Sugar (2024)
Originária de Akron, Ohio, a banda Perfect rapidamente se consolidou como um nome diferenciado no cenário do rock progressivo. Com uma sonoridade arrojada, o grupo desafia continuamente as expectativas – sem qualquer preocupação se vai falhar ou não em suas ideias -, explorando territórios musicais que surpreendem até os ouvintes mais experientes e acostumados com ideias desafiadoras. Fundada em 2017 sob o nome de Perfect Girl, a banda demonstrou desde o início um forte talento para experimentações sonoras ao misturar estilos e influências de maneira bem particular.
A formação original, composta por Tony Batey (vocais, baixo e saxofone), Sam Holik (guitarra) e Jake Ross (bateria), trouxe com ela um combinando de técnica refinada com uma abordagem criativa. No entanto, à medida que amadureciam artisticamente, o grupo passou por transformações significativas, tanto em sua música quanto em sua identidade. Essa evolução culminou na decisão de abandonar o "Girl" do nome original, optando por uma expressão mais direta. Esse ajuste refletiu a busca por uma identidade que não apenas representasse sua maturidade, mas também destacasse sua ambição de ir além dos rótulos tradicionais e criar algo verdadeiramente impactante.
Contudo, a transformação mais significativa na trajetória da banda ocorreu em 2019, um ano marcado como um ponto de inflexão em sua evolução sonora. Nesse ano, Sam Colgrove assumiu o baixo, substituindo Tony Batey e trazendo consigo uma nova perspectiva musical que impulsionaria o grupo em direções ainda mais surpreendentes. Com Colgrove integrando a formação, a banda mergulhou ainda mais fundo em uma abordagem experimental e intricada, incorporando elementos de math rock, avant-prog e jazz fusion.
Essa mudança não tinha a ver apenas com trocar um músico por outro, era também uma renovação criativa, com composições que se tornariam mais complexas e com estruturas rítmicas imprevisíveis, harmonias sofisticadas e uma fusão de estilos que frequentemente rompem as barreiras entre os gêneros. Nesse novo capítulo, a banda consolidou um DNA sonoro particular, onde recusava-se ser limitada por rótulos ou categorizada dentro de apenas um gênero.
Após um período de dedicação e refinamento criativo, a banda lançou em agosto de 2022 o seu álbum de estreia. O disco não representava apenas o resultado de anos de esforço e experimentação, mas também o início de um novo capítulo na sua história. O álbum refletiu uma evolução significativa ao trazer uma profundidade e maturidade que capturaram a essência da banda enquanto abriam novas possibilidades sonoras. Essa transformação foi impulsionada pela entrada de novos integrantes, sendo Ian Palmerton nos vocais, Michael Weber nos teclados e Eric Perez no saxofone. Esses novos elementos adicionaram uma riqueza instrumental e uma sofisticação harmônica que antes eram apenas vislumbradas nas composições do grupo. A inclusão do trio trouxe novas camadas de textura e complexidade, além de elevar a música a um estágio mais vibrante.
O álbum conquistou um público que embora ainda fosse pequeno, mostrou-se profundamente conectado à criatividade do grupo. É fato que essa abordagem sonora não convencional em alguns casos poderia de certa forma assustar aqueles menos familiarizados com tanta experimentação, porém, ainda assim, a banda permaneceu fiel à sua visão artística, mantendo-se abraçado a uma sonoridade desafiadora.
O lançamento de Monkey Jockey and the Safari Tick Sugar em 2024 foi uma reafirmação vibrante da identidade destemida e criativa que define a banda. Desde os primeiros instantes de audição, fica evidente que o grupo não está disposto a diluir sua sonoridade ou comprometer sua visão artística para alcançar um público mais amplo do que o conquistado com seu álbum de estreia. Pelo contrário, o título intrigante e excêntrico do disco já funciona como uma introdução ao universo peculiar que a banda convida os ouvintes a explorar.
Aqui eles aprofundaram ainda mais sua abordagem ousada, tecendo uma tapeçaria sônica que mergulha em territórios musicais inesperados. O álbum é uma verdadeira aventura sonora, com composições que oscilam entre momentos de intensidade visceral e passagens de sutileza quase etérea. Cada faixa por meio de suas reviravoltas e surpresas mantêm o ouvinte intrigado a cada segundo, mesmo que seja para no fim dizer que não entendeu muito bem a proposta, afinal, em vez de buscar fórmulas seguras, o grupo abraça com fervor toda a sua essência experimental. Monkey Jockey and the Safari Tick Sugar é um convite para aqueles que desejam se aventurar além dos limites do familiar e descobrir um som que é ao mesmo tempo desafiador e recompensador. Com isso, a banda solidificou sua posição como uma força criativa única.
Com suas seis faixas distribuídas ao longo de 44 minutos, Monkey Jockey and the Safari Tick Sugar é muito mais do que um simples conjunto de músicas, ele é uma jornada sônica projetada para ser vivida do começo ao fim. O álbum se destaca por sua abordagem avant-garde que esfarela qualquer vestígio da música tradicional, deixando claro para o ouvinte abandonar qualquer tipo de expectativa e se deixar levar pelo imprevisível. Cada momento do disco é um tapete vermelho estendido esperando o desfile de experimentações ousadas e surpreendentes.
Podendo ser descrito facilmente como uma espécie de “avalanche musical,” o trabalho encontra sua força em sua intensidade inabalável e em sua capacidade de manter o ouvinte em constante estado de alerta. Ritmos intrincados, harmonias complexas e mudanças abruptas de dinâmica se combinam para criar uma experiência sonora que não apenas cativa, mas também exige atenção total. É um convite irresistível para mergulhar profundamente em um universo sonoro que celebra a criatividade sem limites.
A natureza desafiadora e até um pouco assustadora do álbum sugere que ele não é facilmente acessível para uma escuta casual. Longe de ser um pano de fundo para atividades cotidianas, o disco exige atenção plena e disposição para se deixar levar por uma experiência auditiva que transcende as expectativas comuns sobre o que esperar de estruturas e harmonias. O álbum é claramente voltado para aqueles momentos em que o ouvinte deseja explorar as fronteiras do que é comumente aceito como música, desafiando-se a encontrar beleza e significado em composições que não tem a menor intenção de soarem simplórias.
Para muitos essa complexidade pode parecer um obstáculo, mas para aqueles dispostos a enfrentar o desafio o álbum oferece ótimas recompensas. Esses ouvintes podem descobrir novas camadas de apreciação musical e reconhecer a habilidade e a intenção por trás de composições que parecem querer anarquizar normas e exploram o potencial expressivo do som. Para esses aventureiros o disco não é apenas uma coleção de faixas, mas um convite a reflexões mais profundas sobre a natureza da música e sua capacidade de evocar vários tipos de emoções.
Em muitos aspectos, bandas como a Perfect servem como lembretes de que a música em sua essência é um campo ilimitado de possibilidades criativas, onde a coragem de explorar o desconhecido e a paixão por compartilhar essa exploração com o mundo são as chaves para a verdadeira inovação, ainda que essa ousadia nem sempre seja recompensada comercialmente.
Por fim, Monkey Jockey and the Safari Tick Sugar não é apenas uma continuação da trajetória musical da banda, mas um salto audacioso em direção ao desconhecido. Demonstra não apenas a habilidade técnica de cada integrante, mas também a imaginação ilimitada de alguns amigos que juntos estão prontos para produzir música para pessoas que assim como eles estão dispostas a explorar o extraordinário e inesperado.
NOTA: 9,2/10
Gênero: Rock Progressivo, Rock Experimental, Avan-Prog, Jazz Rock
Faixas:
2. Acoustic Encryption - 5:50
3. Ungly Cane Day - 3:58
4. Tick Sugar - 5:15
5. A Wreath of Virtuous Infinite (The) - 10:01
6. Miserable Circuit - 2:36
60 anos de: A Love Supreme - John Coltrane (1965)
Com certeza que A Love Supreme é um dos álbuns mais brilhantes da história do jazz instrumental e ao mesmo tempo uma...









