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Hato

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Gado nos Lhanos venezuelanos. A criação extensiva de bovinos em savanas abertas caracterizou historicamente muitos hatos da região

O hato era, em diferentes regiões da América espanhola, uma unidade de criação de gado, podendo designar tanto o próprio rebanho como o estabelecimento rural onde este era mantido. Conforme o contexto documental, o termo podia referir-se aos animais pertencentes a um criador, ao local com casa e instalações pecuárias ou ao conjunto formado pelos rebanhos, trabalhadores e estruturas necessárias à exploração.[1]

Nos Lhanos da Venezuela e da Colômbia, o hato desenvolveu-se sobretudo como uma unidade de pecuária extensiva, adaptada às savanas, aos pastos naturais e à circulação de rebanhos em espaços pouco delimitados por cercas. Em muitos casos, a riqueza do criador dependia principalmente do número de animais, das marcas de propriedade e dos direitos associados ao seu aproveitamento, mais do que da posse de uma extensão contínua de terra.[2]

A expansão dos hatos contribuiu para o abastecimento de carne, a produção de couros e sebo, o fornecimento de animais de transporte e a ocupação colonial de regiões de fronteira. Este processo esteve também ligado à apropriação de terras, aos conflitos pelo uso das savanas, ao trabalho de indígenas, trabalhadores livres e escravos e à formação de elites pecuárias regionais.[3]

Terminologia e definição

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Na América espanhola, o termo hato adquiriu o sentido de exploração pecuária. O Diccionario de la lengua española regista essa acepção para a Colômbia, Honduras, República Dominicana e Venezuela, enquanto o Diccionario de americanismos amplia o uso regional para outros territórios americanos.[4]

Historicamente, o termo podia referir-se a realidades relacionadas mas distintas: o rebanho pertencente a um criador; o sítio onde se instalavam a casa, os currais e outras estruturas necessárias à criação; ou a unidade económica formada pelos animais, instalações, trabalhadores e direitos de utilização dos espaços de pastagem.[2][5]

Os hatos podiam criar diferentes espécies. A distinção entre gado maior e gado menor, comum na literatura jurídica e pecuária colonial, correspondia respectivamente aos animais de maior porte, como bovinos, cavalos e muares, e aos rebanhos de menor porte, como ovinos, caprinos e suínos.[6]

A relação entre hato e propriedade territorial variou conforme a região. Nos Lhanos venezuelanos, sobretudo durante os primeiros séculos coloniais, a existência de um hato podia depender mais do controlo do gado, das marcas e dos direitos de aproveitamento do espaço do que de uma propriedade fundiária perfeitamente delimitada.[2]

Formação histórica

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Introdução da pecuária na América

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A criação de gado europeu foi introduzida nas Antilhas desde os primeiros momentos da colonização espanhola. Bovinos, cavalos, porcos, cabras e ovelhas encontraram condições favoráveis de reprodução, permitindo a passagem de pequenos rebanhos destinados ao abastecimento das expedições para explorações pecuárias permanentes.[7]

A expansão dos rebanhos esteve relacionada com a disponibilidade de pastagens, a adaptação das espécies aos novos ambientes e a procura de carne, animais de transporte e matérias-primas como couros e sebo. Parte dos animais escapou ou foi abandonada e passou a reproduzir-se em liberdade, formando rebanhos bravios. A documentação colonial empregava um vocabulário variável e parcialmente sobreposto: cimarrones ou alzados para animais tornados silvestres ou subtraídos ao controlo dos criadores; orejanos para os que ainda não tinham sido marcados; e mostrencos para animais sem dono conhecido ou cuja propriedade não podia ser determinada.[7][8][9]

A pecuária desenvolveu-se de forma desigual. As savanas, planícies interiores e vales com abundantes pastagens favoreceram a criação extensiva, enquanto outras regiões permaneceram mais associadas à agricultura, mineração ou actividades comerciais.[7]

Hispaniola

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Na Hispaniola, a criação de gado começou nas primeiras décadas da ocupação espanhola. Durante o governo de Nicolás de Ovando, a introdução e reprodução de animais receberam apoio régio, formando-se rebanhos destinados ao abastecimento da colónia, entre os quais o chamado Hato Real.[10]

Durante o século XVI, o hato tornou-se uma forma característica de exploração pecuária da ilha. A crise da mineração e a transformação da economia colonial favoreceram a expansão da criação extensiva, baseada na produção de carne, couros, sebo e animais de transporte.[10]

Nos séculos XVII e XVIII, a pecuária assumiu grande importância no Santo Domingo espanhol, estruturando relações sociais próprias entre proprietários, trabalhadores livres, agregados e escravos.[11]

Nova Granada

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No Novo Reino de Granada, os rebanhos introduzidos pelos espanhóis expandiram-se a partir das cidades costeiras e das primeiras zonas de ocupação colonial para áreas como o vale do Magdalena, o vale do Cauca, os planaltos andinos e os Lhanos Orientais.[7]

Em regiões como Valledupar, Santa Marta, Neiva e os Lhanos, os hatos contribuíram para o abastecimento dos centros urbanos e para a ocupação económica de zonas de fronteira. No século XVIII, a procura de carne em Cartagena incentivou novas concessões e regularizações de terras destinadas à pecuária.[12]

A palavra coexistiu com outras designações, como hacienda e estancia. Em algumas regiões indicava uma exploração pecuária independente; noutras, uma componente pecuária integrada numa unidade rural mais ampla.[12]

Venezuela

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Na Venezuela, a expansão pecuária acompanhou a ocupação espanhola de Coro, El Tocuyo, Barquisimeto, Maracaibo e outras povoações. El Tocuyo tornou-se um dos principais centros de reprodução e distribuição de gado durante o século XVI, fornecendo animais para outras regiões.[13]

No final do século XVI existiam hatos em El Tocuyo, Barquisimeto, Maracaibo, Valência, San Sebastián de los Reyes e nos vales de Caracas. Posteriormente, a criação extensiva expandiu-se para os Lhanos e outras áreas de savana.[13]

Nos Lhanos venezuelanos, o hato tornou-se uma instituição económica e social central. A criação extensiva de bovinos, o uso do cavalo, os rodeios e o controlo de rebanhos marcados contribuíram para a formação da cultura llanera e para a ocupação de extensas áreas de fronteira.[2][3]

Base territorial e organização jurídica

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O rebanho e a terra

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Nos primeiros sistemas pecuários dos Lhanos, o hato não correspondia necessariamente a uma propriedade rural cercada e delimitada. Em muitas regiões, o elemento central era o controlo do rebanho, das marcas de propriedade e dos direitos associados ao uso das savanas, enquanto a posse formal da terra se desenvolveu de forma gradual.[2]

Em San Sebastián de los Reyes, por exemplo, as concessões de sítios de hato podiam conferir sobretudo o direito de instalar casas e currais num determinado lugar, permitindo ao criador utilizar as áreas envolventes para a alimentação dos rebanhos. O direito associado ao hato estava, assim, ligado tanto ao gado como ao espaço necessário à sua criação.[2]

A expansão pecuária contribuiu posteriormente para a consolidação de propriedades rurais. Os criadores procuraram regularizar a posse através de mercês de terras, compras, heranças, composições e outros mecanismos jurídicos. Esse processo aproximou progressivamente o hato da grande propriedade pecuária, embora continuassem a existir formas menores de criação e uso colectivo das pastagens.[12]

A relação entre gado e território permaneceu uma fonte constante de conflitos. A circulação dos animais em espaços abertos, a existência de gado bravio e a sobreposição de direitos de uso originaram disputas entre grandes criadores, pequenos produtores, comunidades indígenas e autoridades coloniais.[2]

Marcas, sinais e propriedade do gado

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A identificação dos animais era essencial numa economia baseada em rebanhos extensivos. Os criadores utilizavam marcas de ferro e sinais aplicados nas orelhas para reconhecer a propriedade das reses e distinguir os seus animais dos pertencentes a outros proprietários.[14]

A marca era aplicada normalmente durante os rodeios, quando os animais dispersos pelas savanas eram reunidos, contados e separados. Inventários, testamentos e documentos de transmissão de bens podiam incluir referências às marcas e ao número aproximado de animais pertencentes ao proprietário.[14]

A dificuldade de controlar rebanhos dispersos favorecia conflitos sobre a posse dos animais. O gado sem marca ou perdido podia integrar rebanhos bravios, dando origem a disputas sobre o direito de captura e aproveitamento.[15]

Direito de aucción

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Nos Lhanos venezuelanos desenvolveu-se o chamado direito de aucción ou ausión, relacionado com a apropriação de gado bravio existente nas áreas próximas aos hatos. O interessado devia demonstrar perante a autoridade uma relação anterior com determinado sítio de hato e com os rebanhos existentes na região.[15]

Esse direito permitia realizar entradas nas savanas para procurar animais, recuperar reses marcadas e aproveitar parte do gado sem marca. A aucción estava inicialmente associada ao gado e ao direito de criação, não constituindo simplesmente uma propriedade plena sobre toda a área utilizada pelo hato.[15]

A possibilidade de incorporar animais bravios contribuiu para o crescimento dos rebanhos de determinados criadores e tornou-se um dos factores de concentração da riqueza pecuária nos Lhanos.[15]

Organização económica e produtiva

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A dimensão e organização dos hatos variavam conforme a região, o tipo de gado, a disponibilidade de água e a riqueza do proprietário. Grandes explorações podiam possuir casas, currais, áreas extensas de pastagem e numerosos trabalhadores; outras limitavam-se a pequenos rebanhos com estruturas rudimentares.[16]

O núcleo do hato incluía normalmente a habitação do proprietário ou administrador, espaços para trabalhadores, currais e áreas destinadas à conservação de ferramentas, alimentos e produtos derivados da pecuária. Em explorações maiores podiam existir também capelas, armazéns e pequenas áreas agrícolas destinadas ao abastecimento interno.[16]

Os currais eram fundamentais para a gestão do rebanho. Neles realizavam-se operações como marcação, separação, tratamento de animais, preparação para venda e outras tarefas associadas ao manejo pecuário.[14]

Nos Lhanos, a maior parte da alimentação animal provinha de pastagens naturais. A disponibilidade de rios, lagoas e zonas sazonalmente inundadas condicionava os movimentos dos rebanhos e a localização dos sítios de hato.[2]

A introdução posterior de cercas permanentes, novos sistemas de pastagem e técnicas modernas de criação modificou a organização espacial dos estabelecimentos pecuários, aproximando-os do modelo contemporâneo de propriedade rural delimitada.[16]

Técnicas pecuárias

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Llaneros no Hato El Frío, Venezuela. O trabalho pecuário dos hatos dependia de trabalhadores especializados no manejo dos rebanhos em grandes extensões de savana

A criação extensiva dos hatos baseava-se sobretudo no gado bovino, embora incluísse também cavalos, mulas, burros, cabras, ovelhas e porcos. Os cavalos eram essenciais para os trabalhadores encarregados de acompanhar e conduzir os animais em grandes áreas abertas.[14]

O rodeio era uma das principais actividades do calendário pecuário. Consistia na reunião dos animais dispersos, permitindo aos proprietários recuperar reses, marcar crias, separar animais destinados ao comércio e controlar o crescimento dos rebanhos.[2]

O trabalho exigia conhecimentos específicos de condução de animais, uso do cavalo, laço e outras técnicas de manejo. A actividade dos vaqueiros e llaneros tornou-se uma característica cultural das regiões de pecuária extensiva, sobretudo nos Lhanos venezuelanos e colombianos.[3]

A reprodução dependia em grande medida de processos naturais. Nos sistemas extensivos, o controlo dos cruzamentos era limitado, e a dimensão dos rebanhos podia variar significativamente devido a doenças, secas, perdas, furtos e dispersão dos animais.[14]

Produtos e comércio

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Os hatos forneciam diversos produtos de origem animal. Entre os principais encontravam-se carne, animais vivos, couros, sebo, leite, queijo e animais destinados ao transporte, como cavalos e muares.[13]

O abastecimento das cidades foi uma das funções económicas mais importantes. Os cabildos regulavam frequentemente o fornecimento de carne e podiam distribuir entre os criadores obrigações de entrega de animais para os mercados urbanos.[13]

Na província de Caracas, os criadores dos Lhanos participavam no abastecimento da capital através de sistemas organizados de fornecimento de gado. O transporte de animais vivos por grandes distâncias implicava perdas e exigia trabalhadores especializados.[14]

Os couros e o sebo tiveram especial importância no comércio colonial venezuelano. Os couros eram utilizados localmente e exportados para outros mercados americanos e europeus, constituindo uma das principais mercadorias pecuárias da província.[17]

O crescimento das cidades caribenhas e das economias de plantação aumentou a procura de carne, couros e animais de transporte. Os hatos participaram, assim, tanto nos mercados locais como em circuitos comerciais regionais.[12]

Trabalho e organização social

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A mão-de-obra dos hatos era diversificada e incluía proprietários, administradores, vaqueiros, peões, trabalhadores contratados, agregados, indígenas e escravos.[3]

O proprietário podia administrar directamente o estabelecimento ou delegar essa função num mayordomo. Nos grandes hatos, o administrador controlava os trabalhadores, os rebanhos, os abastecimentos e as operações económicas quotidianas.[2]

Os vaqueiros realizavam as principais tarefas ligadas ao gado: condução dos rebanhos, rodeios, marcações, tratamento de animais e transporte para os mercados. O conhecimento do território e a capacidade de trabalhar a cavalo eram competências fundamentais.[3]

Os agregados podiam instalar-se nas terras de um proprietário, cultivar pequenas parcelas e manter alguns animais, prestando em contrapartida determinados serviços ao hato.[2]

Trabalho indígena

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Populações indígenas participaram em diferentes formas da economia pecuária colonial. Podiam trabalhar em encomiendas, missões, comunidades ou propriedades privadas, desempenhando funções relacionadas com criação de animais, agricultura e manutenção dos estabelecimentos.[13]

A expansão dos hatos alterou também o uso indígena das savanas, rios e zonas de caça. A criação pecuária podia provocar conflitos pela ocupação de terras, pela circulação dos animais e pelo acesso aos recursos naturais.[3]

Escravatura

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A escravatura esteve presente em numerosos estabelecimentos pecuários coloniais, sobretudo em regiões onde grandes proprietários utilizavam escravos em tarefas agrícolas, domésticas e pecuárias.[18]

Na Venezuela colonial existem inventários de hatos com escravos dedicados à criação de bovinos, cavalos e outros animais. A dimensão das unidades variava, desde pequenos estabelecimentos com poucos escravos até grandes propriedades com dezenas.[18]

A pecuária extensiva apresentava formas de organização laboral diferentes das plantações agrícolas, devido à necessidade de mobilidade e conhecimento do território, embora continuasse marcada pelas relações de coerção próprias da escravatura colonial.[18]

Formas de hato e titularidade

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A documentação regista hatos pertencentes a particulares, instituições religiosas, comunidades indígenas e à Coroa. Em Mérida, por exemplo, hatos integraram patrimónios familiares e conventuais e foram entregues como parte de dotes; em Cumaná e Guiana existiram hatos comunitários e missionários, enquanto o Hato de Aroa pertencia à Fazenda Real.[19][20][21][22]

Hatos particulares

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Os hatos particulares podiam integrar patrimónios familiares ou institucionais. A documentação do convento de Santa Clara de Mérida regista, no século XVII, a recepção por dote de um hato que compreendia terras, casa, currais, utensílios e gado.[19]

Hatos comunitários e missionários

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Em visitas efectuadas a povos indígenas da província de Cumaná em 1783, foi determinada a criação de hatos de gado bovino destinados ao benefício comum das respectivas comunidades.[20]

Na Guiana, o hato das missões capuchinhas fornecia carne às próprias missões, a presídios régios, a expedições e a outros núcleos da província.[21]

Hatos da Coroa

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A Coroa manteve também rebanhos próprios. Na Venezuela, o Hato de Aroa, referido na documentação como pertencente a Sua Majestade, fornecia carne aos trabalhadores das minas e a outros agentes do serviço régio.[22]

Ocupação territorial e povoamento

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A expansão dos hatos contribuiu para a ocupação colonial de regiões pouco povoadas. As explorações pecuárias necessitavam de caminhos, pontos de passagem, acesso a água e mão-de-obra, favorecendo a formação de pequenos núcleos habitacionais em torno dos estabelecimentos.[23]

Nos Lhanos venezuelanos, os sítios de hato acompanharam a expansão de povoações como San Sebastián de los Reyes, San Carlos de Austria, Guanare, Barinas e San Fernando de Apure, embora a formação dessas localidades tenha resultado de múltiplos factores, incluindo missões, decisões administrativas, comércio e estratégias de defesa, e não apenas da actividade pecuária.[23]

A pecuária extensiva permitia ocupar grandes espaços com baixa densidade populacional. Esse modelo favoreceu uma paisagem rural dispersa, marcada pela mobilidade dos trabalhadores, pela importância do cavalo e pela dependência das rotas pecuárias.[3]

A expansão dos hatos modificou também os usos anteriores dos territórios indígenas. A circulação de animais, a apropriação de pastagens e a transformação de savanas em áreas de criação originaram conflitos sobre terras, águas e recursos naturais.[3]

Regulação e conflitos

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A criação extensiva de gado gerou numerosos conflitos relacionados com a propriedade dos animais, o uso das pastagens e o controlo dos espaços rurais. Entre os principais problemas encontravam-se o furto de gado, a apropriação de animais sem marca, os danos causados por rebanhos em plantações e as disputas entre grandes criadores e pequenos produtores.[9]

Governadores e cabildos criaram cargos e comissões destinados a organizar rodeios, resolver litígios entre criadores, regular o abastecimento de carne e limitar o abate indiscriminado de reses.[24]

Nos Lhanos da província de Caracas, as Ordenanças dos Lhanos, aprovadas na segunda metade do século XVIII, procuraram reforçar o controlo sobre a pecuária, regulamentar os rodeios, limitar o aproveitamento do gado bravio e disciplinar trabalhadores e habitantes das regiões pecuárias.[9]

O abigeato tornou-se uma preocupação constante das autoridades. A definição de propriedade sobre animais criados em espaços abertos era frequentemente disputada, especialmente quando envolvia gado sem marca ou rebanhos bravios.[15]

Variações regionais

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Paisagem dos Lhanos venezuelanos no Hato El Cedral, estado de Apure. A pecuária extensiva das savanas constituiu um dos principais contextos históricos do desenvolvimento dos hatos.

Lhanos colombo-venezuelanos

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Nos Lhanos da Venezuela e da Colômbia, o hato assumiu a sua forma mais característica: uma exploração extensiva baseada em grandes áreas de pastagem natural, circulação de rebanhos, uso do cavalo e trabalho especializado de vaqueiros.[2]

A economia llanera desenvolveu práticas próprias, como rodeios, vaquerías e manejo de gado bravio, que marcaram a organização social e cultural da região. O hato tornou-se uma das principais instituições económicas dos Lhanos, embora a sua dimensão e estrutura variassem conforme a época e o proprietário.[3]

Santo Domingo

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No Santo Domingo espanhol, os hatos tiveram grande importância económica após o declínio relativo da mineração e da produção açucareira. A criação extensiva de bovinos fornecia carne, couros, sebo e animais de transporte, sustentando uma sociedade rural marcada pelo peso dos grandes criadores.[11]

A economia baseada nos hatos dominicanos desenvolveu relações próprias entre proprietários, trabalhadores livres, agregados e escravos, mantendo influência sobre o povoamento e a organização rural da ilha.[11]

Nova Granada

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Na Nova Granada, os hatos participaram do abastecimento das cidades e dos circuitos comerciais entre diferentes regiões. No Caribe neogranadino, a expansão pecuária esteve associada à ocupação de terras realengas, à formação de propriedades privadas e aos conflitos entre criadores, agricultores e comunidades locais.[12]

Evolução posterior

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Durante a Guerra da Independência, a economia de guerra afectou severamente a pecuária venezuelana. O gado cavalar tornou-se essencial para a mobilidade dos exércitos, e o aprovisionamento de cavalos foi uma prioridade das autoridades; as perdas foram particularmente elevadas nos Lhanos.[25]

Durante os séculos XIX e XX, novas técnicas agrícolas e pecuárias transformaram a organização dos estabelecimentos ganadeiros. A introdução de cercas permanentes, arame farpado, melhoramentos genéticos, medicina veterinária e novas formas de transporte alterou o modelo extensivo tradicional.[16]

Apesar dessas transformações, o termo hato permaneceu em uso em vários países americanos para designar explorações pecuárias.[1]

Conceitos relacionados

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O hato não era necessariamente sinónimo de propriedade territorial, fazenda ou latifúndio. Nos primeiros sistemas pecuários dos Lhanos, podia ser identificado principalmente pelo rebanho, pelas marcas e pelos direitos de utilização das pastagens; noutros contextos, constituía uma unidade pecuária integrada numa propriedade rural mais ampla.[2][5]

As fontes coloniais empregavam também designações como estancia, hacienda e sitio de ganado, cujo significado e relação com o hato variavam conforme a região, a época e a natureza dos títulos territoriais.[5][6]

A encomienda era uma instituição juridicamente distinta: atribuía ao encomendero direitos temporários sobre tributos indígenas, não a propriedade de um estabelecimento pecuário. Um encomendero podia possuir separadamente um hato, mas os respectivos títulos e direitos não se confundiam.[26]

Referências

  1. 1 2 Real Academia Española e Asociación de Academias de la Lengua Española. «Hato». Diccionario de la lengua española (em espanhol). Consultado em 19 de Julho de 2026
  2. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Chacón 2012, pp. 134–139.
  3. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Pérez Ángel 2007, pp. 127–146.
  4. ↑ Asociación de Academias de la Lengua Española. «Hato». Diccionario de americanismos (em espanhol). Consultado em 19 de Julho de 2026
  5. 1 2 3 Sánchez Mejía 2011, pp. 134–135.
  6. 1 2 Solórzano Pereira 1776, p. 227.
  7. 1 2 3 4 Castaño Pareja 2006, pp. 251–284.
  8. ↑ Storni 1992, pp. 364–372.
  9. 1 2 3 Chacón, pp. 129–154
  10. 1 2 Mira Caballos, Esteban (2013). «Otros sectores productivos y económicos». In: Genaro Rodríguez Morel. Historia general del pueblo dominicano (em espanhol). 1. Santo Domingo: Academia Dominicana de la Historia. pp. 393–450
  11. 1 2 3 Silié 2009, pp. 27–94.
  12. 1 2 3 4 5 Sánchez Mejía 2012, pp. 81–117.
  13. 1 2 3 4 5 Fundación Polar 1988, pp. 239–241.
  14. 1 2 3 4 5 6 Gilij 1955, descrição da pecuária de Terra Firme.
  15. 1 2 3 4 5 González Segovia 2014.
  16. 1 2 3 4 Trujillo Mascia 2013, pp. 6–11.
  17. ↑ Fundación Empresas Polar. «Comercio exterior». Diccionario de Historia de Venezuela (em espanhol). Consultado em 19 de Julho de 2026
  18. 1 2 3 Ramos Guédez 2011, pp. 140–147 e 371–373.
  19. 1 2 Ramírez Méndez 2016, pp. 334–335.
  20. 1 2 Carrocera 1968, pp. 505–510.
  21. 1 2 Carrocera 1979, pp. 87–88 e 133.
  22. 1 2 Acosta Saignes 1978, pp. 185–186.
  23. 1 2 Brizuela, Jean Carlos (2013). Las misiones capuchinas en los Llanos venezolanos: apuntes para el estudio de San Carlos de Austria (1658-1787) (em espanhol). San Carlos: Alcaldía del Municipio San Carlos
  24. ↑ Fundación Polar 1988, pp. 1154–1157.
  25. ↑ Fundación Polar 1988, pp. 241–242.
  26. ↑ Arcila Farías 1966, pp. 329–341.

Bibliografia

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