sexta-feira, 13 de julho de 2012
crítica da razão dietética IV - Simone de Beauvoir
"Nunca haverá uma mulher como Gilda".
Sim, para a personagem imortalizada por Rita Hayworth, tal slogan caía como uma luva, ou melhor, como o par de luvas tirado pela femme fatale na legendária cena que extinguia de vez qualquer dúvida sobre quem era, entre os os terráqueos humanóides, o mais belo e sedutor espécime do sexo feminino.
Mas se a beleza embasbacante de Gilda/Rita não encontrava concorrentes à altura (o que provavelmente se repetia em relação aos seus recordes halterocopistas), muitos outros superlativos sobraram como títulos de consolação para o restante das fêmeas da raça dos bípedes implumes.
Esse mesmo bordão, portanto, seria aplicável - em sentidos muito variados - a outras tantas campeãs em suas respectivas modalidades.
Não faltariam motivos para dizer com toda a tranquilidade, por exemplo, que nunca haverá uma mulher como Simone.
Entre todas as distinções que lhe caberiam, com ou sem exclusividade (e a de ter sido companheira do mais medonho espécime filosofante que já se viu sobre a terra desde a morte de Sócrates é uma delas), Simone de Beauvoir se destacava a olhos vistos por seu versátil, eclético, tenaz, inescrupuloso, caprichoso, intrépido e dialético apetite.
Em sua vasta gastrobiografia, as antinomias abundavam, registradas, muitas vezes, em páginas e mais páginas de seus diários (os de viagem, sobretudo). Outras vezes, singelas notas de 2 ou 3 linhas bastavam para expressar seus juízos estéticos sobre suas nômades refeições diárias ou para reportar suas observações antropológicas referentes às experimentações culinárias mundo afora. Independente da loquacidade das anotações, o que mais impressiona é a constância: raríssimos são os textos de La Beauvoir em que não se encontra alguma referência à comida, seja a recém deglutida, seja a recém constituída em objeto de desejo.
A acreditar em testemunhos de terceiros, Simone parecia também não ter escrúpulos em indicar por sinais corporais - discretos, porém francos o suficiente para serem interpretados, às vezes, como signos de antipatia - o seu grau de assentimento ou repulsa às iguarias que calhavam de desafiar-lhe o apetite.
Um desses testemunhos foi dado por um de seus anfitriões no Brasil, o ex-presidente FHC que relata, nesta entrevista, que Simone "titubeou diante da sopa de mandioquinha que Ruth preparou" . Mas não impunemente, pois -complementa FHC: "na hora da sobremesa nos vingamos. Servimos goiabada com queijo, combinação que desagradou ainda mais a Simone. Ela torceu o nariz e acabou engolindo o doce por mera educação".
Pusilânime diante de uma inofensiva sopa de mandioquinha, a "doce Castor"era capaz, no entanto, de mostrar impressionante audácia, despojamento e liberalidade em situações peri-gastronômicas que seriam capazes de traumatizar de modo indelével o apetite da maioria dos mortais, obrigando a nós, seus leitores, a relevar suas pequenas rabugices.
Sim: que rabugice não se tornaria imediatamente insignificante diante de demonstrações hiperbólicas de heterodoxia e até, porque não dizer, de coragem diet-ética?
Uma dessas demonstrações encontra-se registrada no diário que Simone escreveu durante sua estadia nos EUA, no final dos anos 40. Depois de já ter relatado sua simpatia pelos hamburguers, costeletas de porco com fritas, chili com carne e outras fast-foods facilmente degustáveis em qualquer lanchonete, uma experiência mais radical lhe é proporcionada durante sua passagem por Chicago: a visita a um dos maiores matadouros do país.
Observe-se que, embora o cenário por ela descrito sugira forte impacto, este não foi suficiente para arrefecer seu ânimo orexígeno. Nem a agudeza de suas reflexões sobre a luta de classes, nem a sutileza de suas digressões metafísicas, nem qualquer proselitismo carnofóbico-vegetariano, nem o apelo da argumentação eco-politicamente correta foram capazes de abalar a firmeza da sua decisão de "comer sem reservas um pedaço desse toucinho...."
Também não sairei de Chicago sem ver os matadouros. Sabe-se que é a grande central em que de todos os cantos da América afluem os animais vivos que são depois reexpedidos através de todo o país sob a forma de carne frigorificada e de caixas de conserva.
(...) O guia abre a porta; dir-se-ia que vamos visitar um museu. Simplesmente, ao fim de uma longa galeria de madeira, cujo pavimento sobe e desce em rampas, um cartaz previne-nos: "as pessoas sensíveis não devem entrar". Toda a gente entra.
Os matadouros são empresas particulares; há-os grandes e modestos: parece-me que este é um dos mais importantes. Construíram-se plataformas de propósito para os turistas, à roda de vastas salas, entre o solo e o teto; desta posição sobranceira podemos observar, com olhar ao mesmo tempo preciso e distante, a agonia dos animais e o trabalho dos homens; grandes cartazes numerados explicam-nos as diferentes fases das operações (...).
Essas grandes oficinas de matança já foram descritas vezes bastantes para eu precisar de o repetir; os porcos grunhem, o sangue esguicha, e já, ao quinto cartaz, os animais estão abertos, decapitados, escaldados, tranformados numa matéria dócil, como a madeira em tábuas aparelhadas. Antes de serem distribuídos, os animais passam vinte e quatro horas pendurados nos ganchos, nas vastas salas de refrigeração; menos que uma operação de fins utilitários, é isto, parece-me, um rito sagrado; é a velada de armas, a iniciação que transfigura um ser carnal, radicado na Natureza e penetrado de eflúvios turvos, numa conquista humana, que tem o seu lugar e o seu papel na sociedade; o animal que há pouco expelia sangue e gritos torna-se em alimento, de que um indivíduo civilizado se pode alimentar com toda a segurança de espírito; assim também o matrimônio transforma em casta esposa a mulher de peçonhento sexo.
Nos grandes armazéns que se abrem ao lado dos frigoríficos, os presuntos enrolados em celofane têm a cor do trigo maduro do pão cozido; o ouro tostado das chamas, e os sortilégios do sangue e da carne foram esconjurados. Comerei sem reservas um pedaço desse toucinho.
Embora a morte dos bois seja menos horrivelmente espetacular que a dos porcos, que são degolados, visto os bois estarem escondidos por trás de uma paliçada de madeira quando o malho das execuções se lhes abate na cabeça, é este enorme palácio da matança que me causa a impressão mais violenta. No meio do cheiro quente do sangue, à surda luz da sala em que reluz o aço das facas, dois dramas se sobrepõem: o do homem contra os bichos e o dos homens entre si. Não é por acaso que os braços sangrentos que desmancham os cadáveres são quase todos, sob as suas luvas vermelhas, braços negros. O trabalho dos matadouros é dos mais duros que há , e a história dos matadouros um dos capítulos mais sombrios da história do trabalho na América: uma história de greve e lutas raciais (...).
Olho os bois, que, por um alçapão bruscamente aberto aberto rolam, demolidos, ainda palpitantes, no chão lajeado; um gancho apanha-os, iça-os, e um braço armado de uma faca corta-lhes uma artéria e a vida.
Decapitam-nos, deitam-se-lhes sobre as patas um largo panobranco, levam-se em carros enormes montes de vísceras e baldes cheios de sangue espumoso; vazam-se no lajedo vasos de água, cujo brilho metálico se enche contra o solo de reflexos assassinos. Esta colossal matança é a tragédia visível ; não é mais do que o símbolo de outra tragédia mais cruel, mais oculta. Para viver, o homem absorve vidas estranhas: mas é também de seus semelhantes que se nutre. Afigura-se-me de súbito que o gume das lâminas nas carnes cortadas, todo este grande cenário de sangue e de aço se destina apenas a tornar manifesto o temeroso sentido dessa lei natural a que estamos habituados desde que nascemos: o homem é um animal que come." (A América dia a dia. Lísboa, Arcádia, s/d. Pgs 379 a 381).
terça-feira, 16 de novembro de 2010
domingo, 1 de agosto de 2010
crítica da razão dietética III - Derrida
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Depois de muito vasculhar grande parte do armazém bibliográfico de Derrida, infelizmente não consegui encontrar (se alguém souber indique-me, por favor) um só trace de alguma circonfession gastronômica.
Mas nem tudo são indecidíveis migalhas nessa pós-desconstrução culinária...
Embora as singularidades do paladar derridiano permaneçam incógnitas para nós, o diferido menu de hoje pelo menos nos oferece um suplemento: dois textos nos quais são tematizados a ingestão de animais, o sacrifício, o vegetarianismo, o canibalismo e a hospitalidade.
Se agora o limite entre o vivo e o não-vivo parece tão pouco seguro, pelo menos como limite oposicional, tanto quanto o limite entre “homem” e “animal”, e se, na experiência (simbólica ou real) do “falar-comer-interiorizar”, a fronteira ética não mais passa rigorosamente entre o “não matarás” (o homem, teu próximo) e o “não submeterás à morte o vivente em geral”, mas entre inúmeros modos, infinitamente diferentes, da concepção-apropriação-assimilação do outro, a questão passa a ser então, quanto ao “Bem” de todas as morais, como determinar a melhor maneira, a mais respeitosa e a mais grata, a mais generosa, também, de se referir ao outro e de referir o outro a si. Para tudo o que se passa na beira dos orifícios (da oralidade mas também da orelha, do olho – e de todos os “sentidos” em geral) a metonímia do “comer bem” seria sempre a regra. A questão não é mais saber se é “bom” ou “do bem” comer o outro, e qual outro. Comemo-lo, de todo modo, e nos deixamos comer por ele. As culturas ditas não antropofágicas praticam a antropofagia simbólica e até mesmo constroem seus socius mais elevados, quer dizer, a sublimidade de sua moral, de sua política e de seu direito sobre essa antropofagia. Os vegetarianos também comem animais, e até mesmo homens. Eles praticam um outro modo de denegação. (...)
Depois de muito vasculhar grande parte do armazém bibliográfico de Derrida, infelizmente não consegui encontrar (se alguém souber indique-me, por favor) um só trace de alguma circonfession gastronômica.
Mas nem tudo são indecidíveis migalhas nessa pós-desconstrução culinária...
Embora as singularidades do paladar derridiano permaneçam incógnitas para nós, o diferido menu de hoje pelo menos nos oferece um suplemento: dois textos nos quais são tematizados a ingestão de animais, o sacrifício, o vegetarianismo, o canibalismo e a hospitalidade.
Comendo o mingau pelas bordas, ou melhor, desconstruindo o crème de la crème da tradição metafísica, Derrida atinge o tutano do problema (para ele), aquela que seria a grande questão diet-ética que inquietou as filosofias e religiões de todos os tempos: "Deve-se comer bem”. Mas como se deve comer bem? Ou comer o Bem? O Bem é comível? O quê (ou quem) se deve e não se deve comer? (e por aí afora. Ou melhor, adentro....).
O primeiro desses textos – bastante gorduroso, aliás – é , na verdade, uma entrevista que data de 1988 e que em 1992 foi republicada em Points de Suspension com o título de "Il faut bien manger" - le calcul du sujet.
O trecho da entrevista em que esses temas aparecem é o recheio de uma indigesta discussão sobre os modos como os vários discursos metafísicos – sobretudo os de Heidegger e Lévinas – trataram a questão do sujeito, do próximo, da responsabilidade perante o outro e, consequentemente (ou não), pensaram a distinção entre o homem e o animal.
Abaixo, uma palhinha dessa tentativa derridiana de abate do carno-falogocentrismo:Não se trataria apenas de evocar a estrutura falogocêntrica do conceito de sujeito, pelo menos não em seu esquema dominante. Eu gostaria de demonstrar um dia que esse esquema implica a virilidade – carnívora. Eu falaria de um carno-falogocentrismo, se isso não fosse uma espécie de tautologia (...). Basta levar a sério a interiorização idealizante do falo e a necessidade de sua passagem pela boca, quer se trate das palavras ou das coisas, das frases, do pão ou do vinho cotidiano, da língua, dos lábios ou do seio do outro. (...)
(...) A força viril do macho adulto, pai, marido ou irmão (...) pertence ao esquema que domina o conceito de sujeito. Este não se quer apenas mestre e possuidor ativo da natureza. Em nossas culturas, ele aceita o sacrifício e come carne. (...) O chefe deve ser comedor de carne (em vista de ser, aliás, ele próprio “simbolicamente” – ver mais acima – comido). (...).
(...) A força viril do macho adulto, pai, marido ou irmão (...) pertence ao esquema que domina o conceito de sujeito. Este não se quer apenas mestre e possuidor ativo da natureza. Em nossas culturas, ele aceita o sacrifício e come carne. (...) O chefe deve ser comedor de carne (em vista de ser, aliás, ele próprio “simbolicamente” – ver mais acima – comido). (...).
Se agora o limite entre o vivo e o não-vivo parece tão pouco seguro, pelo menos como limite oposicional, tanto quanto o limite entre “homem” e “animal”, e se, na experiência (simbólica ou real) do “falar-comer-interiorizar”, a fronteira ética não mais passa rigorosamente entre o “não matarás” (o homem, teu próximo) e o “não submeterás à morte o vivente em geral”, mas entre inúmeros modos, infinitamente diferentes, da concepção-apropriação-assimilação do outro, a questão passa a ser então, quanto ao “Bem” de todas as morais, como determinar a melhor maneira, a mais respeitosa e a mais grata, a mais generosa, também, de se referir ao outro e de referir o outro a si. Para tudo o que se passa na beira dos orifícios (da oralidade mas também da orelha, do olho – e de todos os “sentidos” em geral) a metonímia do “comer bem” seria sempre a regra. A questão não é mais saber se é “bom” ou “do bem” comer o outro, e qual outro. Comemo-lo, de todo modo, e nos deixamos comer por ele. As culturas ditas não antropofágicas praticam a antropofagia simbólica e até mesmo constroem seus socius mais elevados, quer dizer, a sublimidade de sua moral, de sua política e de seu direito sobre essa antropofagia. Os vegetarianos também comem animais, e até mesmo homens. Eles praticam um outro modo de denegação. (...)
A questão infinitamente metonímica a respeito do “deve-se comer bem” não deve ser nutritiva apenas para mim, que então comeria mal, ela deve ser compartilhada, como você talvez o diria, e não apenas na língua. “Deve-se comer bem” não quer dizer, primeiramente, apreender e incorporar em si, mas aprender e dar de comer, aprender-a-dar-de-comer ao outro. Nunca se come sozinho, eis a regra do “deve-se comer bem”. É uma lei da hospitalidade infinita.
(Aqui vc lê o trecho sem os cortes. Na rede o texto Il faut bien manger na íntegra é facilmente encontrado em francês e em inglês.)
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O outro extrato, que segue mais ou menos a mesma linha, porém com um tom levemente mais sentimental está numa entrevista com Elizabeth Roudinesco (De que amanhã, Zahar, 2004, trad. André Telles.):
O outro extrato, que segue mais ou menos a mesma linha, porém com um tom levemente mais sentimental está numa entrevista com Elizabeth Roudinesco (De que amanhã, Zahar, 2004, trad. André Telles.):
Derrida: (..) Tenho simpatia por aqueles que se revoltam: contra a guerra declarada a tantos animais, contra a tortura genocidária que se lhes inflige frequentemente de forma no fundo perversa, isto é, criando em massa, de maneira hiperindustrializada, rebanhos para assim exterminar para as supostas necessidades dos homem; sem falar das centenas de espécies que desaparecem a cada ano na superfície da terra por culpa dos homens que, quando não matam bastante, deixam morrer – supondo que o direito possa um dia estabelecer uma diferença confiável entre fazer e deixar morrer! (...) Não creio também no “vegetarianismo” absoluto, nem na pureza ética de suas intenções – nem mesmo que seja sustentável em todo o rigor, sem compromissos e sem substituição simbólica. Chegaria até a sustentar que, mais ou menos refinado, sutil, sublime, um certo canibalismo permanece insuperável. (...)
Roudinesco: Mas como conciliar sua preocupação de compaixão a respeito dos animais com a necessidade para os humanos de comer carne?
Derrida: Não basta se proibir de comer carne para se tornar não-carnívoro. O processo carnívoro inconsciente tem muitos outros recursos, e não acredito na existência do não-carnívoro em geral. Mesmo no caso daquele que acredita se contentar com pão e vinho . (...). Mesmo que não soubéssemos disso desde sempre, e pelo menos há dois mil anos, a psicanálise nos ensinou: os “vegetarianos” também podem incorporar, como todo mundo, e simbolicamente, o vivo, a carne e o sangue – de homem ou de Deus. Também os ateus gostam de “comer o outro”. Caso amem, pelo menos, pois é a tentação do próprio amor. Um pensamento aqui para a Pentesiléia de Kleist. Ela foi um dos grandes personagens de um seminário que dediquei há anos a exatamente isto: “comer o outro”.
Roudinesco: Ainda mais que, de um ponto de vista psicanalítico, o terror de ingestão da animalidade pode ser sintoma de um ódio do vivo levado até o assassinato. Hitler era vegetariano
Derrida: Alguns ousaram extrair um argumento desse vegetarianismo de Hitler. Contra os vegetarianos e os amigos dos animais. Luc Ferry, por exemplo (Le nouvel ordre écologique). Essa catilinária caricatural procede mais ou menos assim: “Ah, vc esquece que os nazistas, e Hitler em particular, foram uma espécie de zoófilos! Portanto amar os animais é odiar ou humilhar o homem! A compaixão pelos animais não exclui a crueldade nazista, é inclusive seu primeiro sintoma!” O argumento me parece grosseiramente falacioso. Quem poderia acreditar um segundo nessa paródia ? E aonde nos levaria ele? A redobrar a crueldade para os animais a fim de dar provas de um humanismo incalculável? (...)
(...) O animal sofre, manifesta seu sofrimento. É impossível imaginar que um animal não sofra quando submetido a uma experimentação de laboratório, ou mesmo um adestramento de circo. Quando vemos passar um número incalculável de bezerros criados à base de hormônios, entulhados num caminhão e enviados diretamente do estábulo para o abatedouro, como imaginar que não sofram? Além disso, com o abate industrial, os animais sofrem em muito maior número do que antigamente.
Roudinesco: (...) Mas como fazer para conciliar essa vontade de redução do sofrimento animal com a necessidade de uma organização industrial de criação e abate que permita acabar com a fome de tantos seres humanos?
Derrida: Uma grande desorganização-reorganização da terra humana está em curso. Pode-se esperar o melhor e o pior, claro. Mas sem fazer o elogio de um vegetarianismo primário, podemos lembrar que o consumo de carne nunca foi uma necessidade biológica. Não se come carne simplesmente porque se precisa de proteínas – e as proteínas podem aliás ser encontradas em outras coisas. Existe no consumo de carne, como aliás no caso da pena de morte, uma estrutura sacrificial, e portanto um fenômeno “cultural” ligado a estruturas arcaicas que persistem e que é preciso analisar. Provavelmente nunca se deixará de comer carne – ou como eu sugeria há pouco, algum substituto equivalente da coisa carnada. Mas é possível mudar as condições qualitativas, a quantidade, a avaliação da quantidade, bem como a organização geral do campo da alimentação. (...)
Roudinesco: (...) Não esqueçamos que a gastronomia é parte integrante da cultura! A tradição culinária francesa poderia prescindir da carne?
Derrida: Existem outros recursos para o refinamento gastronômico. A carne industrial não é o fino dos finos em gastronomia. Cada vez mais (...) alguns preferem animais criados em certas condições, ditas mais “naturais”, em certos pastos, etc...Portanto, em nome da gastronomia que a senhora fala, será preciso efetivamente transformar os costumes e as “mentalidades”.
Roudinesco: A luta de José Bové contra a “péssima comida americana” e contra o McDonald’s em particular talvez seja o primeiro sinal dessa mudança. Do mesmo modo, o caso da doença da “vaca louca” deverá nos incitar a inevitáveis transformações.
Derrida: Não me peça para subscrever incondicionalmente o que se faz ou o que se fará nesse domínio, mas os sinais contam. Lembram uma mutação em curso.
Se quiser prosseguir no tema, há também a entrevista com Daniel Binbaum e Andress Olsson, An interview with Jacques Derrida on the Limits of Digestion.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
crítica da razão dietética II - Deleuze
Recordemos a cláusula-principio que regia a filmagem do L’Abecedaire: Deleuze deveria responder “sem ter refletido” às questões que lhe fossem feitas por Claire Parnet, sobre temas previamente escolhidos por ela e sobre cujo teor ele fora apenas “prevenido. Além disso, a entrevista só poderia ir ao ar após a morte de Deleuze (o que afinal acabou não acontecendo, pois ele mesmo acabou permitindo que o Abecedário fosse exibido pela primeira vez em 1994, um ano antes de sua morte).
Na distribuição dos temas pelas 26 letras do alfabeto, não coube ao vocábulo comida (ou similar) encabeçar nenhuma delas (candidatas potenciais seriam, p. ex., N de nourriture ou R de repas....).
Uma vez que o “roteiro” do Abecedário foi proposto por alguém que parecia conhecer bem os hábitos alimentares de Deleuze, fica claro o porquê da quase exclusão, como veremos mais adiante...
Embora tenha sido preterida pela bebida (esta sim ganhou letra própria, onde o tema é desenvolvido com prolixidade proporcional à importância que ele tinha na vida de Deleuze), ainda assim a comida passa, rapidamente, pela boca do entrevistado. É na letra M – de Maladie, não de manger – que Claire lhe coloca a questão, em meio a outros temas mais prementes que alimentação, mas que mantém com esta um vínculo triádico, formado pelos termos doença, comida e velhice.
Depois de relatar os efeitos da tuberculose (contraída em 1968) e distinguir doença de fadiga, Deleuze inicia sua fala como alguém que, aparentemente, sofre de inapetência.
“Comer é a coisa mais chata do mundo”, diz ele, expressão que soa natural se lida/ouvida na continuidade da reflexão sobre sua debilidade física, iniciada poucas frases antes.
O que surpreende é que essa espécie de aversão pelo ato de comer em nada impede a possibilidade de uma relação visceral, por assim dizer, com a comida: sua refeição ideal, “festiva” inclui miolo, língua ou tutano (ou os três juntos), iguarias que habitam uma espécie de região “double-bind” do paladar (“sublimes” e “nojentas” ao mesmo tempo).
Curioso é, também, que o próprio Deleuze brinca com uma espécie de isomorfismo entre seu “estilo” gastronômico e seu estilo de pensamento: a “santíssima trindade” formada por miolo, tutano e língua encontraria em sua filosofia um trio correspondente formado por conceito, afecto e percepto.
A título de brincadeira: como seria a correspondência com as 3 caóides (plano de imanência, plano de composição, plano de referência)?. Ou com as 3 linhas do rizoma (linhas de segmento, linhas moleculares, linhas de fuga)? Ou com as 3 forças que concorrem no ritornelo ( forças do caos, forças terrestres, forças cósmicas)? Etc..etc...
Um pequeno trecho de Maladie
CP: Gostaria de que falássemos de sua relação com a comida.
GD: A velhice... A velhice, não. A comida?
CP: Sim, porque você gosta de comidas que parecem lhe dar força e vitalidade, como miolo, lagosta, etc. Mas tem uma relação particular com a comida. Não gosta muito de comer.
GD: Sim, para mim, comer é uma coisa... Se eu tentasse definir a qualidade de comer seria muito chato. Para mim, comer é a coisa mais chata do mundo. Beber, sim! Mas a letra B já passou. Beber é extremamente interessante. Comer nunca me interessou e acho chatíssimo. Comer sozinho é terrível. Comer acompanhado muda tudo, mas não transforma a comida, só me permite suportar comer, mesmo que eu não diga nada, e faz com que seja menos chato. Comer sozinho... Muita gente é assim. Aliás, a maioria das pessoas admite que comer é uma tarefa abominável. Mas é claro que tenho os meus pratos prediletos. Mas são especiais, pois causam um nojo universal. Mas, afinal, eu bem que suporto o queijo dos outros.
CP: Você não gosta de queijo.
GD: Dentre as pessoas que não suportam queijo, eu sou um dos raros a ser tolerante, pois não expulso aquele que come queijo. Sempre suportei este gosto que me parece igual ao canibalismo. Parece-me o horror absoluto. Quando me perguntam de que é composta a minha refeição predileta, que seria uma festa para mim, eu sempre falo de três coisas que me parecem sublimes e, no entanto, são nojentas: língua, miolo e tutano. São coisas muito ricas e seria difícil engolir tudo isso. Mas há alguns restaurantes em Paris que servem tutano. Mas, depois, não posso comer mais nada, pois servem uma grande quantidade. Aliás, é fascinante. O miolo e a língua... Se eu tentasse relacionar com o que dissemos, há uma espécie de trindade. Poderíamos dizer — e seria anedótico — que o cérebro é Deus, é o Pai. Que o tutano é o Filho, já que está ligado às vértebras, que são pequenos crânios, e Deus é o crânio. Pequenos crânios, vértebras... Portanto, o tutano é Jesus. E a língua é o Espírito Santo, que é a própria potência da língua. Eu também poderia arriscar assim: o miolo é o conceito, o tutano é o afecto e a língua é o percepto. Não me pergunte por quê, mas sinto que são trindades. É, esta seria uma refeição fantástica para mim. Não sei se já tive os três ao mesmo tempo. Talvez em algum aniversário. Alguns amigos teriam feito uma refeição destas para mim. Uma festa!
CP: Mas não pode comer as três coisas...
GD: Seria demais!
Leia o Abecedário na íntegra aqui.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Crítica da razão dietética - I (Sartre)
...uma das tendências mais fundamentais da realidade humana: a tendência a preencher. (...) passamos boa parte de nossa vida a tapar buracos, a preencher vazios, realizar e fundamentar simbolicamente o pleno.(...) Quando põe o dedo na boca, a criança espera que o dedo se funda com os lábios e o palato e tape o orifício bucal, assim como se tapa com cimento a fenda de uma parede; ela busca a densidade, a plenitude uniforme e esférica do ser de Parmênides; e, se chupa o dedo, é precisamente para diluí-lo, transformá-lo em uma pasta grudenta que irá obturar o buraco de sua boca. Essa tendência é certamente uma das mais fundamentais entre aquelas que servem de base ao ato de comer: o alimento é a “massa” que obturará a boca; comer, entre outras coisas, é se 'encher'. (Sartre - O ser e o nada)
O paladar é assimilação; o dente revela, pelo próprio ato de mascar, a densidade do corpo que se transforma em bolo alimentar. Também a intuição sintética do alimento é, em si mesmo, destruição assimiladora. Revela-me o ser com o qual vou fazer minha carne. Assim sendo, o que aceito ou rejeito com repulsa é o próprio ser deste existente, ou, se preferirmos, a totalidade do alimento me propõe certo modo de ser do ser que aceito ou rejeito.(Idem)
Tendo por guia o mapa legado por Onfray, iniciemos, pois, nosso pequeno tour pela "gastrografosophia" francesa do século XX.
Se por um lado suas preferências alimentares eram poucas (lugar de destaque para a charcutaria, os ovos e as comidas pesadas) e sobre elas Sartre pouco comentou, são longas as análises sobre a sua acentuada repugnância por crustáceos, ostras e frutos do mar. Repugnância essa que persistiria por toda a vida, além da restrição ao tomate e aos vegetais e de sua indiferença pelas frutas in natura.
Em Cerimônia do Adeus, interrogado por Simone de Beauvoir sobre a origem de sua repulsa por algumas espécies marítimas, Sartre faz sua "análise dietética" pelo viés da ontologia fenomenológica que em 1943 ele desenvolvera em O Ser e o Nada (1943).
Na resposta a Simone, reaparece a problematização da consciência e do ser Em si:
Creio - pelo menos no que se refere aos crustáceos - que sua semelhança e sua relação com os insetos, os que vivem no ar e não na água, mas que têm esse grau de vida e essa consciência problemática que me incomodam e que têm sobretudo uma aparência em nossa vida cotidiana de serem completamente ausentes de nosso universo - quase completamente ausentes - que os coloca à parte. A comer um crustáceo, como coisas de um outro mundo. Essa 'carne' branca não é feita para nós, roubamo-la a um outro universo...
Simone: Mas o os frutos do mar não têm esse lado inseto que têm os crustáceos.Então porque não lhe agradam?
Sartre: É alimento escondido num objeto e que tem que ser extirpado. É sobretudo essa noção de extirpar que me incomoda; o fato de que a 'carne' do animal esteja de tal modo calafetada pela concha, que é preciso utilizar instrumentos para retirá-la ao invés de separá-las inteiramente. É portanto algo que se liga ao mineral. É realmente um dom do mineral, sendo a concha o mineral e o dom essa pouca 'carne' que há dentro dela.
Simone: (...) Isso não estará ligado a tudo o que pensa sobre o pegajoso, o viscoso e essa forma elementar de vida que faz com que sinta repugnância?
Sartre: "Certamente (..,). É uma forma quase vegetativa de existência. É o orgânico em vias de nascer, ou que só tem de orgânico esse lado um pouco repugnante de 'carne' linfática, cor estranha, de buraco aberto na 'carne'."
Onfray lembra que, em Diário de uma guerra estranha, Sartre já "plantara os alicerces do que podemos chamar a metafísica do buraco" e, no fim do último capítulo de o Ser e o nada ("Da qualidade como reveladora do ser") justamente a qualidade do viscoso é a privilegiada pela análise sartreana.
Um pequeno extrato:
O viscoso é dócil. Só que, no momento mesmo em que suponho possuí-lo, é ele que me possui, por uma curiosa inversão. Aqui aparece seu caráter essencial;sua moleza feita ventosa. (...) Separo as mãos, quero largar o viscoso e ele adere a mim, me sorve, me aspira; seu modo de ser não é nem a inércia tranquilizadora do sólido, nem um dinamismo como o da áqua, que exaure fugindo de mim: é uma atividade mole, babosa e feminina de absorção...(...) O viscoso é a vingança do Em si. Vingança adocicada e feminina, que será simbolizada, em outro nível, pela qualidade do açucarado. Por isso, o açucarado , enquanto doçura - doçura indelével, que perdura indefinidamente na boca e sobrevive à deglutição -, completa perfeitamente a essência do viscoso. O viscoso açucarado é o ideal do viscoso; simboliza a morte açucarada do Para si (a vespa que se enfia na geléia e se afoga).
Também a "metafísica do buraco" reaparece em O ser e o nada, amadurecida e associada, agora, à experiência infantil do contato com os buracos e a "tendência a preenchê-los".
Sartre prossegue, como diz Onfray, “brincando à vontade com esse buraco”. Nas páginas e páginas em que desenvolve sua abordagem (ao modo da psicanálise existencial), vai misturando os orifícios e as voracidades que deles emanam com temas como, sacrifício, mulheres, náusea, corpo, etc...
(Leia aqui um extrato de O ser e o nada a respeito).
* "Homem das luvas pretas" é, segundo Anne Cohen-Solal (biógrafa de Sartre), o apelido que Sartre ganhou na época em que vivia na Alemanha, por causa de seus bissextos hábitos de higiene....
crítica da razão dietética - Intro
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxCamus traçando uma feijoada ao lado de LIna Bo Bardi
Ok, ok: o assunto é batido, eu sei.
Mas apetitoso o suficiente para ainda regalar nossos palatos.
Pensar e comer, eis nosso petisco do dia.
A relação entre essas duas maneiras tão distintas (“ou não”, diriam Nietzsche, Caetano e Derrida) de gerir o metabolismo de seres, não-seres e entes foi ruminada por filósofos de todos os tempos, quer estivessem em questão os meios para promover a ataraxia; ou preconizar a cura das disorexias do “corpo-invólucro” submetendo-o à ortomorfia da razão; ou, ainda, ao se considerar a possibilidade de íntimas conexões entre estilos de pensamento e regimes alimentares.
Ah, sem esquecer que esse vatapá também foi apimentado por acalorados debates concernentes à extensão do direito de matar o futuro alimento (homens mulheres e crianças incluidos), como lembra Derrida ao falar de “carnofalogocentrismo” – ver futuro post numero 3 desta série). Numa abordagem mais prosaica (embora em muitos casos isso não exclua a verve, e talvez seja mesmo o único ponto de sua obra em que o autor a exiba), temos, ofertados ao desjejum de nossa reflexão (mas sobretudo à nossa diversão sobremesa) as páginas e páginas de singelas autoconfissões das idiossincrasias culinárias dos distintos pensadores.
De um modo ou de outro, no decorrer dos séculos toda essa “gastrographosophia” rendeu um repertório assaz eclético, no qual considerações de ordem ética, estética, prescritiva, proscritiva, moral, terapêutica, política e fenomenológica foram recheadas com ingredientes que vão do mais frugal figo mediterrâneo (v. Diógenes) ao mais elaborado peru com trufas de Ferney (v. Voltaire).
Sim, o menu pode ser tão sucinto quanto o pão de Heráclito e o que sobrou de seus escritos, ou tão prolixo quanto a obra e a dieta de Nietzsche (incluindo o presuntinho vienense enviado pela mama), ou o cérebro de Deleuze (cf. futuro post) – mas insosso como a coalhada de Rousseau – ah, lá isso é que não!
E olha que estou omitindo, digamos assim, a azeitona da empadinha, ou, como diria Kant (o comedor de sopa de aletria), o parerga da coisa toda: graves ponderações sobre a admissão, no mundo da arte, da música composta para banquetes; aporias envolvendo a superioridade do serviço à russa e à francesa; apreciações variadas sobre os modos camponeses à mesa; especulações sobre a curvatura do garfo de carne ou da baixa origem da louça, etc.......
Durante muito tempo, meu contato com o tema se dava ao melhor estilo “coffee-break””: leitura rápida e casual de uns poucos textos, a maioria deles na esteira daquelas célebres páginas de Nietzsche (em Ecce Homo) sobre seus próprios ensaios alimentares.
Isso até conhecer, anos atrás, os livros de Michel Onfray : A razão gulosa - filosofia do gosto (1995) e O ventre dos filósofos (1989).
Em O ventre dos filósofos, Onfray "convida para o banquete": Diógenes, Rousseau, Kant , Fourier, Nietzsche e Sartre.
No último capítulo - hilariamente intitulado "Sartre ou a vingança do crustáceo", Onfray delineia o perfil dietético do filósofo. Retoma trechos de O ser e o nada, Diários de uma guerra estranha e aquelas entrevistas que Sartre (já velho e enfermo, porém tenaz no hábito do whisky) concedeu a Simone de Beauvoir em Cerimônia do adeus.
Se até lá meu atual estado de dispepsia mental não me impedir, depois de inaugurado este pequeno tour ainda quero postar sobre Deleuze e Derrida, pelo menos.
Sem trocadilho, esses dois também são um prato cheio...
domingo, 31 de maio de 2009
lá como aqui: o futuro negro dos professores universitários
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xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxfoto de Jean-Christophe Marmara (Le Figaro)
As questões colocadas pelas modalidades de avaliação são muito complexas, pois são inseparáveis de uma certa idéia de conhecimento. Elas foram regradas de maneira expeditiva pela utilização de um modelo que emana das ciências duras. Essas grades de avaliação são contestadas até no meio das ciências duras, por causa de seu caráter muito estreito e seus efeitos perversos. Mas, salvo esse fato, essa escolha levanta uma questão de espistemologia fundamental: todas as disciplinas da universidade cabem nesse modelo? Há razões para duvidar disso. Não é um acaso que as ciências humanas tenham estado na ponta do movimento. Trata-se, para elas, de se defender contra maneiras de julgá-las que são gravemente inadequadas. O exemplo mais significativo é o lugar privilegiado que os comitês de leitura conferem aos artigos de revistas e que desvaloriza totalmente a publicação de livros. Ora, para os pesquisadores de disciplinas humanas, o objetivo principal e o escoamento natural de seu trabalho é o livro. Está-se em pleno impasse epistemológico.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxfoto de Jean-Christophe Marmara (Le Figaro)Marcel Gauchet, historiador e filósofo, concedeu uma longa e oportuna entrevista ao Le Monde de 23 de abril deste ano. O título já diz tudo: A autonomia significa o enquadramento dos professores universitários.
Abaixo, um trecho:
No seu primeiro livro, "Condições da educação", o senhor deu ênfase à crise do conhecimento. O movimento atual no ensino superior não é uma ilustração dessa crise?
De certa forma, a economia devorou o conhecimento. Ela impôs-lhe um modelo que fez dele uma máquina de produzir resultados na indiferença à compreensão e à inteligibilidade dos fenômenos. Ora, mesmo que isso seja uma de suas funções, o conhecimento não pode servir unicamente para criar a riqueza. Temos necessidade dele para nos ajudar a compreender nosso mundo. Se a universidade absolutamente não está mais em posição de propor um saber de tal ordem, ela terá fracassado. Ora,os saberes desse tipo não se deixam comandar pelos comitês dirigentes e nem avaliar por métodos quantitativos.
Não é por isso que a questão da avaliação dos saberes ocupa um lugar central na crise?
As questões colocadas pelas modalidades de avaliação são muito complexas, pois são inseparáveis de uma certa idéia de conhecimento. Elas foram regradas de maneira expeditiva pela utilização de um modelo que emana das ciências duras. Essas grades de avaliação são contestadas até no meio das ciências duras, por causa de seu caráter muito estreito e seus efeitos perversos. Mas, salvo esse fato, essa escolha levanta uma questão de espistemologia fundamental: todas as disciplinas da universidade cabem nesse modelo? Há razões para duvidar disso. Não é um acaso que as ciências humanas tenham estado na ponta do movimento. Trata-se, para elas, de se defender contra maneiras de julgá-las que são gravemente inadequadas. O exemplo mais significativo é o lugar privilegiado que os comitês de leitura conferem aos artigos de revistas e que desvaloriza totalmente a publicação de livros. Ora, para os pesquisadores de disciplinas humanas, o objetivo principal e o escoamento natural de seu trabalho é o livro. Está-se em pleno impasse epistemológico.
(...)
Por Maryline Baumard et Marc Dupuis
Para ler a entrevista inteira em português, clique aqui.
Para ler a entrevista em francês, aqui.
Para ler o blog de Marcel Gauchet, aqui.
segunda-feira, 9 de março de 2009
deu no Libération
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXfoto de James A. Williamson

Debord, um tesouro
(Libération, 16 de fevereiro de 2009)
A França decide catalogar os arquivos do filósofo situacionista cobiçados por uma universidade americana.
Guy Debord erigido em tesouro nacional.... O estado francês acaba de negar permissão para que os arquivos pessoais do fundador da Internacional situacionista deixem a França. A decisão de 29 de janeiro, assinada pela ministra da Cultura Christine Albanel e publicada quinta-feira no Journal Officiel, estipula que esses arquivos adquirem "uma grande importância para a história das idéias da segunda metade do século XX e para o conhecimento do trabalho sempre controvertido de um dos últimos grandes intelectuais franceses desse período". Uma decisão maior e simbólica. "Essa classificação como tesouro nacional deve ser interpretada como um reconhecimento pelo Estado do que Guy Debord representa na vida intelectual e artística do século passado", enfatiza Bruno Racine, presidente da Biblioteca Nacional da França, que trabalhou muito para que os arquivos ficassem na França.
Paradoxo
Supreendente posteridade para Guy Debord, que preferia o segredo aos holofotes, não concedia nenhuma entrevista à imprensa e amaldiçoava as distinções. Quando muito, finalmente deixou para a Gallimard, depois de ter sido o autor emblemático das edições Campo Livre, a incumbência de editar sua obra. "Eu mereci o ódio universal da sociedade do meu tempo", escrevia ele emn1978, "e teria ficado aborrecido de ter outros méritos aos olhos de uma tal sociedade."
(Libération, 16 de fevereiro de 2009)
A França decide catalogar os arquivos do filósofo situacionista cobiçados por uma universidade americana.
Guy Debord erigido em tesouro nacional.... O estado francês acaba de negar permissão para que os arquivos pessoais do fundador da Internacional situacionista deixem a França. A decisão de 29 de janeiro, assinada pela ministra da Cultura Christine Albanel e publicada quinta-feira no Journal Officiel, estipula que esses arquivos adquirem "uma grande importância para a história das idéias da segunda metade do século XX e para o conhecimento do trabalho sempre controvertido de um dos últimos grandes intelectuais franceses desse período". Uma decisão maior e simbólica. "Essa classificação como tesouro nacional deve ser interpretada como um reconhecimento pelo Estado do que Guy Debord representa na vida intelectual e artística do século passado", enfatiza Bruno Racine, presidente da Biblioteca Nacional da França, que trabalhou muito para que os arquivos ficassem na França.
Paradoxo
Supreendente posteridade para Guy Debord, que preferia o segredo aos holofotes, não concedia nenhuma entrevista à imprensa e amaldiçoava as distinções. Quando muito, finalmente deixou para a Gallimard, depois de ter sido o autor emblemático das edições Campo Livre, a incumbência de editar sua obra. "Eu mereci o ódio universal da sociedade do meu tempo", escrevia ele emn1978, "e teria ficado aborrecido de ter outros méritos aos olhos de uma tal sociedade."
Ei-lo hoje, pelo mais vivo dos paradoxos, transformado em seu "tesouro". Guy Debord suicidou-se com um tiro no coração em 30 de novembro de 1994, aos 62 anos, em sua casa de Haute-Loire. Nascido em Paris em 1931, fundou a Internacional situacionista em 1957, movimento de pensamento na linha do letrismo, que ele afundou em 1972. Esse teórico da revolução continuou a escrever e a filmar. Desde a sua morte, sua mulher e legatária universal Alice Debord protegia seus arquivos, os quais raramente foram consultados. Ela mesma trabalhou para publicar a Correspondência do autor do Panegírico, cujo sétimo volume, publicado pela Fayard em 2008, cobre o último período, de janeiro de 1988 a novembro de 1994.
Há dois anos a universidade de Yale, nos Estados Unidos, manifestou o desejo de adquirir o conjunto dos arquivos pessoais do autor. Os americanos são ávidos por intelectuais franceses contemporâneos. A universidade desejava anexar essa aquisição ao seu centro de pesquisa sobre as vanguardas do qual o fundo Debord seria um dos diamantes.
E de fato esse fundo é magnífico (ler abaixo). Ele engloba a quase-totalidade do trabalho do escritor e cineasta, de 1950 a 1994. A peça-mestra, evidentemente, é o manuscrito de A sociedade do espetáculo, (publicado em 1967), que irrigou maio de 68 e toda uma corrente sociológica e filosófica.
Fichas de leitura.
Preocupado com seu legado, Guy Debord havia tomado o cuidado de selecionar e organizar tudo. Ele dissera ao seu amigo Ricardo Paseyro em outubro de 1994: "Fizemos a triagem, queimamos uma massa de papéis inúteis e conservamos à disposição de meus leitores tudo o que importa". Ele conservou apenas o que considerava como essencial para a compreensão de sua obra. A gênese de seus textos, dos primeiros esboços em fichas às provas corrigidas, mostram uma pronunciada atenção para com a precisão. Debord lutava contra o "mais ou menos" e tinha um cuidado incansável ao transcrever seu pensamento em palavras. Esse grande leitor - de Hegel, Clausewitz ou Maquiavel - redigiu milhares de fichas de leitura. Os planos de seus filmes também foram concebidos minuciosamente. No total, o conjunto de seus vestígios terrestres foi excepcionalmente conservado. Pouco da obra foi a leilão , somente cerca de trinta cartas de juventude, redigidas entre 18 e 22 anos, que foram dispersas em 12 de maio de 2006
em Drout.
Fichas de leitura.
Preocupado com seu legado, Guy Debord havia tomado o cuidado de selecionar e organizar tudo. Ele dissera ao seu amigo Ricardo Paseyro em outubro de 1994: "Fizemos a triagem, queimamos uma massa de papéis inúteis e conservamos à disposição de meus leitores tudo o que importa". Ele conservou apenas o que considerava como essencial para a compreensão de sua obra. A gênese de seus textos, dos primeiros esboços em fichas às provas corrigidas, mostram uma pronunciada atenção para com a precisão. Debord lutava contra o "mais ou menos" e tinha um cuidado incansável ao transcrever seu pensamento em palavras. Esse grande leitor - de Hegel, Clausewitz ou Maquiavel - redigiu milhares de fichas de leitura. Os planos de seus filmes também foram concebidos minuciosamente. No total, o conjunto de seus vestígios terrestres foi excepcionalmente conservado. Pouco da obra foi a leilão , somente cerca de trinta cartas de juventude, redigidas entre 18 e 22 anos, que foram dispersas em 12 de maio de 2006
em Drout.
Para a comissão consultora de tesouros nacionais, que emitiu um parecer negativo à exportação, "esses documentos, que ilustram o processo criativo completo do pensamento do autor, permitem apreender sua maneira assídua de trabalhar, sua grande erudição e seu estilo, herdado dos maiores clássicos, posto a serviço de sua análise crítica da sociedade moderna".
Gesto forte.
E eis que o "situacionista" é reconhecido como um dos maiores pensadores do mundo ocidental por uma sociedade que ele condenava à destruição. É um gesto patrimonial forte. "É a primeira vez que um escritor tão próximo de nós" é "também considerado como tesouro nacional", avalia Bruno Racine , explicando que com Debord a BNF toma a modernidade nos braços; "Este fundo será plenamente valorizado. Um verdadeiro programa será iniciado com a instauração de um colóquio e de uma exposição".
Gesto forte.
E eis que o "situacionista" é reconhecido como um dos maiores pensadores do mundo ocidental por uma sociedade que ele condenava à destruição. É um gesto patrimonial forte. "É a primeira vez que um escritor tão próximo de nós" é "também considerado como tesouro nacional", avalia Bruno Racine , explicando que com Debord a BNF toma a modernidade nos braços; "Este fundo será plenamente valorizado. Um verdadeiro programa será iniciado com a instauração de um colóquio e de uma exposição".
O pensamento de Guy Debord será em breve acessível em sua totalidade e sua coerência.
Ao contrário da lenda.
Ao contrário da lenda.
(Trad. Andréa Bieri)
Leia outras matérias publicadas a respeito no Libération e no Le Monde Diplomatique (em português).
Leia outras matérias publicadas a respeito no Libération e no Le Monde Diplomatique (em português).
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Qu'est-ce que la déconstruction
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"É preciso entender esse termo – “desconstrução” não no sentido de dissolver, de decompor ou de destruir, mas sim de analisar as estruturas sedimentadas que formam o elemento discursivo, a discursividade filosófica na qual nós pensamos. Isso passa pela língua, pela cultura ocidental, pelo conjunto do que define nosso pertencimento a esta história da filosofia."
(Leia na íntegra este trecho de uma entrevista inédita de Derrida gravada em 30 de junho de 1992 e posteriormente publicada no Le Monde em 12/10/2004. Tradução de Andréa Bieri).
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"É preciso entender esse termo – “desconstrução” não no sentido de dissolver, de decompor ou de destruir, mas sim de analisar as estruturas sedimentadas que formam o elemento discursivo, a discursividade filosófica na qual nós pensamos. Isso passa pela língua, pela cultura ocidental, pelo conjunto do que define nosso pertencimento a esta história da filosofia."
(Leia na íntegra este trecho de uma entrevista inédita de Derrida gravada em 30 de junho de 1992 e posteriormente publicada no Le Monde em 12/10/2004. Tradução de Andréa Bieri).
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domingo, 7 de dezembro de 2008
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
terça-feira, 25 de novembro de 2008
centenário
Copyright Roger Viollet, Getty Images
Esta bela foto ilustra a capa do Suplemento literário do Times em homenagem aos cem anos de Lévi-Strauss.
Aqui você lê o conteúdo.
Aqui você lê o conteúdo.
domingo, 23 de novembro de 2008
CLS faz 100 anos
Claude Lévi Strauss em retrato feito por seu pai (pintor e retratista), Raymond. Abaixo, uma foto de 2005.
Dia 28 de novembro Claude Lévi-Strauss faz cem anos.
A imprensa já está de olho na efeméride há tempo....
Em maio deste ano Le Magazine Littéraire publicou um dossier Lévi-Strauss (no próximo post será acrescentado um link para a edição on line) e hoje a Folha dedicou a ele boa parte do Caderno "Mais".
Além disso, temos aquela entrevista da "Veja" de 2003 e o Suplemento Literário do Times (veja o próximo post).
O Museu Quai Branly já iniciou as homenagens disponibilizando para um tour on line uma grande exposição, na qual se pode ver, entre outras coisas, a coleção de objetos e as fotos tiradas por Lévi-Strauss em suas expedições brasileiras. Além das diversas visitas temáticas promovidas pelo Museu, haverá projeções de documentários, leituras e mesas-redondas das quais participarão, entre outros: Dan Sperber, Julia Kristeva, Erik Orsenna, Alexandre Adler, Philippe Descola, Hélène Cixous, Bernard-Henri Lévy, Daniele Sallenave, Alain-Gérard Slama…
Duas das matérias publicadas no "Mais" você lê abaixo. Para ler todas as matérias na íntegra, clique.
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Caderno Mais Folha de São Paulo
23 de novembro de 2008
RETRATO DE UM HOMEM INVISÍVEL
"Sem forças" e encerrado em seu apartamento em um bairro nobre de Paris, Lévi-Strauss não deverá participar das comemorações de seu centenário; amigos falam sobre a convivência com o antropólogo
GABRIELA LONGMAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PARIS
Mais importante intelectual vivo, Lévi-Strauss completa cem anos, no próximo dia 28, recolhido.
Tido como o pai do estruturalismo e grande responsável pela afirmação da antropologia no campo das ciências humanas, ele assistiu -ou participou- às infinitas transformações políticas, sociais e comportamentais do século 20.
Depois de atravessar duas guerras mundiais, um Maio de 68 e todos os rebuliços que se seguiram, a Paris atual tem muito pouco em comum com aquela em que ele passou a infância e a juventude.
Grande área residencial da burguesia parisiense -comparável, talvez, ao bairro de Higienópolis, em São Paulo-, o 16º arrondissement foi desde sempre a casa de Lévi-Strauss.É ali que mora, há mais de 50 anos, num quinto andar do número 2 da rua dos Marroniers. A poucas quadras, fica a rua Passy, endereço onde viveu por mais de 20 anos com os pais, num apartamento de onde se avistava ainda o campo e suas fazendas.
Hoje, os prédios de La Défense -principal centro financeiro da França, localizado no extremo oeste- transformaram a paisagem. A arquitetura de arranha-céu que Lévi-Strauss vira em São Paulo nos anos 1930 e em Nova York nos anos 1940 ganharia um canto específico para se desenvolver, para que o restante de Paris mantivesse preservada a unidade estética dos prédios baixos, telhados com chaminés, terraços de ferro e os bulevares haussmanianos que deixam transparecer os séculos 18 e 19.
Se a arquitetura se manteve em certa medida uniforme, para a alegria dos turistas, a população mudou. Milhões de chineses, marroquinos, brasileiros, senegaleses, malianos são agora tão parisienses quanto aquele professor de etnologia que trabalhava como subdiretor do Museu do Homem e visitava os mercados de pulgas em busca de peças exóticas para sua coleção.O kebab é tão popular quanto o crepe. O pluriculturalismo -termo em grande medida lévi-straussiano- é a marca principal desta nova cidade e de seus subúrbios, com todos os problemas de imigração e discriminação que gravitam em torno desse novo quadro. A Paris de Godard e Truffaut é substituída pela de Laurent Cantet, com "Entre Paredes".
"Sem forças"
Mas esta cidade, mais lévi-straussiana do que nunca, tornou-se distante para Lévi-Strauss, que praticamente não sai mais de casa.
No dia 25, não irá ao colóquio que o Collège de France organiza com a presença de alguns de seus principais seguidores. E, no 28, não estará presente à grande jornada de homenagens que o Museu do Quai Branly prepara para o centenário, com leituras de suas obras, projeção de documentários e fotos das expedições.
"É preciso dizer que ele está absolutamente sem forças", adverte à Folha, por telefone, a secretária que gerencia sua correspondência. As visitas de seus ex-alunos se tornam cada vez mais raras, assim como rareou-se seu hábito de escutar música clássica ao longo da tarde.
Mas são fatos recentes. Até o ano passado, Lévi-Strauss recebia amigos para jantar, lia publicações de sua área. Com freqüência, atravessava ainda o rio rumo ao Quartier Latin, onde fazia visitas ao Laboratório de Antropologia Social (LAS), que ele fundou em 1960 após sua nomeação para a recém-criada cadeira de antropologia social do Collège de France, grande consagração de seu nome e seu trabalho.
Visitar hoje o laboratório no nº 52 da rua Cardinale Lemoine é mergulhar na atmosfera parisiense dos anos 1970, com o carpete vermelho manchado, um cheiro agridoce e o design editorial antiquado dos periódicos, expostos lado a lado numa pequena vitrina de vidro.Com a Sorbonne, a Escola Normal Superior e o Collège de France ali próximos, o 5º arrondissement continua sendo por excelência o bairro dos estudantes -embora as jovens pró-Sarkozy não lembrem em muito as radicais feministas que passeavam pelas ruas no tumulto daquela época.
Dirigido atualmente por Pierre Descola, o centro de pesquisa tem cerca de 50 membros e uma das mais importantes bibliotecas da área de etnologia e etnografia.
Escaninho vazio
Entre os avisos no mural da entrada, uma folha sulfite anuncia um colóquio em homenagem a Lévi-Strauss na Rússia e escaninhos de madeira guardam a correspondência destinada a cada um dos membros. O de Lévi-Strauss está lá, sim, embora vazio.
A vice-diretora Brigitte Derlon lembra-se bem de vê-lo chegar até bem pouco tempo, caminhando com certa dificuldade, mas bem-disposto.
Quando criou o laboratório, o etnólogo francês contava com a companhia de um pesquisador romeno, Isac Chiva, a quem nomeou subdiretor.
Fugindo do stalinismo, o jovem judeu chegou a Paris, onde foi aluno de Lévi-Strauss na Escola Prática de Altos Estudos antes de tornar-se seu parceiro.
Hoje, também recolhido em seu apartamento, tem dificuldade para rememorar antigos nomes, datas, histórias."Lévi-Strauss está bem, afinal tem cem anos. O problema sou eu, que tenho 82 e estou assim. É muito difícil lembrar. Não deveria ter aceitado te receber para esta entrevista, pois não tenho mais memória", diz. Cada frase é interrompida e seguida por longos silêncios e as perguntas ficam quase todas sem resposta.
Mas, ao ouvir falar em Lévi-Strauss, o colega caminha da sala até sua biblioteca e começa a mostrar as primeiras edições de "Antropologia Estrutural", "As Estruturas Elementares do Parentesco" e "Tristes Trópicos" autografadas."
Para Isac Chiva, pesquisador sutil e tenaz, em testemunho de minha estima e amizade", diz uma das dedicatórias. Esses amigos de tanta convivência jantavam juntos há um ano, mas hoje muito raramente trocam um telefonema.
Resposta doce
De uma geração bem mais jovem de pesquisadores, Emmanuel Devaux foi procurá-lo em 1978. "Eu era um jovem tímido. Queria saber se era pertinente partir para um trabalho de campo na América do Norte, e não na Amazônia, como faziam todos os meus colegas do departamento", contou à Folha.
Lévi-Strauss recebeu-o, muito cortês. "Vá sim, mas saiba que será deprimente", foi a resposta. Em 2007, Devaux enviou-lhe um livro, em que questionava os conceitos estruturalistas. "Recebi uma resposta muito doce que dizia: "Leio seu livro ainda, embora muito lentamente. O que me deixa mais tempo para meditar sobre nossas concordâncias e discordâncias".
"As atuais concordâncias e discordâncias de Lévi-Strauss em torno da imigração na França, da eleição de Obama, da crise financeira e de outras ordens do dia são um mistério. Faz alguns anos que parou por completo de dar entrevistas por "já não se considerar um homem deste tempo".
E de que tempo ele é, então?
Talvez daquele tempo mítico que ele próprio descreve em "A Via das Máscaras".Tempo em que a coleção de arte primitiva morava no Museu do Homem, e não no enorme Museu do Quai Branly, criado por Jean Nouvel.Tempos de Barthes, Bachelard, Braudel.
Hoje, todos eles viraram nomes de ruas parisienses, escritos em letras brancas sobre placas azuis.
Saussure é uma avenida movimentada perto da Porte de Clichy, bem ao norte. Foucault é uma alameda que termina no rio, colada ao Trocadero.
Hoje, solto num tempo em que seus amigos, inimigos e seguidores diretos já desapareceram, Lévi-Strauss persiste como homem e como mito -ele que tanto analisou a interação simbólica entre vivos e mortos na sociedade dos bororos.
Disputando com Sartre o título de intelectual mais influente do século 20, ele é ainda um senhor de cem anos, recolhido no silêncio. Absolutamente vivo.
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O SUPLÍCIO DE PAPAI NOEL
Inédito em livro no Brasil e previsto para ser lançado na 2ª semana de dezembro pela Cosac Naify, ensaio de 1952 discute a criação do mito moderno do Natal
CLAUDE LÉVI-STRAUSS
Há cerca de três anos, ou seja, desde que a atividade econômica voltou quase ao normal, a comemoração do Natal assumiu na França uma dimensão desconhecida antes da [Segunda] Guerra.
Esse desenvolvimento, tanto por sua importância material quanto pelas formas em que se apresenta, certamente é resultado direto da influência e do prestígio dos Estados Unidos.
Assim, vimos surgir os grandes pinheiros, montados nos cruzamentos ou nas avenidas principais, iluminados à noite; os papéis decorativos para embrulhar os presentes de Natal; os cartões de boas-festas e o costume de expô-los em cima da lareira dos destinatários na semana fatídica; as campanhas do Exército da Salvação erguendo nas ruas e nas praças seus caldeirões como se fossem potinhos de pedintes; por fim, as pessoas vestidas de Papai Noel para receber os pedidos das crianças nas grandes lojas de departamentos.
Todos esses costumes que, poucos anos atrás, pareciam pueris e barrocos aos franceses que visitassem os EUA, como um dos sinais mais evidentes da profunda incompatibilidade entre as duas mentalidades, agora se implantaram e se aclimataram na França com uma facilidade e uma amplitude que se tornam assunto a ser estudado pelo historiador das civilizações.
Nesse campo, como em outros, estamos assistindo a uma vasta experiência de difusão, não muito diferente daqueles fenômenos arcaicos que estávamos acostumados a estudar nos exemplos distantes do "briquet à piston" ou da "pirogue à balancier".
Mas é mais fácil e ao mesmo tempo mais difícil estudar fatos que se desenrolam sob nossos olhos, tendo como palco nossa própria sociedade.
Empréstimo
Mais fácil, porque a continuidade da experiência está salvaguardada, com todos os seus momentos e cada uma de suas nuanças; e também mais difícil, porque são nessas raríssimas ocasiões que percebemos a extrema complexidade das transformações sociais, mesmo as mais tênues; e porque as razões aparentes que atribuímos aos acontecimentos nos quais somos atores são muito diferentes das causas reais que neles nos determinam algum papel.
Assim, seria simplista demais explicar o desenvolvimento da comemoração do Natal na França apenas pela influência dos EUA.
O empréstimo é inegável, mas não traz consigo razões suficientes para explicar o fenômeno. Enumeremos brevemente as mais evidentes: há muitos americanos na França, os quais comemoram o Natal à sua maneira; o cinema, os "digests", os romances e também algumas reportagens da grande imprensa tornaram conhecidos os costumes americanos, e estes gozam do prestígio atribuído à potência militar e econômica dos EUA.Tampouco se exclui a conjectura de que o Plano Marshall tenha favorecido, direta ou indiretamente, a importação de algumas mercadorias ligadas ao rito natalino.
Mas tudo isso não basta para explicar o fenômeno.
Costumes importados dos EUA impõem-se a camadas da população que lhes desconhecem a origem; os meios operários, onde a influência comunista poderia desacreditar tudo o que traz a marca "made in USA", os adotam com a mesma disposição dos demais.
Assim, em vez de uma difusão simples, cabe invocar aquele processo tão importante que Kroeber, o primeiro a identificá-lo, chamou de "difusão por estímulo" ("stimulus diffusion"): o costume importado não é assimilado, mas funciona como catalisador, ou seja, provoca com sua presença o surgimento de um uso semelhante que já estava potencialmente presente no meio secundário.
Ilustremos esse ponto com um exemplo diretamente relacionado ao nosso tema.
O industrial fabricante de papel que vai aos EUA, a convite dos colegas americanos ou como membro de uma missão econômica, constata que lá fabricam papéis especiais para os pacotes de Natal; ele adota a idéia, e temos aí um fenômeno de difusão.
Exigência estética
A dona-de-casa parisiense que vai à papelaria do bairro comprar o papel necessário para embrulhar seus presentes vê na vitrine papéis mais bonitos e de melhor acabamento do que aqueles que costumava usar; ela ignora totalmente os costumes americanos, mas esse papel satisfaz uma exigência estética e exprime uma disposição afetiva que já existia, só não dispunha de meios de expressão. Ao escolhê-lo, a dona-de-casa não adota diretamente (como o fabricante) um costume estrangeiro, mas esse costume, tão logo é reconhecido, estimula nela o nascimento de um costume igual.
Em segundo lugar, não se pode esquecer que a comemoração natalina, já antes da guerra, estava em processo ascendente na França e em toda a Europa. Isso estava relacionado, inicialmente, à melhoria progressiva do nível de vida, mas também a motivos mais sutis.
Com as características que conhecemos, o Natal é uma festa essencialmente moderna, apesar dos múltiplos traços arcaizantes. O uso do visco não é, pelo menos em primeira instância, uma herança druídica, pois parece ter voltado à moda na Idade Média.
Árvore de Natal
O pinheiro de Natal não é mencionado em parte nenhuma antes de certos textos alemães do século 17; ele segue para a Inglaterra no século 18 e chega à França apenas no século 19. O dicionário "Littré" parece conhecê-lo pouco ou sob forma muito diferente da nossa, pois o define (no verbete "Natal") com a designação: "Em alguns países, de um ramo de pinheiro ou de azevinho com diferentes enfeites, guarnecido principalmente de balas e brinquedos para serem dados às crianças, que fazem uma tremenda festa".
A variedade de nomes dados ao personagem incumbido de distribuir os brinquedos às crianças -Papai Noel, São Nicolau, Santa Claus- também mostra que ele é resultado de um fenômeno de convergência, e não um protótipo antigo conservado por toda parte.
O desenvolvimento moderno, porém, não é uma invenção: ele se limita a recompor peças e fragmentos de uma antiga comemoração, cuja importância nunca foi totalmente esquecida.
Se a árvore de Natal, para o "Littré", é quase uma instituição exótica, Cheruel nota de maneira significativa, em seu "Dicionário Histórico das Instituições": "O Natal [...] foi, durante vários séculos e até uma época recente, a ocasião de festas em família".
Assim, estamos diante de um ritual cuja importância flutuou bastante ao longo da história; teve apogeus e declínios. A forma americana é apenas sua encarnação mais moderna.
Aliás, essas rápidas indicações bastam para mostrar que, diante desse tipo de problema, é preciso desconfiar das explicações demasiado fáceis que apelam automaticamente aos "vestígios" e às "sobrevivências".
Se nunca tivesse existido um culto às árvores nos tempos pré-históricos, que se prolongou em várias tradições folclóricas, a Europa moderna certamente não teria "inventado" a árvore de Natal.No entanto -como mostramos mais acima-, ela é uma invenção recente.
Essa invenção, porém, não nasceu do nada. Pois outros costumes medievais são plenamente comprovados: a chamada lenha de Natal (que inspirou um bolo natalino em Paris), um tronco espesso para arder a noite toda; os círios de Natal, com uma dimensão própria para a mesma finalidade; a decoração das casas (desde as Saturnais romanas, sobre as quais voltaremos a falar) com ramos verdes: hera, azevinho, pinheiro; por fim, e sem nenhuma relação com o Natal, os romances da Távola Redonda mencionam uma árvore sobrenatural recoberta de luzes.
Solução sincrética
Em tal contexto, a árvore de Natal surge como uma solução sincrética, isto é, concentra num só objeto exigências até então dispersas: árvore mágica, fogo, luz duradoura, verde persistente. Inversamente, Papai Noel, em sua forma atual, é uma criação moderna, e ainda mais recente é a crença que situa sua morada na Groenlândia, possessão dinamarquesa (o que obriga o país a manter uma agência de correio especial para responder às cartas de crianças do mundo inteiro), e o mostra viajando em um trenó puxado por renas.
Consta que esse aspecto da lenda se desenvolveu principalmente na última guerra, devido à presença de tropas americanas na Islândia e na Groenlândia.
E, no entanto, as renas não estão ali por acaso, visto que existem documentos renascentistas ingleses mencionando troféus de renas durante as danças de Natal, antes de qualquer crença em Papai Noel, e quem dirá da formação de sua lenda.
Assim, fundem-se e refundem-se elementos muito antigos, introduzem-se novos, encontram-se fórmulas inéditas para perpetuar, transformar ou reviver usos de velha data.
Não há nada de especificamente novo -sem jogo de palavras- no renascimento do Natal.
Por que, então, ele desperta tanta emoção e por que é em torno da figura de Papai Noel que se concentra a animosidade de algumas pessoas?
Trecho de "O Suplício de Papai Noel" (ed. Cosac Naify, 56 págs., R$ 25). Tradução de DENISE BOTTMANN .
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
evento
Dias 18 e 19 de novembro acontece, na UFRJ, o II Encontro Internacional de Cinema e Educação.
Eis a programação.
Eis a programação.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Eles e o cinema
Além de escrever sobre, eles também fizeram cinema:
Sartre não só teve algumas de suas peças adaptadas para produções cinematográficas e televisivas como também escreveu roteiros e diálogos para filmes (veja aqui a lista de todos eles).
A performance de Derrida não se limita aos documentários feitos sobre ele (ou sobre alguém que ele queria que se acreditasse que era "ele mesmo"): também atuou como ator em uma ficção "propriamente dita" (no papel "dele mesmo", segundo "ele mesmo" diz no filme). Trata-se de Ghost Dance, de Ken Mc Mullen (veja um trecho aqui) .
Deleuze atuou no papel de padre-filósofo (!) no filme George qui?, de Michèle Rosier (aceitamos imagens ou trechos do filme para postá-los aqui).
Foucault atuou no filme Eu, Pierre Rivière .... (aqui vc vê o trailler, mas Foucault não aparece nele).
Abaixo, a reprodução de um fotograma que foi cortado da montagem final (foto de Philippe Barrier. "Cortesia" do Le Magazine Littéraire - octobre 2004).
Sartre não só teve algumas de suas peças adaptadas para produções cinematográficas e televisivas como também escreveu roteiros e diálogos para filmes (veja aqui a lista de todos eles).
A performance de Derrida não se limita aos documentários feitos sobre ele (ou sobre alguém que ele queria que se acreditasse que era "ele mesmo"): também atuou como ator em uma ficção "propriamente dita" (no papel "dele mesmo", segundo "ele mesmo" diz no filme). Trata-se de Ghost Dance, de Ken Mc Mullen (veja um trecho aqui) .
Deleuze atuou no papel de padre-filósofo (!) no filme George qui?, de Michèle Rosier (aceitamos imagens ou trechos do filme para postá-los aqui).
Foucault atuou no filme Eu, Pierre Rivière .... (aqui vc vê o trailler, mas Foucault não aparece nele).
Abaixo, a reprodução de um fotograma que foi cortado da montagem final (foto de Philippe Barrier. "Cortesia" do Le Magazine Littéraire - octobre 2004).
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