ORGANDI

sexta-feira, abril 05, 2013

Não há mais espaço para o frágil.
Foi esmagado entre duas vitrines cosmopolitas.
O forte, apolíneo é, sem dúvida, belo. Inspirador. Necessário.
Tronco.

Mas a alma não é tronco. É flor. Pode ser esmagada
pela unha de uma criança.

Eu precisava de paz, papel e caneta para ser feliz.
Hoje, nada me basta.
O medo alimenta a ganância infinita.
E o tempo
é o recurso mais escasso.

Minha personalidade alegre, falante, sociável,
deixa de lado o silêncio,
que é o que traz lucidez.

O frágil é mais lúcido do que o forte.
Mas não há mais espaço para o frágil.

A humanidade caminha
forte e convicta
ao encontro do seu próprio colapso.
E nem isso eu consigo lamentar.

Amor é a única coisa que você dá,
e depois fica mais rico

Poesia é a única coisa que você despeja,
para depois ficar mais cheio.

A maravilha da vida é que tudo muda.
As dores não assustam tanto diante dessa verdade.

A maravilha da vida é que o que está aqui hoje
monolito imutável de certezas
amanhã vira rio, enchente, tempestade.

O terrível da vida é que tudo muda.
Por isso eu choro agora.
De alegria. Ou tristeza.

terça-feira, maio 29, 2012

maturidade
é saber que as respostas
não estão em lugar nenhum
senão em nós mesmos

segunda-feira, abril 09, 2012

O que é este seu hálito
sua mão na minha mão
corpos tão acostumados
a se enroscarem, namorados

O que é este seu cheiro
que entre todos perfumes
conforta do que há de áspero,
lancinante no mundo
e me enovela pela noite
em ajustes improváveis

Um nariz, pousado na orelha,
é natural.
Pois que tudo nos amantes
encontra seu perfeito,
sublime encaixe
oração dançada
que é o encontro dos amores

(jan 2012)

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Anti-Pesadelo


Hoje eu sonhei
que tudo que me contaras
flechada nas costas
não passara de um sonho
e, no cinema,
te cobria de beijos
apaixonados

então acordei
e a dor voltou
a envenenar meu coração

segunda-feira, dezembro 26, 2011

As projeções que fizemos
gotículas de sonhos
nuvens moldadas

se agitam
com o calor ácido do seus atos
e condensam

nossas empresas
nossos filhos, viagens

existiram intensamente
dentro de nós
e nos fizeram felizes

realidade onírica
não menos real
que qualquer outra realidade

os vapores de nossos corpos quentes
de nossos corações quentes
derretem

quase não se reconhece
a forma do que teriam sido

Os sonhos, agora,
chovem em mim, por dentro

não sem dor,
também não sem alegria

que o sol ilumine
a terra irrigada






você, em mim,
cresceu siamês
semente transgênica
de um amor pervertido
que a lógica plantou
em nossos corações

nasceu como apêndice
anti-estética
de um amor cínico
antitético

você, Monsanto da paixão
passou roundup
em tudo o que era mais meu
e me acusou
de todos seus defeitos

dez anos endureceram nos meus ombros
um ano por mês
desse amor mal-sucedido
que espreme meus pulmões
incha os meus pés
murcha meu sexo

faz favor e vai embora
sem fazer barulho

domingo, dezembro 11, 2011

dumb phone

tec toc tec tec
sms anti-matéria
suga a poesia
do tempo vago
adolescente

dun-den!
aterrissa a mensagem
espalhafatosa
interrompendo o ato
que continua
apesar

celular
os maus modos
de atendê-lo à mesa
de fazê-lo anteparo
frente ao contato
incandescente
do olhar

you phone,
I person

a maça conectada
esbanja marca
olvida etiqueta

sábado, março 19, 2011

Te conheci e não te amei
me disse "vem!"
e fui

rédeas soltas na escuridão
do início da minha vida

pediu um beijo
não dei
pura provocação

Por isso decidiu que eu seria sua

Ouvi a escolha
tácita e paciente
E esperei curiosa

Hoje, sou sua

Escalei os degraus da torre
me cerrei na cela
e corri para a janela para mostrar
com que graça eu engolia a chave

Mas você não estava no pátio
nem nos jardins

Exibia por algum lado
o cheque em branco da vida
com a minha assinatura

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Virá
do mesmo jeito inesperado e
lutaremos contra o
despedaçãr de todas as certezas
até que
como o soldado baleado
ao relento repousaremos
olhar virado para dentro
nem tristes nem alegres
(ou tristes e alegres)
e abriremos mão de tudo que
nunca foi realmente nosso
mas que cativamos com
tanto apego

sentiremos
o drama de estar preso à carne
o desejo de desintegrar a dois
o vôo sem medo de
quem desliza no precipício

mas até quando?

Suck it, Leak it

(a Julian Assange)

What a nightmare
a whisper out loud
What a shame
World will never be the same

You thought
that you're safe
playing cards as God throws the dice
gladly ruining scum people's life
throwing bombs with nothing to fight

Now suck it!
The storm has started
Arrest one
ten more will come to his side

Bet you can't clean
the oil leak apart from the sea
Time has come
for that same old dream

Now lick it
From the top you'll see
Wiki revenge will
make your plans sink

What a nightmare
a whisper out loud
What a shame
World will never be the same

sábado, maio 22, 2010

that i can't deny

People think I'm crazy
I guess they might be right

People think I've fooled them
and that I can't deny

People think the hell
of our way of life

A wise man once said
thoughts should live out loud

I rather
keep
my sight
and feel
the sad-
ness of dirt
while
m
e
l
t
i
n
g into the see

If that is the price not to be blind

toward paradise.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

descanto

O galo
canta

Deus, como odeio o galo que
canta de manhã, de tarde,
de madrugada canta.

Deus, minha madrugada!

Como detesto esse canto monótono
do galo invisível

Que matem esse bicho!

Mil vezes canja prefiro!

Alguma escrita

A escrita em público vacila
(tímida)
A escrita sabe seu potencial destruidor e
por isso
cuida de permanecer latente

Ela paira pelas
frestas
dos parques vazios
dos quartos ardentes

Não é que ela não queira
nascer
crescer
padecer

É só que
ela espera o momento
o alento
o vacilo

A escrita percebe
o descuido do momento oportuno
só um pouco antes de saltar à caneta

E então a escrita destrói
mas apenas o necessário
para criar

Faz-se o verbo
Vai-se o silêncio

quinta-feira, setembro 27, 2007

Apaixonado pela Tintureira

A acao de um celular no Film Museum de Berlin

sábado, junho 02, 2007

Ligia diz, a gente cumpre nossa vocação quando exerce o ofício com paciência e amor, e não se ocupa do que vai vir a ser.

Paul escreve, e dentro do livro se faz escritor. Dentro desse escritor, Paul se recupera de um longo período de doença. Sai pela rua, acostuma com a luz forte. Numa papelaria, conhece um oriental, sujeito estranho, e sai de lá com um belo bloco de folhas brancas, com capa amarela (ou será que invento o que não sei?). Nestas folhas o escritor, que não é Paul, e nem Borges, tenta escrever alguma coisa. Não importa o que, duas ou três frases banais bastam. Precisa apenas saber se ainda é capaz de escrever.

Clarice envia uma carta para Caio. Ela está na Europa, ele, nos Estados Unidos. Ela lê muito, já que as letras são o alimento de um escritor. E portanto ela (que dispensa o “portanto” e outros lirismos vários) lê, e assim se preenche de paixões e angústias, de narrações e estilos. A gente escreve para pôr graça na vida dos que não têm. Ela disse uma vez. Não bem assim, com mais graça, mas disse.

Ligia, Clarice. E mais outras. Florbela, Cecília, Adélia, Raquel: mulheres. Lindas. De tão lindas que conhecer o rosto, o retrato, eu não quero. De uma beleza tão real, como princesa do campo, que impera, mesmo que ninguém saiba. De baixo da figueira, dão de mamar a um filhote de gato abandonado. Mulher, fonte. Que de si deixa brotar um jorro, fluxo. Transborda. E acaricia toda imagem que lhe vem à idéia. E se afoga em raiva, arde; escreve embebida, bêbada, transgredida de amor.

O homem publica. E isso é natural. Ele têm e apresenta, como já é feito há séculos. Ele apresenta o que têm, como é esperado. E isso não é pouco. É claro que cria. Mas se acha que pari, acha. Fica nisso. A mulher não têm. E para ter, ebole. Apaixona, ama, guarda, amamenta. O homem, também universo pra dentro , ignora solenemente o infinito dos detalhes. E acha que agüenta a dor da depilação. À mulher, tudo falta, a não ser que ela invente.

Ele é quem quer, ele é bom. Eu sou apenas uma mulher. Apenas, inclusive, tsunami que constrói. Feita apenas para amar. E pra ser só perdão.

sábado, março 17, 2007

Banksy rocks!

Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, veio a palavra?
Ao perder a lembrança,
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
O mar? Continua verde.

Saudosa amnésia, Paulo Leminski

sexta-feira, março 09, 2007

a verdadeira cultura é aquela que traz consciência
e não vergonha
da nossa ignorância

terça-feira, março 06, 2007


sábado, março 03, 2007

Humano às 10

Na loja de bicicleta, quando eu entrei, já sabia exatamente o modelo que queria comprar. Era uma de aço de carbono, preta, com um design interessante. Eu queria a com marcha e freio – ainda que a sem marcha e com freio no pedal fosse mais barata. Pra quem anda de bicicleta como meio principal de transporte, as marchas podem evitar situações nada confortáveis, como ter de conviver a tarde toda com um futinzinho, ou com a pele melada.

A minha nova bicicleta teria o guidon alto e largo, de forma que eu adotasse uma postura ereta e pudesse apreciar a vista, sem precisar optar entre mirar o chão e um torcicolo filha da mãe.

Desconto negociado, levei minha bicicleta antiga para dentro da loja, para que fosse feita a transferência da cestinha.

É, caro leitor, o que vem depois é um desses momentos inesperados, numa manhã de sábado às 10 da manhã, em que o mundo fugazmente se desconstrói diante de nós, para novamente erguer-se, num balé de pó que implode e confunde, pra depois clarear.

Aquele vendedor que, talvez somente por sê-lo, aparentava-me de uma espécie extremamente suspeita; de forma espontânea, translúcida – e nem por isso inocente – com uma mão na cintura e outra no queixo, me perguntava por que raios eu queria trocar aquela bicicleta.

Depois de um momento de repulsa e estafa por constatar que aquele sujeito, movido não sei por que, me retirara do paraíso do consumo iminente para jogar-me, sem que ninguém lhe pedisse, no purgatório terreno das escolhas, depois disso, e de internamente já sentir a boa vontade em seus olhos casuais, pus-me a tentar entender melhor seus argumentos.

E ele era categórico: minha marcha era ótima, o quadro excelente. Um guidon que a tornasse tão confortável como a outra custaria um preço módico. Ele não faria muitos gestos, pois tinha uma câmera, mas o que a minha magrela precisava era de uma revisão. A ferrugem? A que eu estava prestes a comprar não tardaria a ficar igual.

É claro que se o seu desejo é comprar uma nova, ele disse, nada que eu fizer com esta vai te deixar satisfeita. A questão é que você vai ficar com uma bicicleta bastante inferior a que você tem, que vai precisar de revisão com muito mais freqüência, e vai ter uma vida útil menor.

Perplexa, tirei da minha caixa de pandora, quase em confissão, meu último argumento: mas a minha bicicleta é feia. Ao qual ele respondeu: Ué? E isso não é melhó? Pra num chamá atenção dos ladrão? Mas, realmente, se você qué sê Barbie, tê uma bicicleta pra desfilá... melhó comprar uma nova.

É claro que eu poderia dizer aqui em que loja tudo isso se passou, lançar quem sabe um novo ponto turístico, onde se encontra o vendedor mais íntegro do Rio de Janeiro, quiçá do mundo. O carioca mais honesto. Uma estátua seria erguida pela prefeitura, ou pela Igreja. Mas isto provavelmente o levaria a perder o emprego, no mínimo. Havendo ainda a possibilidade torná-lo procurado, sob o pretexto de ser, este pacato vendedor, uma ameaça terrorista ao sistema econômico mundial.

sexta-feira, março 02, 2007

Era uma tarde quente. Ou talvez não fosse uma tarde. De qualquer forma, tenhamos, por suposto, que estivesse quente. Estava um menino sentado na calçada. Sentado, o menino talvez estivesse em pé, apoiado no muro. Ou ainda simplesmente passando distraído pela esquina, neste mesmo momento, em que talvez estivesse quente.
Fora possível que ele, o menino, um menino, pensasse no clima. Ainda que mais provável fosse que pensasse nas lições. Se passasse uma bola, pensaria em jogar. A esquina, talvez fria, podia ainda não abrigar desconhecidos. E assim, na ausência de um observador presente, podia ela mesma, a esquina, brincar de afundar-se na calçada. Acontece que, aparentemente, naquele momento, por ali, passava um menino. Que com o caderno aberto, distraído, chutava a bola. E notava a brisa fria da tarde que lhe parecia quente. E que por não ter ninguém na esquina, afundava-se ele na calçada, o rosto nas mãos em vê.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Knock, Knock.

-Who is there?
-Its Robert?
-Robert who?
-Robert Crumb.

sábado, janeiro 13, 2007

ET

pato

Mulher com flores (frag)

segunda-feira, novembro 27, 2006


sábado, novembro 18, 2006

sábado, setembro 09, 2006

Uma Crônica

Tinha a casa. Dez graus, à noite. Se encontraram antes na varanda de Remi. Se estivesse mais frio, iriam para a garagem. Foi uma noite calma. Só o mais íntimos, haxixe e crepe de chocolate. Remi, a princípio, transava com Rose. Uma noite dormiu com Émilie, e acabou ficando com ela. Emilie e Rose também saiam. Mas nem Mathias, nem Remi e nem Claire – que saia com os dois caras – desconfiavam.

Emilie tinha preparado os crepes. Esfarelou um pouco de hash na calda. Não falou pra ninguém.

Foi uma noite calma. Ficaram na varanda. Por dez minutos Remi e Rose se trancaram no lavabo. Antes de duas acabou. Rose morava longe, Ficou para dormir na casa de Claire.

Era subúrbio, foram a pé. Saia fumaça da boca quando falavam. O último baseado, encostados em um carro, os últimos beijos. O fim da noite era mais aberto. Remi e Math quase nunca entravam nessa, entre eles.

Dentro do quarto, era grande e vazio. Elas estavam em cima das camas. Claire, na de casal. Rose, na do chão. Tinham vestido pijama. Claire alisava o bumbum por debaixo do short. Falava de um filme que tinham visto. Rose se levanta, vai ao banheiro. Geme de dor. Ela é morena, cabelo longo, cacheado. Diferente dos outros. Ela nunca fecha completamente os lábios, quando está calada. Sua mãe era colombiana.

Eu gosto de alisar o meu bumbum, eu reparei. A Claire fala, lá de dentro. Rose está no banheiro da suíte, com a porta aberta. Levanta a camisola e senta na privada. Eu to ardendo! De novo? De novo, não, ainda...

Claire faz cara de dor.

Não sei mais o que fazer. Cuido, melhoro. Tinha melhorado. Mas é que a gente não agüenta. Olha para um hematoma no braço. No banheiro, mais cedo, Remi puxou com mais força na hora que tava gozando. Ela gostou.

Claire senta na ponta da cama. Olha Rose.

É que... é bom demais. Às vezes eu... não agüento. Aí eu grito, sai sozinho. Tem vez que eu choro, de tão forte. Ele também.

Ela para, alisa a perna, a virilha. Ri. Ele diz que não muda nada se eu tiver depilada ou não!

Claire faz cara de quem acha estranho. Vai para o banheiro. Fica olhando no espelho. O Math... ele disse que me ama.

A gente tava transando ontem, e ele me disse, quando tava gozando. Claire, eu te amo, você é a mulher da minha vida, eu te amo, eu te amo. A gente tava sem camisinha. Ele pediu. O homem não consegue mentir na hora que ta gozando.

E o que você vai fazer?

Tomei pílula do dia seguinte. Cruza os braços, se encosta na parede. E você, aí, ta melhor?
Rose se seca, dá descarga. Fica olhando para a água. To melhor. Melhora e piora, é assim.

Rose deita de bruços na cama de casal. Claire apóia o pé na pia, olha o esmalte saindo das unhas coloridas. Volta para o quarto, afunda um beijo no pescoço de Rose, deita do lado. Dormem.

quinta-feira, julho 06, 2006

A cada dia
me afogo mais
em mim mesma
Vivo embriagada
da realidade
Tudo o que penso
deve ser verdade.
Deve ser verdade
mas é real?
Porque real é o que carrego nas costas
além do ir e vir do sol
O medo é real?
A miséria
é real?
Uma felicidade adiada
é real?

Sentir que eu não consigo mais sentir
além do melodrama nosso de cada dia
Eu, que me apego à realidade do pão
e esqueço a fantasia do vinho
sou real?
E verdadeira, eu sou?

No mesmo dia mesma hora que desaprendi a escrever,
foi no mesmo dia mesmo instante
que me dobrei
à irrealidade da vida

O mesmo dia que desaprendi a amar
foi no dia que tentaram me ensinar
e para isso me castigaram

Supondo que me ames
do que adiantaria?
Eu que não sei amar
Eu que não me sei
Isso sim é miséria

Eu que me odeio por perder a esperança
Eu que confundo passado e futuro
Que não ligo mais pro presente

Hoje eu só me ocupo
com minha imagem no espelho
que é linda
linda linda linda
tão linda que permire que eu me afogue
neste mar de insegurança
e te domine com amor
um amor que era para ser luz
mas virou fardo

Cansei
preciso viver sinceridade

Eu quero te amar
amar contigo
a ti a mim
a nossa casa nosso mundo nossos filhos nossa cria

eu quero te amar mas antes de tudo
quero saber amar o que há de precioso
amar assim, um pobre amor desleixado
há de deixar faminto o nosso amor

quero triar
dar de comer
limpar e amar cada cheiro
ter paciência com o amor e quase sempre
te ofertar não o melhor que eu posso
pois como saber o que eu posso?
quero ser a doação em si
cultivar um amor forte e duro e fundo e forte forte
porque eu sou fraca

quero saber quem eu sou
para poder ser minha e aí ser sua
quero ser sua para ter alguém
quero estar safisfeita por querer ser
e satisfeita com o que me da
insatisfeita apenas com meus versos

eu digo teamoamoamoamoamo
mas o que queria dizer mesmo é me salva

sexta-feira, março 10, 2006

Na loja de instumentos o pandeiro sofria uma crise de identidade.

Estou surdo!

Sem titulo

Não sem surpresa ouviu Pedro o lamento da sua tia Clonice quando, em conversa casual, revelou sem alarde sua inédita resolução: Agora serei normal, cansei de ser diferente, ora!

O espanto de Cleonice justificava-se pelo empenho costumeiro de seu sobrinho à carreira de iconoclasta internacional, para a qual revelava excitante talento.

Acontece que tanto teimara Pedro em ser estranho que a familia passara do horror ao desprezo; do desprezo à aceitação, e desta ao apego. Até desatinarem em torcída íntima, porém cativa; proveniente quem sabe da sublimação que tal postura proporcionava aos seus próprios desejos reprimidos.

Que fique claro que havia de fato algum reconhecimento, pela parte da avó, da busca cega de Pedro por si próprio e pelo olhar (arregalado) alheio. Contentava-se Dona Emília em sorrir-lhe, e servir-lhe doces, sabiamente guardando em seu íntimo a consciência da frustração que inundaria a família caso entrasse em voga um discurso filtrado pela sinceridade.

Uma vez tomada a decisão, cabia a Pedro – além de ouvir pacientemente o desconsolo dos parentes– encontrar em seu íntimo – pois já tentara sem sucesso no Google – a essencia desta tal normalidade.

Vagou eremita pelas calçadas do Leblon, subindo pela Vinícius (o pobre preferia não procurar seu amago pelas mesas da Farme) até alcançar a Lagoa.
Caminhou calmamente por um deck e olhou-se nas águas fétidas. Lebrou por um instante da história de Narciso, pensou no espelho de sua irmã que quebrara numa briga, e finalmente que já devia ter uns três meses que não fazia sexo. Foi então desistiu de procurar mais qualquer coisa, e bebeu uma coca-cola.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

ARTE

Concebida em pico de tesão. Formulada pela conjunção da consciência focada com a potência em fluxo. Expelida em parto.

Sabe, o criador, que pefeição é lixo. Por isso a lança ao mundo quando crê justo, tal coisa pronta que reconhece, sem conhecer.

Filho bastardo, vindo do ventre. Intolerado e amado. Entregue à sorte em corajoso pesar. Com assustada esperança de que faça bom uso de suas pernas. De que mantenha a face erguida à tapas, cuspes, lambidas ou -quem sabe- beijos.

Subjugada ao criador por tempo ínfimo. Vinda com a sina de servir a humanidade, até o último fóton.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Escorre lenta, pelo canto
para o ralo

Curava há dias, tal queijo esquecido
Brisa azeda, dia árido

Em tom grave algumas notas longas
(de trombone?) traçam um arco

Meus olhos rebatem discretos
ladoa ---------------------------- lado

E nem alegre nem triste nem amante
cambaleio e flutuo
um tanto chumbada no chão

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Às vezes parece que eu não consigo amar.
Parece que eu olho mas não consigo ver,ouço e não entendo.
Leio e as palavras rebatem nos olhos ao invés de adentrarem a mente, o coração.
E mesmo nos momentos de felicidade. Ah, nos momentos de felicidade aquela ponta de tristeza.

A amor vai ficando mais forte
mais completamente espalhado pelo corpo, pelos olhos, pelo ar.
E ele entra tão fundo no coração que o fundo foge à vista e quando eu tento olhar queima os olhos e a dor do fundo vira dor de furo pontudo cortante que se une com o amor se amalgama se confunde e o que parece auge parecer o alto vertiginosamente pleno e instável corda bamba.
Bailarinha desastrada equilibrista dispersa apaixonada perna bamba balança a corda perde a coragem bamba e num ato destraído esquece o que é devido e olha pra baixo tangente
Que mole perna mole coração
e a bailarina anda voa incerta

Quando me amei de verdade,
compreendi que em qualquer
circunstância, eu estava no lugar
certo, na hora certa, no momento exato.
E, então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome...
auto-estima.

Quando me amei de verdade,
pude perceber que a minha angústia,
meu sofrimento emocional, não passa
de um sinal de que estou indo contra
as minhas verdades.
Hoje sei que isso é... autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei
de desejar que a minha vida fosse
diferente e comecei a ver que tudo o
que acontece contribui para o
meu crescimento.
Hoje chamo isso de... amadurecimento.

Quando me amei de verdade, comecei
a perceber como é ofensivo tentar
forçar alguma situação ou alguém
apenas para realizar aquilo que
desejo, mesmo sabendo que não
é o momento ou a pessoa não
está preparada, inclusive eu
mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... respeito.

Quando me amei de verdade, comecei
a me livrar de tudo que não fosse
saudável... pessoas, tarefas, crenças,
tudo e qualquer coisa que me deixasse
para baixo.
De início, minha razão chamou essa
atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... amor -próprio.

Quando me amei de verdade, deixei
de temer meu tempo livre e desisti de
fazer grandes planos, abandonei os
projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que
gosto, quando quero e no meu
próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... simplicidade.

Quando me amei de verdade, desisti
de querer ter sempre razão e, com
isso, errei muito menos vezes.
Hoje descobri a... humildade.

Quando me amei de verdade, desisti
de ficar revivendo o passado e de
me preocupar muito com o futuro.
Agora, me mantenho no presente,
que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso
é... plenitude.

Quando me amei de verdade, percebi
que a minha mente pode me atormentar
e me decepcionar. Mas quando eu a coloco
a serviço do meu coração, ela se torna
uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é.... saber viver!

A cada dia que vivo, mais me convenço
de que o desperdício da vida está no
amor que não damos, nas forças que
não usamos, na prudência egoísta que
nada arrisca, e que, esquivando-se
do sofrimento, perdemos também
a felicidade."
(C.Drummond de Andrade)

sábado, novembro 05, 2005

Diante de meus olhos a vida
surgiu brilhou secou renasceu

Houve sempre o que se comentar
Meus feitos afinal mereciam admiração
embora eu duvidasse do mérito

O que me rendesse aplausos era digno
E assim, encantado com a ciranda terrena
vivi

O brilho das supostas gemas
empalidece

Sao de cimento

Nem mais suspiro brota
nem vento

Cada vez mais rápido as folhas secam
e se desprendem

E cada vez mais frias são as palavras

JN

sábado, setembro 03, 2005

A arte de ser sábio
é a arte de saber
o que tolerar

William James

terça-feira, agosto 16, 2005

Above us all

Beyond time and space
Beyond sadness and hapiness
Beyond gain and loss
Beyond good and evil

Beyond the gates of god

Beyo n d a w a r e n e s s

The fool and the wise
play together

and make love

J.N.

Amour de mon coeur,
il faut te laisser tomber
C'est dommage
tu vas me manquer

Un trou pas facile d'oublier

Mais tu me prends la tête
et je te fais chier

Je n'ai plus de force
pour ce jeux

Excuse moi, mon amour,
mais je vais te quiter

J.N.

Ao irmos a outro lugar
devemos buscar nada mais
que o local em si

A paz não está em parte alguma
que não em nós mesmos

J.N.

domingo, agosto 14, 2005

Sê inteligente
e fala não o que queres
mas o que necessita

Mas fala também às vezes
o que urge

J.N.

terça-feira, julho 19, 2005

Quarentena

Julia Nemirovsky

Me dê um minuto, por favor
Hoje não me chame para nada

Preciso apenas no meu quarto escuro
Mergulhar num silêncio recluso
Sem dia ou noite
Ou urgência

Me dê apenas algumas horas
Uma semana, quem sabe

Dentro de mim tem uma dor
Dela transborda muito sangue
Muitas lágrimas

Por alguns meses
Um ano talvez

Repousarei meus braços em cruz
No dorso desta dor

Acariciarei seus cabelos na cama
Esperando que um dia ela cure

Talvez tudo passe agora
Talvez não passe nunca

Mas antes disso não conte comigo
Em festas
Em bares
Nas ruas
Nas conversas

Uma cicatriz há de se formar
Antes que eu me exponha novamente à voracidade do sol
Antes que eu tombe mais uma vez apaixonada

Vaidade

Florbela Espanca

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

segunda-feira, julho 04, 2005

Alguma coisa incerta

Julia Nemirovsky

Meu reflexo me espanta
Parece que cresci novamente

Talvez o tempo realmente passe
Pois minhas unhas crescem
Meu cabelo espicha

Não, mas não é isso

Olho atenta e confirmo
Cresci

Absorvi dilemas
Eliminei o obsoleto

E pensar que toda aquela inveja era só um disfarce
Era admiração

Das trevas a vergonha ressuscita
Fantasma medroso da castração
Faço uma careta e ele foge

Me pedia para desistir
Mas não o odeio
ele mesmo é um frustrado

Eu
vivo no mundo dos prazeres
Onde tudo é um só
e eu sou alguma coisa incerta
diluída neste todo

Amálgama em fluxo
que me atravessa
e que É eu
mesmo se for no outro

sexta-feira, junho 24, 2005

Kadoo

Julia Nemirovsky

Ursinho na floresta
Leito que o sol cria no Alpe
Criança rosada enrolada na
barra da saia

Cometa orbi
tando
Acorde perfeito maior
Canário pousado na rede

Barroco brasileiro
Rastro de canoa no rio
Tutu mineiro
Campo de algodão florido

Para decifrar

o quebra-cabeça (da vida)
o esparrama pelo chão
E o Cadu, quando dorme
põe a mão no coração


Julia, linha e agulha

Cadu Corrêa

Julia! Vamos, Julia!
O pano a gente costura
Usando só linha e agulha.
E o mundo, Julia?
Como a gente costura?

Vamos, Julia...
Eu sei que você sabe.

Pegue um papel
escreva algumas linhas
(a caneta é a agulha).

Ande, Julia, não pense.
Às favas com o juízo.
Remende poesia onde achar preciso!

Koratzaoo

Julia Nemirovsky

Eu pego a caneta
para costurar a vida
tão desconexa e embaralhada

Mas antes saio à cata de retalhos
(uma colcha macia viria a calhar)

Em uma esquina insossa
encontro um amigo
que sorridente e sereno
me estende os braços

no abraço apertado começo a tarefa
cozendo bem perto nossos corações

domingo, junho 12, 2005

A Lista de Necessidade

Berthol Brecht

Conheço muitos que andam com uma folha
que contém o que necessitam.
Quem chega a ver a lista diz: é muito.
Mas quem a escreveu diz: é o mínimo.

Alguns no entanto mostram orgulhosos sua lista
Que contém muito pouco

terça-feira, maio 24, 2005

Para Viver Um Grande Amor

Vinicius de Moraes

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e
muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um
grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de
uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... —
não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se
cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for.
Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher
amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um
grande amor.

Para viver um grande amor, urgente é descartar-se ao
máximo de gente, pois gente é no geral profundamente inve-
josa do amor. Há que cortar grupinhos e boates, passar ao
largo do café-society e todos seus tristes bonifrates - para
viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção
como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre con-
sigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado
com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não
está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compene-
trar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade —
para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por
vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, in-
dizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem
conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um gran-
de amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser ape-
nas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito
de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a
sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no
seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no
florista — muito mais, muito mais que na modista! — para
aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer
saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois,
um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, cama-
rões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois
do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e prepa-
rar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha,
para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante
viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra
não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só
com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo"
seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser
bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; sa-
ber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca
se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que
não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e
desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver
um grande amor.

domingo, maio 15, 2005

Eu tenho uma sobrinha que não sabe de nada

Julia Nemirovsky

Eu tenho uma sobrinha que não sabe de nada
Falo internet TGV scargot
a bonitinha me encara e ri
Comento do trânsito do assalto do canalha
E seus olhinhos arregalados!
Arrasta a boneca pelo braço
Esta princesa nem imagina
que haja tempo ou mesmo posse
Que exista fome perversão
Seu comportamento
obedece aos impulsos
Quão preciosa é a minha sobrinha

Carmelitas

Julia Nemirovsky

No baile da praça
conduz firmemente
contorna meus erros
repara e corteja

No degrau de madeira
encaixa a carne
funga o suor
Conquista suspiros

Mas desperta ainda tarde
e me solta na rua
bêbada murcha molhada.
Retoma o juízo.

Buraco Negro

Julia Nemirovsky

Algumas pessoas são rasas.
Fico estonteada de curiosidade
quando percebo que não enxergo
fundo próximo em um ser

Tal apreensão sensitiva faz com que
a estrutura de infinita solidez e gravidade
projete-se mimeticamente em meu interior

Amplitude

Julia Nemirovsky

Não há estado mental
mais sublime
do que o estado natal.
Sendo nada, tudo comporta.
Fusão de inferno e paraíso
Nosso mais íntimo contato
com o entusiasmado siso

Solidez

JULIA NEMIROVSKY

Julgam-me irresponsável.
Ainda ignoram como admiro disciplina.
Vislumbro-a, entretanto, quando o rigor
procede de sincero amor próprio.
O medo de si mesmo é um equívoco.
Perceba o egoísmo
em aprisionar frustração
dentro de um ser humano.

sábado, maio 07, 2005

Como incomodam!

Um paradoxo incomoda muita gente,
dois paradoxos incomodam, incomodam muito ma-ais.

Dois paradoxos incomodam muita gente,
três paradoxos incomodam, incomodam, incomodam muito mais.

Quatro paradoxos incomodam uma gente,
se resolvidos incomodam, incomodam, incomodam, incomodam
muitas ma-ais.

A essa gente que digere paradoxos, quantos estes forem - não
importa - incomodam muito menos.

domingo, abril 03, 2005

O homem fraco

A estátua fita-me indócil
Encaro-a de volta

Deve ter sido um grande homem
Ao menos isto denota sua pose

O meu pai era um homem forte
Eu, saí fraco

Na vasta praça miro a estátua
que me diz

Mostre-me do que és capaz

segunda-feira, março 21, 2005

Constelação

Julia Nemirovsky

O professor enamora-se da aluna. Delicada, inteligente, interessada. Utopias preservadas sob carcaça decrépita. Graciosa, fresca, voraz. Todas as cores embriagadas de vinho. A sensualidade escorre.
Odores manchados de vinho.
Lisonjeada: prisioneiro.
Discute-se o mundo, mas o profundo permanece não dito.
Tímidos buscadores vivenciam intimamente
dramas universais.
Tragédias carnais.

E o mais belo, mais nobre, mais sagrado deste mito é que, mesmo se os devaneios eróticos pairem sublimados até o já não mais haver, ainda que sejam estes de origem condenados ao universo esplendoroso dos desejos e das idéias; ainda assim, em seu delicado não-ser, serão sabiamente sidos, e por assim serem, gozados e extintos.

domingo, março 20, 2005

Telemarketing

Julia Nemirovsky

- Alô?
- Olá, boa noite. O senhor Marcos Vieira se encontra?
- Não sei mais, ando meio perdido. Bem, este é meu nome. Com quem estou falando?
- Senhor Marcos, o Banco B. está realizando uma pesquisa com os seus clientes para assim melhor atender as suas necessidades, o sen
- As minhas necessidades?
- Sim, Senhor Marcos, as suas necessidades.
- Veja só que interessante!
- O senhor se importari
- Qual é o seu nome mesmo, moça?
- Meu nome?
- Sim. O seu nome. Qual é mesmo?
- Janaina Silveira, senhor.
- Engraçado. (pausa) Quer dizer, não que o seu nome seja engraçado, mas é engraçado você, Janaina, me ligar justamente hoje, que encontrei uma antiga colega de faculdade com o mesmo nome na rua. Ela não me reconheceu. Eu chamei e ela não olhou. Depois eu lembrei que o nome dela era Joanina, e não Janaina; e aí eu pensei, lá vou eu mais uma vez confundindo os nomes de novo, e aí eu chamei bem forte Joanina. Ela olhou e me comprimentou. Mas depois percebi que tinha me confundido. A tal que se fez passar pela minha amiga tinha olhos castanhos e não azuis, como eram os olhos da Joanina, que eu me lembro bem. Ou eram verdes? Eram azuis ou verdes, disso eu tenho certeza. E olhos, Janaína, não são que nem cabelo, que se pinta de loiro, de vermelho e faz aquela papagaiada toda. Cor de olho não muda nunca. (Pausa) A não ser que ela estivesse usando lente. Você acha que ela estava usando lentes, Janaina.
- De repente estava apenas usando lentes, senhor.
- Ora Janaina, você trabalha com pesquisas. Por acaso não perguntam se os clientes usam lentes? Se não perguntam, deveriam perguntar. Diga-me, Janaina qual o percentual de clientes do Banco B. que usam lentes? Você deveria saber! (Pausa) Você usa lentes, Janaína?
- Senhor Marcos, importaria de responder por alguns minutinhos a nossa pesquisa?
- O problema, Janaína, é que as pessoas mudam cada vez mais rápido. Você, por exemplo, começou essa ligação falando que nem uma maritaca e agora, quando a coisa começa a ficar mais séria, Janaína, você se esconde. Por que isso? O que acontece com você?
- Senhor Marco, me desculpe, mas se não quiser responder, não me faz perder tempo. Eu tenho muitos formulários para preencher. Posso começar?
- Não ponha o carro na frente dos bois, Janaina. Essa mania que você tem de querer chegar bem rápido no ponto, não me agrada. Assim não vai dar certo. Cada coisa tem seu momento, e você tem que respeitar o meu tempo. Mais que isso, Janaína, você tem que sacar meu tempo. Sem precisar que eu te explique tudo, responda um questionário cada vez que liga...
- O senhor acha mesmo, Senhor Marcos?
- Só Marcos, nada de formalidades hipócritas entre nós, minha cara.
- Tudo bem, sen/ Marcos! Haha! Desculpe, Marcos.
- Muito bem! Pois eu acho sim, Janaína. E sabe do que mais, acho que posso ter a solução certa para o seu problema.
- Acha?
- Você tem quantos anos?
- 27.
- Já fez alguma terapia?
- Como assim, senhor?
- Janaína, os seus dias de angústia estão acabados.
- Estão?
- No momento que atendi ao telefone já sabia disso. Eu saco as pessoas muito rápido, e eu te saquei, Janaína. Onde disse que morava mesmo?
- Na Tijuca.
- Excelente. Muito perto da sua casa têm um centro que é a última palavra em terapia não convencional, Janaína, é no Grajaú. Conhece o Grajaú?
- Minha mãe mora lá.
- Ah, as coincidências. Nunca menospreze as coincidências. Ë uma das coisas que você vai aprender com esse grupo.(Pausa) Eu imagino o que está pensando. Que não teria dinheiro para pagar uma terapia, mas eu gostei de você, Janaína, a gente pode combinar um preço que caiba no seu bolso.
- Você faria isso por mim?
- Claro, Janaína, e sabe porque? Porque o mais importante para nós é o seu bem-estar. Você pode me dar o seu endereço, para que eu te envie a ficha de inscrição?
- Rua dos Jananós, 23.
- Fazendo a inscrição pelo telefone, você pode começar amanhã mesmo, no turno de sua preferência.

domingo, março 13, 2005

Cira da Divina Adoração

Bosque da divina adoração
Julia Nemirovsky


Se sou louco
em meu devaneio
ando solto

desbravando matas virgens
em dionisíaca liturgia.
Do lodaçal
miro tangente
o atrito

na suada lotação.
Maluco que sou
rio de todos
e adentro sem rumo
o verde luco
da divina adoração.

Ao lado do homem ao lado
Julia Nemirovsky

Um axioma há de ser lembrado
E portanto no liceu repete-se
Pensei no homem ao lado
Mas de ti também não te esqueces.

Flecha
Julia Nemirovsky

Quando a borboleta azul
voar em tua direção
identifique-se com um sorriso
e afine tua atenção

Ela trará de presente
doce e ardida canção.
Serei eu a remetente.
Estarei mirando o coração.

Tempestade de Raios
Julia Nemirovsky

Como pode o amor ser tão louco
se singelo e suave deveria ser?
Um poeta ama a vida como um todo
aspirando assim melhor a conhecer.

Se amo um não posso amar outro
sem aquele antes esquecer.
Mas amo um a cada minuto
quero tudo e a todos ter.

A impiedosa tempestade de raios
deflora meu estafado coração.
Será Deus que me ilumina
ou o Diabo apenas, de armação?

(Café com Leite)
Julia Nemirovsky

Ring, ring, ring
Soa o telefone sem cessar
Ring, ring, ring
Nem o vizinho mais pode aturar
Ring, ring, ring
Ninguém do sofá se erguerá
Ring, ring, ring
Enquanto o comercial não chegar




quarta-feira, março 09, 2005

Anúncio no Onanista

Desde que o Blog foi elogiado pelo meu amigo empreendedor Daniel Ribas em seu periódico O Onanista Pós-Moderno; têm vindo falar comigo outros amigos anunciando ora uma recente visita, ora uma suposta futura.

Para os que realmente passarem por aqui, a dica é que postem comentários "Anonimos", uma vez que para assinarem eletrônicamente têm que ser cadastrados no Blogger, e assinem No Próprio Post!

E... Vou ficar contente se assim o fizerem!
Com críticas negativas ou positivas.
É isso, felicidade para todos.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Brilho dos Balões

Julia Nemirovsky

Afastam-se ardentes balões
pelo avermelhado céu cor anil
Quando somem todos de vista
grata, a cidade sorri

Levam consigo
alem do amor da confecção
os sentimentos mais ocultos
na cidade interiorana

Carregam segredos envergonhados
que os velhos não ousam mais revelar

Espalham sonhos ascendentes
de criancas da pequena cidade
Ideais inocentes

Levam também a destruição
como qualquer luz faiscante

O julgamento deste fenômeno
Paira acima de nossos tribunais
muito além da chama dos balões.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Estupidez

Julia Nemirovsky
Secou naquele dia a escassa seiva remanescente nas veias pálidas. A família, embriagada de sobriedade, asfixiou-se sorridente em seu próprio saco de princípios. Racharam o chão e as paredes, dada a aridez dos corpos. No vácuo estúpido de humanidade, os talhares não mais ecoaram . Seco também era o alimento das línguas bifurcadas.
A deglutição, ritimada permaneceu mesmo quando a primeira gota do líquido viscoso espatifou-se na louça do mais senil. Irradiou-se no ambiente um odor metálico. Ainda sincronizadas foram as garfadas quando a criatura espalmou a porta pesada da sala em um movimento insolitamente leve. Diz-se que algumas entranhas atritram dado o rangido.
Bruxa languida deslizou através do cômodo. Negra era a rosa que cerrava na mão esquerda. A rosa negra tinha espinhos, e os ostentava com elegância em seu caule de traçado vacilante. E para cada gota de sangue drenada dos dedos importunos, outras dez irrigaram os leitos secos das paredes.
Nos olhos pálidos marginais refletiu-se a refeição, que não interrompeu. Somente quando dos corpos romperam as cavidades, e escorreu, sob pressão, a mágoa líquida, tombaram pelo assoalho os talheres de prata. A casa, vedada, inundou; e a família inteira padeceu.


sábado, janeiro 15, 2005

Entenda

"ORGANDI: do francês organdi designação de um tecido originário de Urganje, região russa situada no antigo Turquistão, famosa na Idade Média por seu mercado de seda. Na língua portuguesa passou a denominar uma espécie de musselina, um tecido transparente, mais consistente que a seda, mas igualmente leve.

Em suas Novelas Paulistas, o escritor modernista Alcântara Machado, autor do clássico Brás, Beixiga e Barra Funda, descrevendo as vestes de uma personagem, assim se expressa: "o vestido de Carmela coladinho no corpo é de organdi verde"."

Fonte: SILVA, Deonísio da. A Vida Íntima das Palavras. Ed.ARX, 2004

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Direções

Setas diversas
indicam caminhos imprecisos.
Pretenciosa a maioria
e também impaciente.
Miro-as indiferente,
e sigo rente
onde aponta meu nariz:
sempre em frente.
Não importa quanta gente
queira provar melhor
o divergente.
Eu sigo em frente.
E só assim tenho trégua
com minha mente.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Savoir Vivre

Respirar toda a atmosfera em torno, calma e profundamente.
Entregar-se à inspiração.
E curtir o extase fugidio entre o relaxar e a tensão.
Gar-gar-gar-gargalhar em convulsões.
Esquecer das eventuais caretas ou babadas ou tropeços.
E rir, só rir. Sem se ocupar em sorrir, poder até chorar ou fazer xixi.
O momento, aproveitar por inteiro.
Não dividir com mais nada a tarefa do momento.
E nem mesmo o pensamento.
Em cada refeição, comer apenas.
Sem jornal ou televisão. Apenas o garfo
selecionando o conteúdo a ser saboreado.
E estar inteiro em cada mastigada,
com atenção no balé da língua, na boca derretendo em saliva.
No alimento cedendo e permitindo-se engulir.
E se por algum motivo
a pálpebra tremer, a cabeça latejar, o pé compulsivamente balançar;
acontece. Respirar sempre ajuda.
O espelho reflete interrogativamente nosso âmango e,
com sorte… poderemos desfrutar do corpo mais uma vez relaxado.
Do que vale viver pela metade?
Sair do eixo é tão bom quanto encontrar novamente.
É savoir vivre.

terça-feira, novembro 16, 2004

Sombrio era o olhar deste homem

JULIA NEMIROVSKY
Sombrio era o olhar deste homem. Exercitava com um passante a arte da dialética. Estúpidos automotores não respeitam os pedestres enquanto há alguns metros algum guarda propõe suborno. Turvas retinas captam e reproduzem mazelas da cidade, da humanidade. Obscenos são os buracos nas calçadas, envoltos de pequenos detritos.
Ao menos temos, colocava o piedoso interlocutor, lixeiras que nos permitem optar por não corroborar com o que discordamos. Do que importa, as ruas ostentam impureza, prefiro até mesmo integrar-me. Pois sim, o mar por agora está limpo, se o preferes, integre-te com a pureza, tens a escolha. Que opção tenho se fui expelido em país miserável, com incontáveis carentes. Da carência todos podemos padecer, com malandragem safamo-nos. Mundo pueril que nos exige malandragem para sobreviver. O mundo oferece cantos mil, riquezas que não valem nem um real e ainda assim são mais preciosas que todo diamante do mundo. Riquezas que nos rodeiam mas, de tão podre que estamos, vemo-nos que a nós mesmos nas plácidas águas, vemos impureza, medo, incertezas. Pois não, há muito sei que não presto, e justamente por isto esvaziei-me de sonhos. Busco agora a segurança, que eu consiga assim preservar o pouco de compaixão que resta em meu âmago. Ora, ora, querido amigo, compaixão, amor, amizade. Sentimentos que precisam de dinâmica para manter-se inflados, são primos da vida, se parados murcham. Se buscas a liberdade, não prime pela segurança e lembre ser esta como uma borboleta graciosa que te rodeia em delicado vôo desengonçado. Não tentes, inocente, capturá-la. Ela escapulirá pelo vácuo de teus dedos e, com sorte, algum dia voltará a rodear-te. Sorte teremos nós se dia algum for possível capturar o vôo alheio. Já sabemos, não te iluda, a experiência confirma, o enquadramento consome qualquer brilho. Cospes frases de algum livro que lembro ter lido, papo este eu já conheço e sei que nada vale. Meu prazer retiro de Lindts e Mozarts, de Guinness e Weirsteiner. De cruzeiros e jovens moças. Pois bem, não quero convencer-te. Tal arte não se exerce sem o cooptação do outro. Não me agrada nem mesmo este teu tom alterado. Meu mundo é belo, doce e macio; não importo-me em arriscar perder alguns dedos se for para estender-te o braço ao lado sombrio da vida. Esvazia-me já este diálogo, peço que me dê licença, por ali passam belas crianças quero apreciar suas risada.
Sorridente, o passante afasta-se e, só de longe, o homem acinzentado nota certo brilho ao seu redor. Prega o despojamento e ainda veste trajes bordados a ouro, por que ainda escuto farsantes.

domingo, novembro 14, 2004

Alguma Distância

JULIA NEMIROVSKY

A dez centímetros do céu surpreendo-me
ao mirar tua satisfação

A dez centímetros do chão flutuo
com a doçura de teu cheiro

A dez centímetros de teu ombro
hesitam meus dedos

A dez centímetros de teu lábio mergulho
em devaneio louco e cândido

A dez centímetros da lucidez
me conduzes

A dez centímetros da vida me afastarei
se não puder mais te sentir

A dez centímetros de meu eixo procuro-te
sou tua



(o que era mesmo a distancia?)

Medida Paliativa

JULIA NEMIROVSKY

Se eu governasse esta cidade encomendaria bancos um pouco mais altos para que os adultos, ao sentarem-se, pudessem recordar dos tempos em que eram crianças; e assim permitirem-se a manter os pés não tão fixos no solo.


sábado, novembro 06, 2004

Experimentando

Ausência
JULIA NEMIROVSKY

te penso
te imagino
te desejo

em sonho,
te acaricio
e te sorrio
e te beijo

minha mão
falta
a tua!
suspiro...

mesa, copo, água

um segundo:
apago.
Abraço
e afago

de sobressalto
desperto.
suspiro...

janela, carros, casas

novamente,
sem aviso:
o passado.

tropeço
e escorrego
e afundo

em apnéia
espio
turvo privilégio

submerso
decrépito
paraíso
famélico

ou respiro
ou afogo

te penso
te imagino
te desejo


UM PROFESSOR
JULIA NEMIROVSKY

Encolhe-se
na camisa abotoada
Arrasta-se
pela sala abafada
Ostenta
cara estafada

Divaga
os olhos sem encarar
Agarra
um livro para se afirmar

Segura-o firme contra o peito
vazio
contra o peito firme

Grune agudo
frases incongruentes
Mestre inconseqüente

Odeia
alunos desatentos à sua miséria
mas, sobretudo,
a si mesmo

Divaga anestesiado
Pela matéria
Pela sala
Pela vida


Etimologia do Saber e Brecht

Saber - Sabor


O verbo latino Sapere teve vários significados, entre eles: ter sabor, conhecer através do paladar, ter inteligência, saber.

É a origem do português saber, que, além do sentido mais popular de compreender, também é usualmente empregado em Portugal como sinônimo de "ter o gosto de" (o bacalhau sabia a palha) ou "ser saboroso" (o feijão soube muito bem)

No latin sapere originou sapore, gosto, que deu em português, sabor.

In: PIMENTA, Reinaldo. A Casa da Mãe Joana, Ed. Campus, p.194.


Sobre a Imitação
Berthod Brecht

O que apenas imita, que nada tem a dizer
Sobre aquilo que imita, semelha
Um pobre chimpanzé que imita seu treinador fumando
E nisso não fuma. Pois nunca
A imitação irrefletida
Será uma verdadeira intimação.



quarta-feira, novembro 03, 2004

Caro amigo


Por JULIA NEMIROVSKY

Esta tarde fui ajudar um conhecido, o Jr. Seu pai, bastante debilitado por uma catarata inoperável, expressava nos olhos já sem função a angustiada entrada nas trevas infinitas. Como combinado, servi-lhe o almoço. Ocupávamos a mastigação do outro com comentários inúteis, muito significantes para um velho que, pela perda de um dos sentidos, sentia-se decrépito e solitário.

Lavando a louça veio-me que o nome é apenas a mais óbvias das características herdadas por este meu endurecido colega. O pai, na ocasião, senhor desnorteado pela cegueira, falava imponentemente sobre a proliferação da violência "Os ladrões estão por todos os lados, escondidos nesta mata. O novo sistema de segurança vai fazer isto e aquilo e esse tipo de gente não vai conseguir entrar" O que fazer nesta situação?

Um velho carente e imaturo. Não há de valer mais a pena alertá-lo para as maravilhas da integração e da entrega. Ou será que há? Cada um traça seu caminho, me vejo tentada a dá-lo atenção por pura pena de sua proliferada cegueira, dos muros que ao longo dos anos construiu a sua volta. "Ele é um homem 'do bem', afinal", argumenta meigamente minha mãe.

Cada vez se torna mais difícil refutar que realmente há um carma para cada um de nós. Os nossos problemas nos envolvem, nos cutucam, riem estridentemente pelos becos sombrios da mente. Quanto mais nos esquivamos, mais o destino os esfrega em nosso focinho. Quanto mais nos fechamos, mais somos obrigados a admitir que o handicap está dentro, e que ao nos isolarmos só afastamos a possibilidade de cura.
Como é burra a raça humana. A simples impossibilidade de admitirmos que vivemos em um mundo imundo, úmido, mofado e abafado; e que somos, nós mesmos, um monte de merda, nos leva a criar mentiras, supostas verdades no que chamam de "inconsciente coletivo". Criam a ética, o bom-senso, a cultura. Encaramos estas como verdades absolutas, como inerentes a nós mesmos. Nós, animais, poeira espacial conjugada de certa forma que tornou-se possível a transcendência. Mas o destino, já se sabe, é irônico, e cria a vergonha, o pudor, a insegurança. Dá aos que menosprezamos, aos menos racionais - animais ou civilizações primitivas -, a característica que mais falta a nós mesmos: a capacidade de nos assumirmos. E com o passar dos anos nos tornamos cada vez mais dependentes de um conceito criado pela nossa dificuldade em lidar com nosso maior dom, o dom da criação, junto de seu mais essencial complemento: a falta.

Porque, meu Deus, porque a dificuldade sufocante do homem em lidar com o vazio? Porque preferimos forjar uma completude ao invés de encararmos a angústia? Como a angústia é bela. Como uma tela em branco, junto com o medo, traz o tesão. Preferimos o devaneio à análise, num surto coletivo de histeria. Subjulgamos o que há de mais belo entre nós, abolimos a poesia. E sem ela perde-se a única fagulha divina que podemos esperar que haja na humanidade. Toda a energia da vida é direcionada ao desejo, desejo de se esquecer o caminho para o gozo, caminho sofrido, que exige explosões, dor, trabalho.
Incapazes de encarar o risco que é viver, incapazes de admitir nossas limitações, mistificamos uma verdade, seja ela qual for, que atrase nosso sofrimento. A matrix está introjetada em cada um de nós, sair dela é um trabalho homeopático e individual. Pois se qualquer um, senão nós mesmo, provocar o impulso para a ampliação da consciência, a catarse em si permanecerá eternamente apenas como uma promessa. O coito se perde, tudo vira punheta. Uma punheta angustiada, uma punheta pornográfica sobre bundas de photoshop. A mão caleja, o pau sangra; mas o movimento não cessa.
Talvez daí a matrix sugue nossas forças. Creio eu que sim. O erótico perde o sentido. O sexo se torna simplesmente o coito em si, exaltado. Ao mesmo tempo em que as outras formas de sexo - de prazer entre humanos - são reprimidas. Será necessário que os ossos descarnados dos dedos se trinquem, e que, aguardando a ejaculação, a carne esfolada do pau se putrefaça para que nós percebamos a beleza dos processos?

Porém, como alertou-te um amigo, o caminho é individual. Rezo, como me ensinaste, para que consiga ver as coisas como elas realmente são. E rezo para que a minha passagem por aqui não seja em vão, e se assim houver de ser a passagem de todos nós, que ao menos seja recheada de gozos profundos e lambuzados.

Angustiadamente,
Clarice Kiehne

segunda-feira, novembro 01, 2004

A perfeição em Drummond

E, para ilustrar, um exemplo de perfeição...

Reverência ao Destino
(Carlos Drummond de Andrade)

Falar écompletamente fácil,
quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que
realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa
se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas
pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus
erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito
errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que
ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer
sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que
diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre
esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que
fazer. Ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e
impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém
que realmente te conhece, te respeita e te entende.

E é assim que
perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que
tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fáci é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com
o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais
uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?". Difícil é
dizer "adeus".
Principalmente quando somos culpados pela partida de
alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de
olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a
pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo
do depois.
Amar e se entregar.
E aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência.
Acenando o tempo todo,
mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao
invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que
deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta.
Ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der
vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir,
de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te
aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém.
Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração
de segundo,mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma
força jamais o resgata

domingo, outubro 31, 2004

Construir a perfeição: a contingência, o propósito, a obra

por JULIA NEMIROVSKY
Se eu tivesse que eleger, na vida, a maior paixão, creio que escolheria as letras. Os amores vararam meus dias e acabaram isolados pela tangente centrípeta dos meus vícios. As letras pairam no tempo, mais ou menos intensas. Nunca se afastaram porque eu nunca as abandonei – e não será assim que se desenvolvem todos os grandes romances?

E foi por isto que, esta semana, na IV Jornada dos Alunos de Pós-Graduação em Estudos de Literatura*, apertei e podei compromissos para encaixar no meu horário ao menos um dos encantadores temas desenvolvidos no ainda mais charmoso 12º andar do Leme – com vista livre para toda zona sul.

A voz levemente rouca do Prof. Dr. Roberto Corrêa dos Santos (UFRJ) floriu a minha sexta-feira, na conferência Construir a perfeição: a contingência, o propósito, a obra. As colocações do professor foram guiadas pelo livro de Merleau-Ponty A Dúvida de Cèzanne (1984) que, de uma forma abstrata, fala sobre a construção da perfeição.

Cèzanne buscou o irretocável em cada uma de suas obras. Para qualquer objeto que pintasse precisava rascunhar ao menos 150 poses. Dias e dias meditando eram necessários durante o processo de criação.

Roberto Corrêa define a obra como o resultado de uma guerra, a união do propósito e da luta contra a contingência. Guerra, neste caso, não a das armas ou da vingança; e sim aquela que se impõem à vida e nos traz mais astúcia. Uma batalha com fins vingativos, e não de vingança. Ressalta: “Dar a outra face é diferente de dar à outra face”.

O postulado da guerra virtuosa é o da busca à perfeição, naturalmente utópica e indefinível. O conceito de perfeição é, entretanto, individual e encaixa-se singularmente na lógica interna de cada sujeito ou obra. Deve por isto ser batalhada no isolamento, ponto enfático na vida do sociofóbico Cèzanne.

A busca da perfeição deve ser erótica e tornar-se motor do fazer. O perfeccionismo, por sua vez, é o estopim do medo paralisante e contamina a criação. É a infecção do fazer. O medo que não imobiliza é, como a dor do parto, necessário; e introduz-se na plasticidade de seus postulados.


CONSTRUÇÃO DA OBRA
Surto e Cálculo

- Na construção de uma obra é importante não temer o medo, mas incorpora-lo;

- A obra deve ter impressa em si, além de sua história, um sentimento de “coisa” nascente. Coisa no sentido de forças ascendentes ainda não organizadas ou aglomeradas. Potencia esta que podemos sentir na presença de bebes, por exemplo, que são a energia expelida e ainda não contém o condicionamento de lógicas externas inculcadas no seu ser;

- A obra deve despertar o maior número de sentidos possíveis. O tato (áspera, aveludada, dura); o paladar (amarga, azeda, doce); a visão (fosca, brilhante, turva); a audição (gritante, ritmada) e – o mais difícil – o olfato (que raro e genial sentirmos o fedor ou o perfume de uma obra!);

- Para cheirar, a obra deve recuar para aquém do humano, para o estado magnífico da indefinição. Qualquer aproximação com a humanidade implica em cooptar com seus acordos, o que a confere um caráter medíocre. A inculca uma tendência ao lugar-comum;

-A obra deve ser desesperada, por sua infinitude, por sua inconclusão (como os trabalhos de Da Vinci);

-Para que se realize a obra, nada do que constitui a vida deve ser descartado. Deve estar nela, como a tinta no quadro;

-A vida não constrói a obra. A obra exige vida.


* A Jornada ocorreu entre os dias 26 a 29 de outubro e foi organizada pelos alunos de Pós-Graduação do Departamento de Letras da PUC-Rio

Links:
-Sobre Paul Cézzane: http://www.vidaslusofonas.pt/paul_cezanne.htm
-Quadros de Paul Cézzane: http://www.ocaiw.com/catalog/index.php?lang=pt&catalog=pitt&author=296

sábado, outubro 30, 2004

Não te Preocupa

Meu amor,

JULIA NEMIROVSKY

Escrevo para te tranqüilizar. A situação é realmente difícil. Não posso negar que o clima está propenso à falsidade e ao distanciamento. Ando triste e cansada de assim estar. Exausta, sinto-me atrasada. Uh, lá, lá, je suis en rétard! Retardatária. Enquanto uma parte se eleva, outra permanece fincada no solo. Otária.

Procuro, tateio muros enlamaçados. Com as pontas dos dedos cato uma fresta por onde possa cavar e assim mais rapidamente escapar deste labirinto em trevas. O musgo acaricia vertiginosamente minha pele. O ar chumbado, cada vez mais rarefeito, penetra lentamente em meus pulmões.

Busco o que não quero alcançar. Busco o que me prende no passado e por isso revivo certos momentos. Admito que não sei se há saída por aqui. Que o pára-quedas vai abrir, nada assegura. Nem mesmo estou segura de que existe este tal de apara-quedas. Mas, com o corpo voando desengonçado, desde o momento que do precipício decidi me atirar, procuro resistir ao vento ácido e manter meus olhos atentos.

Também não sei se consigo. Dói, que estranho. Dor que não cura com saída, que não cura com comida, não cura com bebida. Dor que dura, que dura dor. Será que tem cura? Devo acreditar, senão porque luto? Se não, somente o luto.

Ando, corro. Loucamente. Louca mente. Mente louca. Mente insana. Não, não mente, não engana. Fala, fala, faladeira. Será, das soluções, a derradeira? Falo, falo e o que digo? Dê-me ao menos uma pista verdadeira. Falo do falo, do falo falo. O que quer dizer então? O que quero dizer então? E o que não quero dizer? Então o que não quero dizer fala loucamente na minha mente insana. E, entretanto, reluto.

O pranto estraçalha a dor. Dos cacos, uma parte é amor. Do mais puro, do mais transparente, do mais valioso.
Especulo, sem dúvida. Mas se não assim, como então? Como, como, como? Adeus a angustia da gula, a Deus a sapiência da cura. E até a dura cura, paciência.

Portanto, meu amor, não te preocupa. Como podes ver, estou melhor que nunca.

Com Deus,
Clarice Kiehne

terça-feira, outubro 26, 2004

Gotas poéticas e Plíneo Marcos

Filha de Eduardos
JULIA NEMIROVSKY

Sou filha
de eduardos
que com suas mãos de tesoura
hão de cortar meu alado

Sou arbusto
daqueles plantados
que viram tudo, menos planta
de tanto ser moldado

Mas se pela forma
te deixas enganar
Em um pássaro de galhos
Asas falsas não fazem voar

As lâminas moldam
frenéticas
a impureza do original
encaixam-me no imaginário
dos que ainda crêem em bem e mal

Canção de Ninar
JULIA NEMIROVSKY

Era erva
das daninhas. Danada
que do ninho
não quer nada
nem o ninar

Nunca noivou,
já nasceu desnorteada
E nas noites de neblina
com negrotes navegava

Namorava o norte
tal nômade nudista
Narcísea e de
nula sorte

Casou-se, por fim,
mas com a morte


Confesso que nada sei/ Ao meu grande amor

JULIA NEMIROVSKY

Se viemos do barro
ou de obscura magia
sobre isto saibo pouco
ainda menos que outrora sabia

Se meu Deus esconde algo
sua razões há de ter
pois de beijar a tez da verdade
pai zeloso tentará proteger

O que é entretanto
revela-se provocante
justamente no abandono
encontraremo-nos

Nos teus olhos me vejo
e confesso – trêmula – para ti
se nem ao menos me conheço
por não me explicar-te só posso sentir

O Ator
Plínio Marcos

Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.

Mas o ator tem que se conscientizar de que é um Cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e, sobretudo um transbordamento e amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de suas personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidades padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo, afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a sensibilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor.

Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter - não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir de todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza.

Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

Emoção da primeira vez...

Que não se limite aos pequenos dramas de minha vida este não-espaço.
E, para começar, uma tragédia carioca.

Antígona Carioca
JULIA NEMIROVSKY

Até então, o caderno de reclamações do condomínio limitava-se a alguns parágrafos sobre latidos ou ensaios estridentes de flauta. Faltavam algumas vagas de carro, vá lá, e o elevador vez ou outra enguiçava. Nada de anormal para um prédio de noventa apartamentos na Nossa Senhora. Porém, quando Sr.Rodolfo ganhou a eleição, olhos de ursos assumiram o aspecto incisivo e exigente de olhos de águias.

A primeira lista de reformas fora feita pelo próprio homem, ainda na campanha eleitoral. Pintura, flores e, naturalmente, mais e mais vagas de garagem para todos que assim desejassem. E para seus amigos, visitas, parentes e clientes. Foi esta certamente a principal razão da derrota do síndico tradicional. A medida, quando anunciada, fez crescer dos olhos da madame empoodlezada, idealizando cocktails, aos do aspirante a doutor, imaginando-se em seu primeiro automóvel.

A única que parecia não se encantar com o flerte traiçoeiro de Dr. Rodolfo era Cleonice, que nos seus vinte e seis anos já perdera todos os encantos de moça. Diziam tudo desta aí, menos ser criadora de tumulto. Alias, nenhuma das reclamações sonoras do caderninho se referiam à senhorita. Os vizinhos preferiam fazê-lo com dentes trincados ao pé do ouvido quando por ela passavam.

Não se queixava da mudança de gestão. Admitia repugnar as blusas por demais curtas do Sr.Rodolfo, sempre revelando a parte inferior de sua inocultável barriga peluda. Não agradava-lhe tão pouco o funesto cheiro de naftalina exalado pelo mesmo, que compelia a moça a treinar sua apnéia nas idas e vindas de elevador.

Sua vida era pacata como ela própria. Tinha pequeninos dentes que pareciam ainda ser da infância. Moradora de aluguel, passava os dias trabalhando e as noites cuidando de seu pai, já coxo e cego. Nos finais de semana, fazia a faxina e eventualmente saia para passear nas ruas e praças, empurrando seu genitor em uma cadeira de rodas emprestada. Nem mesmo ela, entretanto, com sua afiada sensibilidade, pressentira o tormento pelo qual os trezentos e setenta e dois moradores daquele prédio passariam nos próximos meses.

O estopim do desgosto geral foi o novo método adotado para a captação de recursos. Dr.Rodolfo era simplista, decidiu dobrar a taxa do condomínio. Tão logo anunciada a medida, olhos cresceram mais uma vez naquela saleta abafada do térreo. Na ocasião, entretanto, o motivo era outro. Um observador atento certamente notaria o dissipar dos sonhos nebulosos pouco antes dos condôminos, todos juntos, espatifarem-se novamente nas duras cadeiras de madeira mofada.

Contrariando a tendência, Cleonice não se conteve e em um suspiro encontrava-se de pé. Seus dentes de leite transfiguraram-se em dentes de lobo, seu corpo fervia. Corajosa, diriam alguns, mesmo sem ainda saber o quanto.

Nem todos os boatos espalhados sobre a moça eram mentira. Alguns traziam mais dor quando a ela chegavam, os verdadeiros especialmente. Sua mãe, era sabido, ganhou a vida nas ruas e morrera pouco antes do marido adoecer. Isto incendiava sua última chance de ter alguma voz naquela selva despótica.

Ouviam-se os gritos contidos de Cleonice suplicando para que o novo síndico visse a irracionalidade de seu ato. Os vizinhos, antes que pudessem assimilar integralmente o acontecimento, ainda desnorteados com a queda, encheram os diafragmas com autoridade de proprietários e arrastaram a moça de volta para sua insignificância de inquilina.

No caminho até a loja de departamento, aonde ia eventualmente mais a passeio do que às compras, a donzela tentava encontrar alguma forma de evitar o desastre. Cleonice buscava sem sucesso decifrar a lógica do universo no qual sentia-se despejada. Deveriam haver maneiras menos sofríveis para arrecadar dinheiro. Ia andando, se perguntando. Será que há? Indagava. Há de haver, repetia a si mesma. E em meio a um tufão mental, a pacata iconoclasta, como que por acaso, entreouviu a conversa de possíveis publicitários. Não saberia ao certo dizer o que espiara, mas na verdade pouco importa.

Importante mesmo foi que esta cena desencadeou um processo criativo nunca antes vivido por Cleonice. Tudo estava mais claro. Óbvio. Passaria o resto do dia a selecionar as sedutoras palavras que usaria para convencer seus vizinhos a assinarem um abaixo – assinado aprovando a instalação de um outdoor no prédio, perfeito para tal. Verbas, sussurraria ela de andar em andar.

No dia seguinte acordou animada, caprichou no rouge e usou a pasta de dentes de menta americana comprada na véspera. Registrou seu tratado na máquina herdada da mãe e dispôs uma lista de travessões horizontais no lado direito de mais duas páginas. Impaciente e excitada, pegou três canetas bic e foi de elevador até o quinze.

É verdade que se percorresse com este ânimo todos os corredores, o triunfo poderia, quem sabe, conquistar. Fatalmente, as vontades de Cleonice não coincidiam com o que o destino lhe havia reservado. E, tão logo soou a campainha do mil quinhentos e um, a moça deu-se conta de gafe. Já não conseguia distinguir se o tremor sentido nos pés vinha dela mesma ou dos passos pesados cada vez mais próximos. E os minutos gastos passando blush perderam totalmente o sentido quando o odor sufocante de naftalina sugou todo o viço que ressurgira naquela face.
Confessou ter pensado em fugir, mas não conseguira fazer suas pernas lhe obedecerem. No momento seguinte tombava o pescoço para trás e encarava uma vertiginosa figura grunhir “O que foi”. O pânico passou seco por sua garganta, caindo pesado no estômago e, no momento em que reunia forças para não desfalecer, conseguiu ainda soltar um humilde “Desculpe-me, doutor. Errei o andar”.

Após um breve repouso, Cleonice recomeçou a peregrinação. Seu aspecto, entretanto, não mais convenceria os vizinhos. Passadas algumas horas, só conseguira sete assinaturas, incluindo a dela. Envergonhada, a moça preferiu anexar a folha ao caderno de reclamações. Do que valeria se esconder depois de todo o ocorrido. Para ela muito importava a honra e, para esta, provavelmente o melhor era não desistir antes do fim.

Dois meses depois, Cleonice foi despejada e mudou para o Rio Comprido. O condomínio dobrou não só naquela gestão como nas duas outras reeleições. Três árvores caíram, abrindo espaço para cinco novas vagas, duas das quais foram reservadas para o filho e para a mulher de Dr. Rodolfo. Parentes estes que, em uma noite estrelada, saíram para comemorar a compra de um Honda Civic e morreram na Atlântica. Fora isso, nada mudou.