Batalha de Montijo, 26 de Maio de 1644 – o testemunho pela pena de um combatente (parte 4 e última)

Concluindo a narrativa de Mateus Rodrigues.

Mas não há dúvida que se a cavalaria do inimigo não foge, que se se há-de ver [ou seja, haveria de se ver] a nossa gente em grandes apertos, visto faltar a nossa, mas a sua não fugiu de fraqueza senão de arte, que assim que viu fugir a nossa imaginaram que lhe íamos a tomar o porto de Guadiana, que estava dali uma légua, e para isso quiseram eles também fazer por chegar diante ao porto, e essa foi a razão por que fugiram, e quando lá se viram no Guadiana, que nós não íamos nem aparecíamos, quiseram volver outra vez, mas já a sua infantaria ia posta em fugida e toda desbaratada, não tinham já ali que fazer senão dar-lhe calor a que não acabássemos de derrotar [a infantaria]. Assim como Matias de Albuquerque viu a cavalaria do inimigo, tratou de se ajuntar e formar para o que lhe sucedesse e não quis seguir mais o inimigo, senão a retirar-se e compor-se. E volvendo outra vez para onde se tinha começado a batalha, que estava lá a bagagem toda, mas tudo botado pelo campo, por se haverem morto muitas cavalgaduras que as levavam e bois das carretas, que pela lista das cavalgaduras que iam e bois das carretas, avaliaram a perda para haver de pagar a seus donos em 50 mil cruzados só de cavalgaduras, pão, pólvora e bala e morrão e outras coisas mais. Vinha já anoitecendo, não quis Matias fazer ali mais detença senão pôr-se em marcha, deixando uma légua de terra toda coalhada de gente morta, assim nossa como da do inimigo, que bem se soube a perda que daí a dois dias foram enterrar, assim da nossa parte como da sua, que para isso se fizeram tréguas por três dias para enterrar aquela gente, que lançando-lhe contas acharam enterrar perto de 5 mil homens, afora a muita gente que morreu pelos hospitais e quartéis, entrando muita gente de qualidade, assim mestres de campo como sargentos-mores e capitães. E não se livrou a cavalaria de sua perda, suposto que logo se soube que faltaram da cavalaria bons 500 homens, que suposto que ela fugiu foi já com pura pancada, que a do inimigo a botou fora do posto. E também ainda lá ficou no exército 200 cavalos até o cabo [ou seja, até ao fim]. Mas se me perguntarem pela verdade, direi que foi uma das maiores fraquezas que em nossas guerras houve. Mas não que fosse causada pelos soldados, que por eles nunca se perdem as ocasiões, que para isso levam o seu capitão diante e um tenente atrás e um alferes na vanguarda e quatro cabos de esquadra e um furriel, que parece razão que onde vão oito oficiais que não podem os soldados fugir das companhias. Mas a verdade é que algum desconcerto que na cavalaria há acontecido, que não são poucos, e bem claramente se sabe por culpa dos oficiais há sido, e mais pela maior parte por causa dos oficiais maiores.

Finalmente, assim como Matias [de Albuquerque] se pôs em marcha na via de Campo Maior viu o inimigo, que logo se tornou a juntar e veio com a cavalaria nas suas costas tocando-lhe arma, em que lhe dava muito cuidado, por vir a gente toda destroçada da batalha e muitas carretas carregadas de mortos e feridos e não se podia ajuntar a gente para se formarem. Contudo a necessidade os obrigava, pois viam outra vez o inimigo nas suas costas, formaram-se o melhor que puderam e vieram marchando. E assim como Matias de Albuquerque se quis abalar com a gente, mandou um aviso pela posta a Campo Maior ao nosso general da cavalaria [D. Francisco de Melo, o Monteiro-Mor], que estava lá com a maior parte dela, viesse logo esperar a gente no caminho aonde quer que a encontrasse, com a cavalaria com que se achasse. Assim como o general viu o aviso, que lho levou o meu furriel, que era então Diogo Rodrigues Tourinho, que havia ficado com o exército, como era homem prático naquela campanha mandou-o Matias com o aviso. E logo o general se pôs a caminho com a cavalaria que com ele estava, o qual general levou tão grandes vaios e apupados [apupos] de infantes, que nem a um negro se diziam tais coisas, e [a] todos os soldados de cavalo, dizendo que foram uns fracos fujões, que os desampararam em a ocasião, e nós com tal coisa não lhe respondíamos, pois não tínhamos razão de falar. E não bastou ali, senão nas praças onde nos viam era pior, mas foi o caso tal que se veio a cavalaria a enfadar de maneira que matavam neles como bichos, porque a infantaria nunca faltava senão muitos juntos, porque bem sabiam que lhe havíamos de ir ao encontro. E chegou a coisa a estado que mandou Matias de Albuquerque botar um bando, com penas de trato a braço solto, que ninguém falasse naquilo. Aquietaram-se então os infantes, mas já lhe tinha custado a vida a mais de vinte por amor das tolices.

Eis aqui relatado a batalha, que falta que terá é não ir relatada miudamente, mas não tinha memória para que me lembrassem tantas miudezas. Foi dada esta batalha em o mês de Maio, que sucedeu então naquele ano ser o Corpo de Deus em o dito mês, no qual dia foi dada esta batalha, das horas do meio-dia por diante até à tarde que se acabou. Não se pôde averiguar quem tivera mais perda, mas a verdade é que mais tivemos nós, porquanto a gente era dobrada e onde há pouco se pode perder muito, mas ficou a vitória por nós, visto ficarmos senhores da campanha e o inimigo se retirar posto em fugida e assim está averiguado.

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, pp. 71-74.

Imagem: Infantaria (piqueiros e mosqueteiros) em posição de defesa contra cavalaria. Pormenor de uma pintura de Pieter Post (1608-1669).

A batalha de Montijo, 26 de Maio de 1644 – o testemunho pela pena de um combatente (parte 3)

Continuando a narrativa de Mateus Rodrigues.

Vinha ali o nosso comissário da cavalaria [Gaspar Pinto Pestana], que no que tocava a entender a guerra ninguém melhor que ele, que assim como viu a forma do inimigo e assim que viu a nossa, que nós não vínhamos em batalha, senão em marcha, vendo aquele desamparo se foi ter com Matias [de Albuquerque], dizendo-lhe que mandasse pôr a gente em forma de batalha, porquanto vinha o inimigo com esta determinação. E que se Sua Excelência não visse que ele saía verdadeiro [ou seja: que dizia a verdade], o tivesse pelo mais inútil homem que havia na guerra. Mas o bom do Matias nunca tal lhe pareceu, em razão do pouco poder que trazia, e assim respondeu ao comissário que ele lhe havia de dar os melhores dos cavalos da sua estrebaria se ele falasse verdade, mas a fé que mais certo foi o que o comissário disse, do que dar-lhe os cavalos ao comissário, antes ao despois lhe pagou com fazer queixa a El-Rei que ele fugira com a cavalaria. Mas deu-lhe ele tão boa prova do que lhe havia dito, que lhe não fizeram nada, que não há dúvida que não teve culpa, pois vinha com a cavalaria o nosso general [Francisco de Melo, o Monteiro Mor] e ele já era oficial menor [ou seja, era um simples subordinado] e ali não tinha senão ir com o seu general, que mais culpa lhe tocava [que] para o comissário. Mas como ele era tão grande soldado, por isso lhe davam alguma.

De maneira que o inimigo se vinha arrimando a nós tanto que nos obrigou a fazermos alto, mas na mesma forma em que marchávamos, de modo que vinha um grosso de cavalaria nosso na vanguarda, coisa de 600 cavalos, e quando nós fizemos alto assim nós ficámos daquela maneira e a demais vinha toda em a retaguarda. Assim como o inimigo chegou a tiro de peça fez alto e começa a jogar com duas peças, e viu ele tempo de tirar mais que dois tiros cada peça, e esses foram no direito da retaguarda do corno direito, aonde estava este grosso da cavalaria, que aí estava a minha companhia. E vendo nós muito bem pôr o inimigo a pontaria das peças no direito de nós, dissemos todos connosco “são estas peças” e assim como as dispararam deram por um lado dos cavalos e fizeram breve estrago, assim em cavalos como soldados. E nós a tudo isto muito quietos e calados, esperando aquela brusigiada [termo que significaria saraivada], e assim como o inimigo viu que as nossas peças lhe faziam grande dano, pois que logo começaram a jogar e eram muitas, que eram 8 de 24 libras, e não lhe estando a conto estar daquela maneira, se vem a nós com brava resolução, botando na vanguarda 600 couraças [couraceiros, ou caballos corazas, cavalaria pesada com armadura mais completa do que a portuguesa, que era ligeira] que podiam romper os diabos. E assim arrimando-se a nós, ao corno direito, aonde estava o terço de Martim Ferreira da Câmara, que era terço bisonho e novo, e assim como averbou com aquele grosso de cavalaria nossa, assim a botou fora à espada com grande confusão de pancadas, mas a verdade é que lhe deixámos nós o posto depressa, porque o cabo que ali estava com aquela cavalaria logo despejou o posto, e assim entraram as couraças pelo terço novo sem contradição alguma, fazendo tudo num trapo. E a outra cavalaria do inimigo que vinha no corno esquerdo investiu com a nossa, de tal sorte que a fez safar mais do que de passo, e assim foi a fugida, de maneira que houve gente que não se deu por segura senão em Estremoz, que eram 12 léguas dali.

De modo que o inimigo cerrou com o nosso poder com toda a resolução, não pondo por diante inconvenientes nenhuns e de tal sorte que na primeira tenção nos teve a artilharia tomada, que a pudera cravar, mas não o quis fazer senão atirar-nos com ela. Mas foi Deus servido que assim como o inimigo se viu sem a sua cavalaria, pois havia fugido em o mesmo tempo que a nossa, pôs-se em fugida depois de estar já tudo baralhado com a nossa infantaria, que assim como viram que o inimigo se punha em fugida, começam a cobrar ânimo e a dar sobre ele, assim com cargas de mosquetaria como com as peças, que logo as tornaram a tomar. E assim que na retirada é que lhe fizeram algum dano, porque se ia o inimigo retirando em batalhões e as peças lhe faziam tal obra que abriam neles ruas de duas picas de largura, e foram sobre ele coisa de meia légua, com grandes alaridos e vivas, e a tudo isto Matias de Albuquerque com grande ânimo a cavalo, dando alento à sua gente, e também Dom João da Costa com grande valor e já ferido com uma grande cutilada na cabeça, mas fazendo como dele se esperava, porque assim era necessário em tão grande aperto como era aquele.

(continua)

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, pp. 68-71.

Imagem: Batalha de Montijo, in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII. O rigor da disposição das tropas pode ser questionável, mas trata-se, acima de tudo, de um extraordinário exemplar de representação de batalha.

Batalha de Montijo, 26 de Maio de 1644 – o testemunho pela pena de um combatente (parte 2)

Prosseguimos com a narrativa de Mateus Rodrigues.

Estava também junto dele outro lugar muito bom, por nome La Puebla, que como viu Montijo rendido nem armas tomou para pelejar, senão logo se entregou também. Lugar muito rico e farto, porque tinham estes lugares os melhores campos à roda que há em toda Castela, assim de pão como de gados. Finalmente feita esta diligência com grandíssimos gastos e farturas que os soldados tinham destes dois lugares, nos estivemos ali cinco dias, como vem a ser donde o domingo até a quinta-feira, que tal foi ela que não esquecerá enquanto o mundo durar, pois foi o que nunca foi. Todos estes dias que ali estivemos depois dos tais lugares tomados, disseram foi detença escusada por não termos ali que fazer senão voltar para casa. E assim que todos os oficiais maiores que tinham liberdade para falar com Matias [de Albuquerque] estas coisas lhe perguntavam que detença era aquela, porque não iam para casa. Respondia-lhe[s] Matias “Vossas Mercês imaginam que eu vim senão ver se o inimigo me saía para pelejar com ele, e se não sair farei minha obrigação em lhe dar tempo que se junte e nós iremos para casa. E assim que me não hei-de abalar daqui senão dia do Corpo de Deus”. Finalmente que todos aqueles dias que ali estivemos nunca mais tivemos descanso, porquanto a cavalaria do inimigo sempre esteve na campanha esperando que se juntasse o seu poder e estava uma légua de nós, mas como era campo tão raso e nós tínhamos muitas sentinelas de cavalo ao largo, e fazia grande luar e assim como era noite, vinha uma partida do inimigo de 20 ou 30 cavalos com 500 ou 600 cavalos por detrás, e assim como chegavam às nossas sentinelas as corriam bem até onde estava o corpo da guarda da cavalaria, que entravam todas as noites 6 companhias da guarda de cavalo ao largo do exército um bom tiro de mosquete [cerca de 150 metros]. E dali lançavam sentinelas daí meia légua boa, e assim como o inimigo nos corria as sentinelas, elas vinham fugindo e tocando arma avisava[m] o cabo que estava com as companhias do governador. E havia tão grandes confusões em o exército, que toda a noite estava com as armas nas mãos e a cavalaria montada a cavalo. E todas as noites que ali estivemos, que foram 5, todos estivemos com este trabalho, que na verdade não foi pequeno para nós.

Amanheceu a quinta feira, começámos a abalarmos do quartel para nos virmos para casa, mas assim como nos fomos abalando, quando se vem chegando um grosso de cavalaria do inimigo, que seriam 600 cavalos, e tão só se arrimaram a nós que houve uma mui travada escaramuça e com muitas mortes, assim nossos como seus, de maneira que apertámos com eles de tal sorte que os obrigámos a que se retirassem. E sabendo o fim a que se chegaram tanto aqueles castelhanos sem terem favor de mais cavalaria, soubemos de alguns castelhanos que na escaramuça se tomaram que ali vinha o Barão de Molighem [Ghislain de Bryas – Mateus Rodrigues escreveu erroneamente “Barão de Beringel”], que era seu mestre de campo general, que vinha somente a reconhecer o poder que nós tínhamos, que como o seu governador, o Marquês de Torrecusa lhe tinha ordenado que havia de ter batalha, quis ele afirmar-se do poder que nós tínhamos. E assim se arrimou daquela maneira e vendo o nosso poder, foi admirado de ver que lhe mandavam dar batalha e que não via nenhum remédio senão perder-se, pois não tinha com que resistir a tanto poder, pois que não tinha mais que cinco mil homens, onde não entravam mais que 3.000 infantes e 1.500 cavalos. E assim que avisando pela posta a Badajoz ao Marquês de Torrecusa, que visse Sua Excelência que totalmente era querer perder-se, pois via a muita desigualdade que havia de sua parte, que visse bem o que havia de fazer. Mandou o Torrecusa que a Cristo que ele que não pelejasse, que o havia de enforcar, e assim que tratasse de dar a batalha, mas que lho levasse todo o diabo e assim que não lhe enviasse mais avisos, que não os havia de ouvir. Ficou o mestre de campo general atónito com tal aviso, porém já era força dar cumprimento à sua ordem e assim que, vendo-nos ele já postos em marcha, se veio abalando do seu quartel, que estava uma grande légua de nós. E como aquilo é campo raso se viu o inimigo belamente, mas ainda muito ao largo de nós, mas já formado e em forma de batalha, que vinha numa meia lua, que na vista parecia mais gente que nós, que trazia grande frente e pouco corpo. Contudo assim nos determinávamo-nos nós [ou seja: se nos tivéssemos determinado] a dar batalha como ele que outro galo nos cantara, mas a confiança de Matias nos botou a perder, que nunca jamais lhe pôde persuadir que o inimigo havia de pelejar connosco.

(continua)

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, pp. 65-68.

Imagem: Matias de Albuquerque, Conde de Alegrete (1595-1647); óleo de Feliciano de Almeida pintado c. 1673-75, provavelmente a partir de uma gravura. Galeria dos Ofícios, Florença.

Batalha de Montijo, 26 de Maio de 1644 – o testemunho pela pena de um combatente (parte 1)

Há alguns anos foram aqui publicados artigos sobre a batalha de Montijo, evocando o acontecimento. Um deles, de 2013, fazia a ligação para um interessante estudo de Carlos Ziller Camenietzki, Daniel Magalhães Porto Saraiva e Pedro Paulo de Figueiredo Silva, publicado na revista Topoi, vol. 13, nº 24, Janeiro-Junho 2012, acerca de uma outra faceta da batalha de Montijo, a publicística do século XVII. Ambos os lados reclamaram a vitória num confronto que, sendo o de maior envergadura até então travado, não foi minimamente decisivo. A reacção de Matias de Albuquerque salvou o dia para as armas portuguesas, ao reagrupar a infantaria e conduzir um contra-ataque que desbaratou as unidades inimigas dispersas já pelo campo e embrenhadas no saqueio. Portugueses e espanhóis reclamaram vitória, fazendo divulgar por toda a Europa narrativas (as “relações”) em que fundamentavam a sorte das armas com o momento da fuga do exército inimigo.

Conforme tive ocasião de demonstrar em livros e artigos, o manancial de legislação produzido após a batalha, nomeadamente quanto à reformação da cavalaria, substituição de comandantes e introdução a curto prazo de cavalaria pesada (cavalos couraças, ou couraceiros), é elucidativo do quanto o Conselho de Guerra percebeu acerca das limitações da cavalaria portuguesa (incluindo nesta as unidades mercenárias francesas e holandesas) numa batalha campal. Mas até hoje não tinha divulgado a visão do combatente, o soldado Mateus Rodrigues, que tomou parte na batalha e que deixou nas suas memórias uma impressão muito diferente da prosa laudatória coeva que tratou de prolongar no tempo, entre papel e tinta, a batalha de Montijo. É essa memória que principio a publicar aqui.

Da batalha de Montijo, dada em o mês de Maio, dia de Corpo de Cristo de 1644.

[…] As coisas estavam quase preparadas debaixo de todo o segredo, e assim como foi tempo trataram de vir ajuntando todas as carruagens de carretas das comarcas e todas as cavalgaduras, que todos os corregedores das comarcas as trouxeram a Elvas. De sorte que, como esteve tudo junto e muito bem negociado, saiu Matias de Albuquerque com o poder todo junto, que em Campo Maior se acabou de ajuntar com a gente que na praça havia, que com ela fazia número de 8 mil infantes e muito bons, e 2.000 cavalos, também ia cavalaria. Era ainda general dela Francisco de Melo, o Monteiro-Mor, e general da artilharia Dom João da Costa. Levava este poder mantimentos para três meses pelo que podia suceder, assim biscoito como pão e munições, porque iam só de carretas 800 e todos iam carregados com mantimentos e de cevada para a cavalaria e 1.500 cavalgaduras também todas carregadas, que todas as bagagens faziam mais vulto que toda a gente de guerra.

Finalmente que pusemos a cara em Albuquerque em primeiro lugar, mas assim como chegámos ao pé dele não houve já ninguém que não ficasse assombrado de ver tal fortaleza de castelo. Que não era necessário estar lá gente nenhuma para o defender mais que mulheres para nos consumirem, porque coisa tão inexpugnável não pode haver no mundo, que se não for com sítios de fomes ou sedes bem se podem os portugueses desimaginar quanto vem por força de armas, porque além de não ter bateria, e ainda que a tivera, não tem artilharia que fazer com ele, em razão que um rochedo vivo e mui altíssimo e só de uma banda é que tem algum furo para a artilharia, mas não coisa que lhe faça dano, que das outras partes são penha como as de Nazaré, aonde o Senhor fez milagre em o cavaleiro. E assim vendo Matias isto ficou frio, contudo não deixou de lhe fazer algumas diligências para levar a artilharia a um outeiro, que não havia outro, mas todos lhe disseram que nem 1.000 gastadores a haviam lá de levar em um mês. E assim desenganado com isto, ao cabo de dois dias que ali estivemos nos fomos marchando pela terra dentro, com a cara em Montijo, mas de caminho arrasámos um lugar que tinha pouca defesa, que era Almazanete, e nem foi necessário ir lá a infantaria, se a cavalaria que ia de vanguarda só bastou para que o lugar logo se lhe entregou. E despojado lhe puseram o fogo, que era pequeno, que não teria 200 vizinhos. Feita esta diligência dormimos ali ao pé de uma ribeira e ao outro dia nos pusemos em marcha, que tínhamos ainda o Montijo 4 léguas. E não chegámos a Montijo senão ao outro dia pelas 6 ou 7 horas do dia em um domingo de Maio, e na mesma semana foi o Corpo de Deus em o dia da batalha.

Assim como chegámos ao redor de Montijo havia tão formosos trigos nos campos que ia a nossa cavalaria formada em batalhões e não podia romper por dentro deles, de tão fortes. Assim como chegámos começaram logo de ir acomodando a gente pelas hortas e pomares que ali havia, que eram muitos e bons, com suas noras dentro, de boa água e boas hortaliças e frutos. E a cavalaria também cada qual com o seu quartel, todos com boa ordem e disposição, e como esteve tudo bem acomodado e tudo quieto, trataram logo de ir investir com o lugar que estava muito bem aparelhado, mas valeram-lhe pouco seus aparelhos, porque ainda lhe fizeram bastantes diligências não tiveram outro remédio senão renderem-se. Este foi o lugar que botou de si tanta fazenda e boa que era um assombro, e ele em si mui bem, que tinha mais de 800 vizinhos e tudo tão assentado como uma mesa, com grndes e muito poços dentro e boa casaria, finalmente bom lugar, tinha dentro 200 homens de guerra afora a gente da vila.

(continua)

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, pp. 63-65.

Imagem: Pormenor do mapa de João Teixeira Albernoz, c. 1650, onde é reconhecível o lugar mencionado por Mateus Rodrigues – Almazanete. BN, Iconografia, CC254a.

Feliciano Gomes – o irmão do memorialista Mateus Rodrigues (Matheus Roiz)

Muitos artigos têm sido baseados nas memórias do soldado de cavalaria Mateus Rodrigues. Em alguns deles, de passagem, tem sido referido Feliciano Gomes, o seu irmão, que com ele se alistou em 1641, na companhia formada – ou levantada, segundo o termo coevo – nas comarcas de Coimbra e Esgueira por D. João de Azevedo e Ataíde.  Por exemplo, num dos episódios já aqui mencionados, a propósito da eficácia protectora dos coletes e casacas de couro (as couras), Rodrigues refere que um tiro de pistola  disparado à queima-roupa sobre o seu irmão quando ele era já alferes não lhe causou qualquer ferimento, limitando-se a queimar o couro e o gibão no local do impacto. Cabe hoje tratar um pouco mais deste militar que, ao contrário do irmão memorialista, singrou na carreira das armas, tendo terminado a guerra como capitão de cavalos.

Feliciano Gomes era um ano mais novo que Mateus Rodrigues. Nasceu no início de 1618, tendo sido baptizado no dia 14 de Janeiro, de acordo com os registos paroquiais de Águeda, investigados pelo coronel Belisário Pimenta em meados do século XX. Embora Mateus Rodrigues se tivesse tornado um soldado muito experiente ao longo do conflito, sendo frequentemente escolhido como batedor ou para integrar destacamentos destinados a missões mais perigosas, não logrou sequer ser promovido a cabo de esquadra (comandante de um grupo de 10 a 12 soldados). Pelo contrário, o irmão foi promovido ao posto de furriel em 1648, já depois de D. João de Ataíde ter deixado a companhia. O furriel desempenhava uma importante função, a de auxiliar o comandante da companhia na parte administrativa da unidade (na verdade, em muitos casos recaía sobre ele a totalidade do aspecto burocrático), pelo que o militar devia saber ler e escrever. Em Julho de 1651 era alferes da companhia, agora comandada pelo capitão Francisco Pacheco Mascarenhas, de quem o general André de Albuquerque Ribafria era grande amigo. Quando Mateus Rodrigues regressou a Águeda pela primeira vez, Feliciano Gomes era tenente da sua companhia. Posteriormente foi promovido a capitão, chegando a comandar a companhia do capitão-general do exército, o Marquês de Marialva, a partir de 1665. Casou na cidade de Elvas com uma senhora de uma família abastada, pois no dizer de Mateus Rodrigues, através do casamento alcançou um património de 6.000 cruzados (2.400.000 réis) de fazenda de raiz, “fora muito boas peças de casa, que foi muito boa fortuna achar tal casamento”.

Mas nem tudo correu sempre de feição a Feliciano Gomes. Já na parte final do conflito, em 1666, uma incursão para pilhagem de gado comandada pelo então general da artilharia João da Silva de Sousa redundou num desastre militar, perdendo-se 350 homens e respectivas montadas, já perto de Campo Maior. O Conde de Schomberg, governador das armas do Alentejo, mandou fazer uma devassa (abrir um inquérito) para apurar responsabilidades. João da Silva de Sousa foi absolvido, o mesmo acabando por suceder ao capitão Feliciano Gomes. Apesar disso, este oficial esteve em risco de ser condenado à pena capital – que acabou por ser aplicada apenas a alguns soldados. O Conselho de Guerra, em consulta de 2 de Dezembro de 1666, pronunciou-se sobre este caso:

Vendo-se neste Conselho (como Vossa Majestade foi servido ordenar) a carta inclusa do auditor geral do Exército de Alemtejo, e a cópia da sentença que se deu contra os culpados no sucesso que teve João da Silva de Sousa nos campos da praça de Campo Maior.

Parece que esta sentença teve alguma disparidade, porque vêm sentenciados alguns soldados em pena capital e os capitães absolutos [absolvidos] dela, sendo nestes maior a obrigação. E consta da mesma sentença que o capitão Feliciano Gomes faltou totalmente à ordem que se lhe deu para avançar com o seu esquadrão, o que não fez, e estas causas servem de grande reparo: sorteando-se os soldados para pena capital, não se atendendo ao capitão, em quem conhecidamente se acha culpa, pois os soldados não deviam avançar não o querendo fazer o seu capitão; mas como a sentença está dada, não se oferece ao Conselho em que possa interpor seu parecer. Lisboa, 2 de Dezembro de 1666.

 Depois de enviuvar e antes de tomar o hábito no convento de Santo António, Mateus Rodrigues (que tinha casado em Águeda, em 1655) viveu algum tempo em Aveiro, em casa de um sobrinho, provavelmente um filho de Feliciano Gomes. Só não há certeza absoluta de que este fosse descendente do oficial, porque existem registos de baptismo de três raparigas em 1615, 1620 e 1623, cujo pai era um Manuel Gomes (o nome do pai de Mateus e Feliciano). Todavia, de acordo com a pesquisa de Belisário Pimenta, que auxiliou Faria de Morais no traçar das raízes de Mateus Rodrigues, havia um outro Manuel Gomes em Águeda e os registos não referem o nome da mãe das raparigas, ao contrário do que sucede nos registos dos dois futuros militares, onde surge o nome da progenitora: Catarina Rodrigues.

Fontes:

ANTT, CG, Decretos, 1666, mç. 25, n.º 33.

Manuscrito de Matheus Roiz, p. 412.

MORAIS, Alberto Faria de, “O Manuscrito de Matheus Roiz”, in Boletim do Arquivo Histórico Militar, nº XXII, Lisboa, 1952, pp. 5-119.

Imagem: “Combate de cavalaria”, escola holandesa do século XVII.

 

Uma incursão comandada pelo Conde de Schomberg em Setembro de 1665

Uma carta enviada pelo Conde de Schomberg ao Conselho de Guerra dá conta de um combate em Setembro de 1665, na sequência de uma incursão nas imediações de Badajoz que o próprio comandou. Se no primeiro ano  de contacto com a realidade do exército português, nomeadamente na província do Alentejo e em particular no que tocava ao estado da cavalaria, o Conde de Schomberg se mostrara crítico das excessivas incursões de pilhagem, quatro anos volvidos ele próprio se rendera à evidência da inevitabilidade das entradas de pilhagem como meio de sustentar o exército provincial.

Nota: é interessante constatar a utilização do termo “esquadrões” por parte de Schomberg, para se referir às formações tácticas da cavalaria, que eram designadas na época, em rigor, por “batalhões”, sendo o termo “esquadrão” reservado para a disposição táctica de uma formação de infantaria. A transição do termo para a cavalaria começava assim a surgir.

Por alguns avisos que tive de muitos práticos de Campo Maior, como também pelos que recebi de um confidente [ou seja, espião] de que havia dado conta ao Marquês de Marialva, que quase todos os dias corriam comboios de Talavera a Badajoz, e que por lhe faltar a palha naquela praça traziam pastando as mulas do trem longe de Guadiana, me pareceu escrever ao governador de Campo Maior, se mandasse certificar destas notícias, e o mesmo oficial que foi a esta diligência me veio assegurar delas, e de haver uma grandíssima quantidade de gados até Talavera. E desejando empreender alguma coisa importante e obrigar com isto o inimigo sair com sua cavalaria de Badajoz para a derrotar, comuniquei este negócio com o general João da silva de Sousa por ser prático no país, e me resolvi a empreendê-lo. Estando para o executar chegou dessa Corte o mestre de campo general Dinis de Melo de Castro, com quem também o conferi, e lhe pareceu fizéssemos logo a jornada, pelo que ordenei se juntasse toda a cavalaria que assiste nos quartéis de Vila Viçosa, Estremoz, Borba, Alandroal, o troço do comissário geral Pedro Furtado de Mendonça e a que está em Elvas e Campo Maior. Incorporando-nos todos junto àquela praça o dia de oito do corrente, com uma hora de noite, de onde marchámos, e antes de amanhecer o dia seguinte ordenámos que o comissário geral Dom Manuel Lobo, com trezentos cavalos, se pusesse sobre a estrada de Talavera, com ordem que o mesmo tempo que visse avançar ao comissário geral Bernardo de Faria com 400 cavalos que levava aos olivais de Badajoz a pegar no gado, fosse ele arrebanhando todo o que houvesse da parte de Talavera, e nós com o resto da cavalaria que ficámos emboscados, sairíamos a dar-lhe calor ao Porto das Pistolas (nome que lhe deram os soldados pelas que se tomaram no mesmo lugar no comboio que haverá três anos derrotei). Pela manhã se aprisionaram duas vigias do inimigo, que as tem por todo Xévora acima, de maneira que como até às dez horas do dia não saía nada de Badajoz, contra o costume ordinário, suspeitámos de que lhe deram aviso da nossa entrada, como assim foi verdade, pois soubemos depois havia mandado quinhentos cavalos para a parte de Montijo em caso que fossemos para ela. e ainda que Dom Manuel Lobo me deu parte que na estrada de Talavera donde estava andava algum gado, consultámos esta novidade, e a todos pareceu não ser conveniente pegar na presa quando dela não havia de resultar a ocasião que buscávamos de pelejar com o inimigo. Caiu na nossa emboscada um religioso de São Gabriel que nos disse vira passar o troço de Ardila pra aquela praça com quatro dias de mantimento, e que se falava juntarem três mil cavalos para alguma entrada. Viram-se também algumas fumaças em Elvas, que pareciam de artilharia e havia mandado disparar o governador, mas como não se ouviam os ecos, não se pôde averiguar a certeza. Por todas estas circunstâncias julgámos não se podia conseguir coisa alguma, pelo que nos devíamos retirar. E chegando já a Xévora tivemos aviso por uma partida que havíamos mandado ao Cabeço de Alivão [?], de se haverem descoberto alguns esquadrões do inimigo, mas não se certificava do número. Viemos passando o rio em direitura àquele sítio, todos os cabos com determinação de pelejar sem nenhum embaraço, mas ainda assim não deixei de ficar com algum cuidado pelas notícias que havíamos alcançado da junta que o inimigo fazia, e seria factível querer-nos cortar o passo, pois o governador desta praça me disse depois haviam vindo a ela vinte e três batalhões. Contudo formou-se a nossa cavalaria em duas linhas, que poderia consistir em mil e quinhentos cavalos, a qual foi dispondo o mestre de campo general com toda a bizarria, marchando na primeira linha dela, acompanhado dos sargentos-mores de batalha Diogo Gomes de Figueiredo, Jacques de Balandrié [francês], do general da artilharia Dom Pedro Opecinga [napolitano], os comissários gerais João do Crato de Fonseca e Bernardo de Faria nos seus postos, e comigo o mestre de campo Pedro César de Meneses, o coronel Briquimont, o Conde de Rosain [ambos franceses], os tenentes de mestre de campo general Manuel de Sequeira, Pedro Craveiro, Domingos de Matos e António Francisco Marques com os ajudantes de tenente [de mestre de campo general] e ajudantes generais dos franceses e ingleses, dois capitães franceses e outros oficiais. Entregou-se a segunda linha com a terceira, de que se fez um corpo de reserva, ao general João da Silva de Sousa, a quem assistiam os comissários gerais Bartolomeu de Barros [Caminha], António Coelho de Goes, Pedro Furtado e Dom Manuel Lobo. Os tenentes Baltasar Fernandes e Pedro Dias, que havíamos mandado diante por serem bons práticos e se houveram muito bem, nos avisaram que o inimigo marchava para nós trazendo alguma infantaria, e começavam já a pelejar com ele sem que nos fosse possível julgar nada do seu poder e disposição pelso matos no-lo impedirem, ainda que nos achávamos mais perto. Neste instante nos aprisionaram um paisano de Campo Maior que os acompanhava, o qual lhe referiu nos achávamos com mais de dois mil cavalos e todos os cabos da província, com que se foram retirando. Ao general da cavalaria pareceu mandar em seu alcance quatro esquadrões com o comissário geral João do Crato, os da guarda do Marquês de Marialva e da minha, governados pelos capitães Feliciano Gomes [irmão do memorialista Mateus Rodrigues] e Molhin, mas como o terreno era muito embaraçado e cheio de mato para conservar as tropas em boa forma, não foi possível marcharem as linhas mais depressa que a trote. Não se podia ver as nossas tropas que pelejavam mais que pelos tiros, e saindo um pouco fora dos matos descobrimos alguns doze esquadrões grandes do inimigo, e alguma infantaria que haviam voltado sobre os nossos, mas vendo que chegava o nosso resto se pôs em fugida apressadamente. E mandando ordem às nossas tropas que se adiantaram se misturassem com eles até Badajoz, lhe fomos dando calor, com as nossas linhas na melhor forma que foi possível, acudindo todos os oficiais com grande zelo e ânimo de pelejar, obrigando a largar a sua infantaria que constava de seiscentos infantes governados por um mestre de campo, e dez capitães a quem presidia o sargento-mor de batalha Dom Guilherme Cascar. Desta maneira se foi retirando até Casa d’El-Rei, debaixo da artilharia do forte de São Cristóvão. Governava a sua cavalaria o Príncipe de Parma, que havia saído a mesma noite antecedente com mil e quinhentos cavalos a levar o gado desta praça de Elvas e mais lugares vizinhos, donde não obraram mais que aprisionar duas sentinelas nossas, de quem entenderam que a acavalaria da guarniçãose achava fora. Avisaram logo com toda a brevidade a Badajoz e tornaram a passar Caia, seguindo a sua marcha direito a Xévora em nossa busca, e no caminho receberam a infantaria que traziam saindo com ela de Badajoz, e com uma tropa de cavalos mais Dom Diego Caballero, e depois disso o Marquês de Caracena (que do alto de Santa Engrácia esteve vendo a tragédia) [NOTA: repetindo a postura que mantivera, três meses antes, durante a batalha de Montes Claros, dessa feita colocado na serra da Vigaira] com oitocentos infantes e duas peças de artilharia, com que se retirou à atalaia da sua infantaria. Alguns trezentos soldados se tomaram, mantando-se uns e ferindo-se outros, e o resto deles ficaram prisioneiros, em que entrou um sargento-mor com alguns capitães, e como a sua retirada não foi mais de uma légua, se tomaram alguns setenta cavalos, de que ao certo se não sabe o número porque os soldados costumam escondê-los nestas ocasiões. Da nossa parte ficaram uns poucos soldados feridos e mortos, e um tenente ferido. Da parte do inimigo até agora não pudemos alcançar a mais perda que teve.

O valor, zelo e disposição com que procederam todos os cabos merece que Vossa Majestade lho mande agradecer muito, para que assim procurem adquirir as armas de Vossa Majestade tão bons sucessos. E eu espero que a este se sigam outros muitos, devidos à boa fortuna e justiça delas. […]

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1665, mç. 27, carta anexa à consulta de 10 de Setembro de 1665.

Imagem: Joseph Parrocel (1646-1704), “Cena de combate de cavalaria”.

Uma desavença entre oficiais superiores na província da Beira, 1648

Parrocel, Joseph; A Fight for a Bridge; Wisbech & Fenland Museum; http://www.artuk.org/artworks/a-fight-for-a-bridge-49503

Uma extensa consulta de Janeiro de 1649 versava uma questão de certa gravidade, surgida entre o comissário geral Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha e o mestre de campo João Fialho, que governava o partido de Castelo Branco na ausência de D. Sancho Manuel.

Tudo começou por causa da deserção para Espanha de dois soldados da companhia do comissário geral, que estava aquartelada em Idanha. O comissário geral enviou um furriel com 20 cavaleiros para que capturassem os desertores, bem como a uma “língua” (um civil para ser interrogado), e que fizessem todo o dano que pudessem do outro lado da fronteira. Mas fez tudo isto sem dar conta ao mestre de campo João Fialho. Os soldados enviados em perseguição regressaram sem os dois desertores, mas com 38 bois, algumas cavalgaduras, outros despojos e a língua que se lhes ordenou. O mestre de campo acabou por ter notícia do sucedido, e porque Bartolomeu de Vasconcelos não lhe dera aviso das deserções e enviara aquela força de cavalaria sem sua autorização, tratou de repreendê-lo. Primeiro, exigiu que o furriel fosse conduzido à sua presença para ser castigado, se a incursão fora feita apenas por sua iniciativa; mas que, se obedecera a ordens de Bartolomeu de Vasconcelos, então que haveria de meter o comissário geral num castelo sob prisão e dar parte ao Rei.

Bartolomeu de Vasconcelos escreveu então ao Rei (a partir de Idanha, em 31 de Dezembro de 1648), expondo as suas razões e queixando-se de, em vez de ter recebido aplausos pela sua iniciativa, ter só recebido repreensões da parte de João Fialho. Que não poderia ter dado previamente conta ao mestre de campo, pois para o fazer, enviando um militar a Penamacor, que dista 5 léguas de Idanha, quando recebesse resposta já estariam os dois soldados em Madrid, quanto mais na raia. E que, enquanto lhe cabia o governo de Idanha, onde estava aquartelado, podia mandar tomar línguas e procurar saber as intenções do inimigo por sua iniciativa. Acrescentava que, nas partes em que dizia ter militado, nunca ter visto um comissário geral obedecer a um mestre de campo, como ele o fazia a João Fialho. E justificava a sua posição, dizendo que fazem o mesmo António Soares da Costa (o “Machuca”), sargento-mor em Salvaterra do Extremo, e em Segura o capitão de cavalos auxiliar João Cordeiro, e todas as mais pessoas de postos inferiores ao de comissário geral.

E assim dizia, com ironia, que se poderia ver, pelos exemplos apontados, o bem que falava João Fialho na culpa que lhe impusera e que o tinha deixado mortificado. E, numa farpa final, acrescentava que o que João Fialho fizera era mais resultado da inveja do que do conhecimento do pouco que obra, “como o dizem os soldados daquela Província”.

Pedia também para ser transferido para o Alentejo, onde poderia mostrar o seu valor, pois na Beira não havia mais do que três companhias de cavalaria, que qualquer capitão poderia governar.

O Conselho de Guerra considerou que Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha não tinha excedido as suas obrigações, nem faltado em nada, exaltando até as suas qualidades. E sobre João Fialho, que apesar de ser soldado de valor e muito zeloso do serviço de Vossa Majestade, não tinha qualidades para se lhe entregar o governo do partido durante a ausência de D. Sancho Manuel. Apoiou também a pretensão do comissário geral passar a servir no Alentejo. Propôs uma reestruturação da cavalaria na Beira, que passaria pela não existência de comissário geral no partido governado por D. Rodrigo de Castro, por não haver aí tanta cavalaria, e que as companhias aí poderiam ser governadas por D. Francisco Naper, que é o capitão mais antigo, passando o comissário geral Rosier para o partido de Castelo Branco.

O decreto régio de 28 de Janeiro de 1649 aceita a reestruturação proposta e manda regressar D. Sancho Manuel ao seu partido.

 Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1649, mç. 9, cx. 49, consulta de 23 de Janeiro de 1649.

Imagem: Joseph Parrocel (1646-1704), “Combate por uma ponte”.

Incursão nocturna do tenente-general da cavalaria Achim de Tamericurt a Talavera – Janeiro de 1653

Mais um episódio das memórias de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), este passado no início de 1653 e aqui transcrito directamente da fonte.

Em este tempo estava o general da cavalaria [André de Albuquerque Ribafria] doente. E como o tenente-general dela [o francês Achim de Tamericurt] desejava fazer jornadas para efeito de se avaliar e acreditar [ou seja, para aumentar a sua reputação], além de que tinha também muitas vezes alguns proveitos, de que ele folgava muito, assim que como se viu com o general doente, ficando ele por cabo da cavalaria, quis ver se havia aonde pudesse levar a cavalaria, para que daí tirasse algum lucro ou pelejar com o inimigo. E assim lançando suas linhas, achou que Talavera, que trazia grandes quantidades de gados miúdos [ou seja, ovelhas e carneiros] e que dormiam todos à volta das muralhas da mesma vila, que como esta vila fica três léguas nas costas de Badajoz, e na estrada não se podia ir fazer esta jornada lá de dia, porque são campos como a palma da mão, e assim que sabia o tenente-general da cavalaria que lhe havia de trazer todo aquele gado pegando nele de noite, e mais que dava ocasião ao inimigo a que pudesse sair, a ver se lhe podia armar [uma emboscada] com que lhe fizesse dano.

Assim como o tenente-general esteve bem informado na matéria, foi a falar com o mestre de campo general Dom João da Costa, que governava as armas, e tais informações e razões lhe deu no caso, que o obrigou a que lhe dissesse que fosse fazer a tal jornada quando lhe parecesse. E assim que logo ali limitaram o dia e por isso avisaram a todas as tropas que haviam de juntar-se em Elvas, que daí havia de sair a cavalaria toda.

De modo que o mesmo dia que a cavalaria havia de sair de Elvas, mandaram logo pela manhã para Olivença 4 companhias de cavalo, para que o comissário [geral] Duquesne, que lá assistia, fosse com elas e com as oito mais que lá tinha aquela mesma noite a Talavera, a pegar em todo o gado que lá estivesse á roda das trincheiras da vila. Que como lá estavam seis tropas dentro, era necessário levar com que pelejar com elas quando fosse caso que elas saíssem fora da vila. E assim que em as 4 tropas que foram para Olivença foi a minha, e assim como chegámos à vila mal demos de comer aos cavalos e logo saímos para fora e nos pusemos em marcha com as doze tropas e o comissário por cabo delas. De modo que nos metemos por entre Albuhera e Badajoz e fomos marchando pelos campos de Talavera, que fazia tão grande frio que não havia quem o pudesse esperar de muita neve. De modo que, quando foi depois da meia-noite, já as partidas que mandaram diante estavam à roda da muralha tirando os gados à força de puro balázio que das trincheiras botava o inimigo, e a tudo isto estava o comissário com as tropas ao largo da vila, para se acaso o inimigo saísse com as suas de dentro. Assim como a nossa gente teve botado todo o gado fora, vieram-se correndo para onde estavam as tropas, e como o comissário viu que já ali estavam todas as partidas, mandou tanger o gado pelos campos abaixo, que fazia tão grande berradura que soava uma grande légua. De modo que quando o sol saiu já vínhamos junto de Albuhera, sem ainda a este tempo sabermos da mais cavalaria. Mas logo a poucos passos a vimos estar em um vale, que em a mesma noite que nós saímos de Olivença, essa mesma saiu o tenente-general com toda a mais de Elvas e se foi pôr ali, porquanto era sítio que, se o inimigo nos saísse, que havia de vir tornar àquele cortadouro. Mas assim como chegámos ao tenente-general, foi mandando todo o gado diante e logo foi atrás com toda a cavalaria formada, zombando do inimigo, pois 1.400 cavalos chegámos a Olivença sem o inimigo nunca aparecer, nem um cavalo. Entregou-se logo o gado ao almoxarife para que o vendesse, que constava de 9.000 ovelhas e carneiros, fora os que os soldados traziam à garupa dos cavalos, que poucos vinham sem eles. Mas com isso é que se ficam, que do monte nos não deram mais do que 200 [réis] cada um, que havia soldado que gastou dobrado só em vinho, mas deles não fazem caso.

Fonte: MMR, pgs. 326-328.

Imagem: Escaramuça de cavalaria, Guerra dos 30 Anos. Óleo de Sebastian Vrancx (1573-1647).

Retrato de D. João de Mascarenhas, 2.º Conde da Torre e 1.º Marquês de Fronteira

D. João de Mascarenhas, 2.º Conde da Torre e 1.º Marquês de Fronteira (1633-1681), pintura de Feliciano de Almeida, c.1673-75, presente na Galeria dos Ofícios, em Florença.

D. João de Mascarenhas fez representar diversos recontros da Guerra da Restauração numa série de painéis de azulejos no seu palácio de São Domingos de Benfica, naquela que ficou conhecida como a “Sala das Batalhas”.

Acerca da tomada de Olivença pelos espanhóis em 1657 – um artigo de Antonio José Rodríguez Hernández, nas III Jornadas de Historia Militar de Extremadura

Do estimado amigo Julián García Blanco, a quem renovo os meus agradecimentos, recebi as atas das III Jornadas de Historia Militar de Extremadura. Entre outros conteúdos de muito interesse, destaco um de particular relevo para o estudo do conflito ibérico seiscentista: “Recuperando la iniciativa: la campaña de 1657 sobre Portugal y la toma de Olivenza”, da autoria de Antonio José Rodríguez Hernández.

Fica aqui a ligação para a versão PDF das actas:

http://jhmex.es/wp-content/uploads/2025/10/JHMEX-no1.pdf

O interesante artigo tem início na página 245.

De mencionar também um outro artigo, da autoria de Julián García Blanco e Carlos de Andrés Carretero, sobre um período posterior ao tratado neste blog (a Guerra da Sucessão de Espanha, 1704-1712), mas que teve de igual modo como intervenientes os vizinhos ibéricos, e além do mais sobre um tema por vezes tratado aqui, o alojamento dos militares. O título: “Alojamientos de soldados durante la guerra de Sucesión”, na página 653.

Gravura: Planta de Olivença, c. de 1700; Biblioteca Nacional, Iconografia, CC29P. A legenda em francês refere que a tomada da vila pelo exército espanhol ocorreu em 1658, quando na verdade foi no ano anterior. Olivença seria devolvida à Coroa portuguesa em 1668, após a assinatura da paz.

Revisitando o “Biombo dos Viscondes de Fonte Arcada”

O biombo dos “Viscondes de Fonte Arcada” encontra-se exposto no Museu Nacional de Arte Antiga, sendo o primeiro de um par (o segundo, do qual existem registos fotográficos a preto e branco na secção de Iconografia da Biblioteca Nacional, não está exposto ao público). Apresenta alguns episódios da Guerra da Restauração (tomadas de Vila Nova d’El-Rei e de Alconchel e batalha de Montijo), uma em cada painel, encimadas por medalhões representando os reis da 1.ª dinastia. A legenda aponta para a elaboração do biombo em Macau, em 1708.

A peça em si é, numa primeira abordagem, intrigante. O 1.º Visconde de Fonte Arcada foi Pedro Jaques de Magalhães (1620?-1688), que se distinguiu como general e das armas de Trás-os-Montes durante a fase final da Guerra da Restauração; anteriormente já se tinha notabilizado no combate aos holandeses no Brasil e na reconquista de Luanda à Companhia das Índias Ocidentais; venceu a batalha de Castelo Rodrigo (1664) e foi feito Visconde em 1671 pelo regente D. Pedro, a quem tinha dado apoio na ocasião da deposição do seu irmão, D. Afonso VI. O 2.º Visconde de Fonte Arcada foi o seu terceiro filho, falecido em 1707, portanto um ano antes da data apontada como a da execução do biombo. O 5.º e último Visconde faleceu em 1880, sem descendência, pelo que o título se extinguiu.

Nenhum dos titulares, ao longo dos 209 anos do viscondado, se deslocou ao Oriente em viagem particular ou de incumbência diplomática. O que nos remete para a encomenda de uma peça decorativa – podendo ter sido feita em Macau ou em Lisboa, onde, segundo Vítor Serrão, trabalhavam “nos séculos XVII e XVIII, pintores de «cousas da China»” (SERRÃO, Vítor, “Entre a China e Portugal: temas e outros fenómenos de miscigenação artística, um programa necessário de estudos”, in Actas do Colóquio Património Cultural Chinês em Portugal, CCCM-FRESS-IHA/FLUL, 21-23 de Janeiro de 2013, pg. 29). No artigo, o mesmo autor refere que o gosto pelas pinturas chinesas em papel, bem como de outras formas de expressão de arte oriental, se encontrava bastante difundido em Portugal nos séculos XVII e XVIII. E acrescenta que “os raros exemplares de pintura sino-portuguesa que chegaram até nós não correspondem ao estilo de nenhuma escola chinesa conhecida”, deixando transparecer “as convenções do traço linear, complementadas pela técnica europeia do chiaroescuro para imprimir uma sugestão de volume às figuras e objectos” (idem, pg. 19). Isso é visível em alguns pormenores do biombo. De realçar que o autor das pinturas deve ter tido informações precisas acerca das formações militares, indumentária e equipamento utilizado durante a Guerra da Restauração, reproduzidas de uma maneira que contrasta com a interpretação mais “oriental” da geografia ou arquitectura, ainda que, no caso da infantaria, exista alguma liberdade artística no colorido das casacas.

Imagens: À excepção do retrato do 1.º Visconde de Fonte Arcada, Pedro Jaques de Magalhães, patente na Galeria dos Ofícios em Florença, todas as imagens apresentam pormenores do biombo dos Viscondes de Fonte Arcada, tendo sido captadas pelo autor do artigo no Museu Nacional de Arte Antiga.

Mercê feita a um veterano da Guerra da Restauração em 1668

Do estimado amigo Dr. António Martins Costa chegou-me este documento muitíssimo interessante. Trata-se de uma carta de mercê atribuída pelo Príncipe regente D. Pedro (futuro D. Pedro II) a um veterano da Guerra da Restauração, antepassado do Dr. António Martins Costa. O documento faz referência a uma série de importantes acções em que Jerónimo de Azevedo – o militar veterano – tomou parte, cobrindo os anos de 1641 a 1663. Aqui fica o texto do documento, vertido para português corrente e anotado.

Dom Pedro, et cetera. Faço saber aos que esta minha carta de padrão virem, que tendo respeito aos serviços de Jerónimo de Azevedo, filho de António Ferreira [1], natural de Montemor-o-Velho, feitos na província de Alentejo depois de vir da armada que o ano de 641 foi a Cádiz, até o ano de 663 em vários presídios da mesma província e campanhas se ofereceram aqueles anos; e no de 650, vindo a esta Corte em tempo que a armada do Parlamento estava sobre a barra [2], se embarcar de mar em fora por cabo de 50 mosqueteiros, e nos mais anos servir em praça de soldado, de cabo de esquadra, sargento, alferes e capitão de infantaria, achando-se na maior parte das ocasiões de guerra que houve, particularmente no que o exército de 643 obrou em algumas praças de Castela, o ano seguinte de 644 noutras mais, e na batalha de Montijo, de que saiu com 2 feridas penetrantes, de que no mesmo conflito coseu 3 com suas próprias mãos; o ano de 657 achando-se na campanha de Olivença, e na investida e assalto de Badajoz, depois de assistir na recuperação de Mourão, fazer o mesmo o ano de 658 de Badajoz nos aproches do forte de São Cristóvão e batalha do forte de São Miguel [3], sinalando-se em ambas as partes como também no rompimento das Linhas de Elvas o ano de 659, governando uma manga de soldados com tanto empenho que recebeu uma ferida mortal na testa [4], procedendo com igual valor, o ano de 661 no sitio de Juromenha, estando o inimigo aquartelado sobre aquela praça e ultimamente se achar nas batalhas do Degebe e do Cano [5], acompanhando a cavalaria com uma manga de mosqueteiros na primeira e nas mais, até se restaurar de todo Évora, em cujos ataques assistiu, sendo dos que mais se avantajaram. Em satisfação de tudo o que obrou houve fazer-lhe mercê de 80 cruzados [6] de tença em bens de ausentes e confiscados, de que se lhe farão 60 cruzados  efectivos para seu sobrinho António de Sá de Azevedo, filho de seu irmão António de Azevedo, sendo filho legitimo, os ter com o hábito de Cristo que lhe tenho mandado lançar, e porquanto o dito António de Sá de Azevedo mostrou por sentença dos juízo das justificações ser filho legítimo de António de Azevedo, irmão de Jerónimo de Azevedo conteúdo acima. Hei por bem fazer merce de lhe consignar os 60 cruzados neste declarados, cabendo e sem prejuízo de terceiro, nos almoxarifados ou casas dos direitos reais onde houver lugar. Pelo que mando aos vedores de minha Fazenda lhe façam assentar em qualquer almoxarifado ou casas dos direitos reais os ditos 60 cruzados e levar em adição cada ano, na folha de qualquer deles, para serem pagos ao mesmo António de Sá de Azevedo, para os ter com o habito de Cristo, cujo vencimento lhe começará a correr de 17 de Novembro do presente ano de 668, e por firmeza disso lhe mandei dar esta carta por mim assignada e selada com o selo pendente da da dita ordem, que será registada nos livros da fazenda dela e mercês que faço, e pagou 45 cruzados que devia dos 3 quartos desta mercê, que os recebeu o tesoureiro deles António do Couto Franco, e lhe foram carregados em livro de sua receita a folha 64 verso, como se viu por certidão em forma feito pelo escrivão de seu cargo, e por ambos assinado, que foi roto ao assinar desta, e não pagou o novo direito pelo não dever, como constou por certidão do escrivão dele. Dada em Lisboa aos 3 de Dezembro. Cristóvão Peixoto a fez, ano de 1668. Manuel Guedes a fiz escrever.

Notas:

[1] De acordo com o Dr. António Martins Costa, que investigou e tem em sua posse a cópia dos assentos de baptismo de Jerónimo de Azevedo, o pai deste combatente (António Ferreira, como é referido no documento) era natural de Maiorga, Alcobaça, proveniente de uma família plebeia. A mãe, Isabel de Azevedo, era natural de Montemor-o-Velho, filha de Fernão da Gama Lobo e de Violante de Andrade de Azevedo, da linhagem conimbricene dos Azevedo.

[2] Em 1650, na sequência dos eventos da Guerra Civil Inglesa que culminaram com a prisão e decapitação de Carlos I, uma armada inglesa Parlamentarista bloqueou Lisboa, onde desde Novembro de 1649 se encontrava refugiado, com uma pequena esquadra Realista, o sobrinho do monarca deposto, Príncipe Rupert do Reno. Na ocasião, a defesa de Lisboa foi reforçada com várias unidades de infantaria e cavalaria enviadas da província do Alentejo.

[3] Trata-se do desastroso cerco de Badajoz de 1658.

[4] Entenda-se: uma ferida muito grave.

[5] Trata-se do recontro do Degebe, ocorrido quando D. João de Áustria retirou de Évora com o grosso do exército invasor, e da batalha do Ameixial, também designada “do Cano”. Nesta última, as mangas de mosqueteiros que inicialmente estavam intercaladas com as unidades de cavalaria portuguesa sofreram pesadas baixas.

[6] Um cruzado equivalia a 400 réis.

Fonte: ANTT, Ordens Militares, Registo Geral de Mercês, Livro 7, fl. 250, de 3 de Dezembro de 1668.

Imagem: Lisboa nos finais do século XVII ou início do XVIII. BNL, Iconografia, E1314V.

O Combate de Arronches, 8 de Novembro de 1653 – um sobressalto na rotina militar da raia (artigo na Revista Portuguesa de História Militar)

Saiu neste primeiro dia de Julho o n.º 8 da Revista Portuguesa de História Militar, dedicado à Restauração. A revista é publicada online e a ligação é a seguinte:

https://www.defesa.gov.pt/pt/defesa/organizacao/comissoes/cphm/rphm/edicoes/ano5/n82025/Paginas/default.aspx

O artigo supramencionado, de minha autoria, pode ser acedido nesta ligação:

https://www.defesa.gov.pt/pt/defesa/organizacao/comissoes/cphm/rphm/edicoes/ano5/n82025/7/

Imagem: Combate de Arronches, pormenor do painel da “Sala das Batalhas” do Palácio dos Marqueses de Fronteira e Alorna. Foto de Augusto Salgado.

Recriação histórica na Fábrica da Pólvora de Barcarena – demonstrações de armas e combates do século XVII

Nos dias 31 de Maio e 1 de Junho, no âmbito do Mês dos Museus, decorreu na Fábrica da Pólvora de Barcarena uma série de actividades de recriação histórica. Com a participação do grupo “Companhia Livre”, tiveram lugar várias demonstrações de combates individuais com espada, exercícios com piqueiros e apresentação de armas de fogo do período, entre outras actividades, com a participação do público. Ficam aqui algumas imagens do evento.

Fotos: Jorge P. Freitas.

De novo o manuscrito anónimo inglês – unidades do exército do Alentejo guarnecendo praças-fortes e outras localidades em 1666

O manuscrito que aqui foi trazido em Fevereiro deste ano, caracterizando oficiais do exército português e mercenários estrangeiros, inclui uma listagem das unidades que guarneciam as praças-fortes e localidades menores da província do Alentejo e também de Valência de Alcântara, tomada pelos portugueses em 1664. Sendo o autor inglês, não distingue entre terços portugueses e regimentos estrangeiros, usando o segundo termo de uma forma universal. A descrição (traduzida) é a seguinte:

Mértola – defendida pelos seus habitantes.

Serpa – 1 Regimento de Infantaria e 5 Companhias de Cavalaria.

Moura – 1 Regimento de Infantaria e 8 Companhias de Cavalaria.

Santo Aleixo – pelos seus habitantes.

Mourão – 1 Regimento de Infantaria e 2 Companhias de Cavalaria.

Monsaraz – 2 Companhias de Infantaria e 2 Companhias de Cavalaria.

Alandroal – 1 Companhia de Infantaria e 1 Companhia de Cavalaria.

Terena – 1 Companhia de Infantaria e 1 Companhia de Cavalaria.

Vila Viçosa – 1 Regimento de Infantaria, 2 Companhias de Infantaria Inglesa e 10 Companhias de Cavalaria.

Borba – 4 Companhias de Infantaria e 2 Companhias de Cavalaria.

Estremoz – 3 Regimentos de Infantaria e 2 Companhias de Cavalaria.

Elvas – 2 Regimentos de Infantaria e 23 Companhias de Cavalaria.

Campo Maior – 2 Regimentos de Infantaria e 10 Companhias de Cavalaria.

Barbacena – 1 Companhia de Cavalaria e os seus habitantes.

Monforte – 2 Companhias de Infantaria e 3 Companhias de Cavalaria.

Arronches – 4 Companhias de Infantaria e 3 Companhias de Cavalaria.

Alegrete – 1 Companhia de Infantaria e 1 Companhia de Cavalaria.

Portalegre – 2 Regimentos de Infantaria e 9 Companhias de Cavalaria.

Crato – 2 Companhias de Cavalaria e os seus habitantes.

Marvão – 2 Companhias de Infantaria e 1 Companhia de Cavalaria.

Valência [de Alcântara] – 1 Regimento de Infantaria, 2 Comp Cav.

Castelo de Vide – 1 Regimento de Infantaria, 8 Comp Cav.

Montalvão – 1 Companhia de Cavalaria e os seus habitantes.

Fonte: The National Archives, State Papers, Portugal, SP89/7, “A Description of the military power of Portugal and the characters of the commanding officers”, anonymous, s. d. [1666], fls. 400-401.

Imagem: “O Duelo”, óleo de Simon Kick (1603-1652). Um acontecimento frequente, ainda que proibido, na vida militar em guarnição.

Petição e carreira militar do engenheiro Jean Doutel – 1657

João [Jean] Doutel, francês de nação, fez a Vossa Magestade por este Conselho uma petição em que refere que é filho do engenheiro e tenente de mestre de campo general do Exército de Alentejo Nicolau De Langres; que ele serve a Vossa Magestade há três anos, três meses e dezanove dias, como constou das fés de ofícios que apresentou, tendo um alvará de Sua Majestade [D. João IV], que Santa Glória Haja, em que lhe fez mercê de quarenta mil réis por ano, para que em vagando alguma praça de engenheiro em que estivesse a caber, o ocupassem nela. Do qual alvará ele suplicante não gozou, porquanto o seu serviço era de maior merecimento; o qual alvará apresentou. De soldado de cavalo serviu dois anos, dois meses e vinte e um dia[s], donde passou a ajudante das fortificações por uma patente do general da artilharia Francisco de Melo, que naquele tempo governava as armas, que [lhe] ofereceu. Serviu um ano e vinte e oito dias e actualmente está servindo. E consta achar-se na ocasião do rendimento do castelo de Oliva, em que fez tudo o que lhe foi ordenado pelo dito general da cavalaria [NOTA: era André de Albuquerque Ribafria, que comandou a operação apesar de estar ainda convalescente dos ferimentos recebidos no combate de Arronches]; e na da tomada dos Vales de Matamouros, assistindo sempre com grande valor e zelo do real serviço de Vossa Magestade, acudindo a todos os rebates e comboios e guardas que naquele tempo houve; e sendo soldado fez nestas ocasiões, além de sua obrigação, o ofício de engenheiro, assistindo a seu pai nas minas e fortificações em que foi necessário, guardando sempre todas as ordens que lhe foram dadas per seus maiores. Pede a Vossa Magestade que havendo respeito a este serviço que tem feito no decurso de três anos, três meses e dezanove dias, mande examinar na Arte de Engenheiro, e achando-o capaz para poder exercitar o dito cargo, lhe mande passar patente de capitão de infantaria, com o soldo de vinte e quatro mil réis, pagos todos os meses na primeira plana, e com o dito posto e soldo continuará sua assistência nas fortificações onde for mandado assistir.

Vendo-se esta petição em Conselho, se remeteu ao tenente general da Artilharia Rui Correia Lucas, para que com Luís Serrão [Pimentel] e João [Jean] Gilot examinassem o suplicante e informasse com seu parecer. Com que satisfez, dizendo que o suplicante tem bastante notícia, conforme a sua idade, do que toca a arte necessária para esta ciência. Não duvida que acompanhando seu pai e adquirindo dele experiência, se possa esperar muito bom engenheiro. É ainda moço, parece-lhe que se lhe poderia dar por ora a metade do soldo que se dá aos engenheiros de fortificações ordinários das outras províncias, e então segundo o que for crescendo, o irá Vossa Majestade mandando acrescentar. E com esta informação vieram duas certidões, uma de Luís Serrão [Pimentel] e outra de João [Jean] Gilot, que certificavam o referido.

O Conselho, vendo a petição de João [Jean] Doutel e a informação do tenente general da artilharia Rui Correia Lucas, que ficam referidas, é de parecer pelas mesmas razões que ele aponta, que Vossa Majestade deve dar por agora somente a este engenheiro dez mil réis de soldo por mês. Lisboa, 27 de Março de 657.    

Decreto régio de 5 de Abril:

Como parece. E este soldo se lhe pagará com obrigação de continuar com seu pai.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1657, mç. 17, cx. 67, consulta de 31 de Março de 1657.

Imagem: Nicolau de Langres, pai de Jean Doutel (provável auto-retrato). BNL, Cód. 7445.

Recondução de soldados desertores e penas dos que se ausentaram (1643)

Em 2010 foi publicado um artigo referente às reconduções efectuadas na comarca de Tomar em 1648. Regressando ao mesmo tema, mas recuando no tempo até 1643, apresenta-se aqui um alvará de 23 de Fevereiro de 1643 em que são indicadas as penas a aplicar aos refractários.

O alvará determinava a recondução de soldados ausentes e o levantamento de novas levas para perfazer um total de1.500 soldados: “porque o daquele mestre de campo André de Albuquerque, que actualmente assiste na dita fronteira de Alentejo, se levantou nas comarcas de Alenquer e Leiria”.

Os soldados ausentes deviam ser remetidos em tropas de 25 com seus cabos ao terço, até perfazer os 1.500 de que devia constar; e nessas mesmas comarcas se devia levantar outro terço de 1.500 homens. O Conde da Atouguia seria o responsável pela leva e recondução. 

Quanto aos que se ausentaram e não se apresentassem:

“(…) tenho tambem resoluto e hei por bem que o dito Conde faça lançar bandos em meu nome nos lugares das ditas comarcas, em que se declare que os soldados que se tiverem ausentado das companhias deste terço e não acudirem a ele, Conde, dentro de oito dias seguintes à publicacão do bando para os reconduzir ao terço na forma referida, incorrerão os soldados em pena de dois anos de galés para servirem ao remo. e os oficiais perdendo seus postos irão degradados por outros dois anos para o Brasil, e os que incorrerem na pena do dito bando os fará prender logo e remeter os soldados às galés e os oficiais para serem embarcados para o Brasil à ordem de António de Saldanha, do meu Conselho de Guerra (…)”.

Fonte: ANTT, CG, Secretaria de Guerra, Lv.º 5 (1642-45), fls. 55-56.

Imagem: Galé, século XVII. Navio de um a dois mastros, de velas redondas ou vela latina. Levava trinta remos e era utilizado como elemento de ligação, exploração, patrulhamento costeiro ou auxiliar de armadas. Fonte: https://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.com/search?q=gal%C3%A9+s%C3%A9culo+XVII

Um interessante manuscrito anónimo inglês de 1666

O documento que a seguir se transcreve parcialmente, traduzido do inglês original, é um manuscrito inglês de 1666, de autor anónimo, caracterizando oficiais generais e superiores do exército português e oficiais mercenários estrangeiros.

Capitão-general do Alentejo

O Marquês de Marialva é um homem muito afortunado e honesto, mas não há nele nada de general, em tempo de serviço aturado deixa tudo à discrição daqueles que sabem mais do que ele, e é tão sincero que o admite.

Dinis de Melo de Castro é ao mesmo tempo mestre de campo general e general da cavalaria, apto para qualquer um dos cargos mas não para desempenhar ambos, é um bom oficial de cavalaria, um homem subtil, ardiloso, que muito odeia os estrangeiros, cúpido, de poucos amigos, um servidor da Casa de Bragança, à qual deve o acrescento da sua fortuna.

João da Silva de Sousa, general da artilharia, grande em corpo, grande em espírito, grande nas cartas e nos dados, e se tão grande fosse em coragem daria um muito grande general, não lhe falta conduta nem experiência, mas não tem a bravura de pôr em execução o que o seu julgamento lhe apresenta como fazível.

Diogo Gomes de Figueiredo, sargento-mor de batalha e general da artilharia do Reino do Algarve, um homem bravo, determinado, forte, e que promete vir a ser um comandante muito bom, se um capricho animalesco para o qual parece inclinado o não impedir, mas ele é jovem, e a idade poderá corrigir a má inclinação.

Lourenço de Sousa de Meneses, sargento-mor de batalha e general da cavalaria do Algarve, Aposentador-Mor do Rei. Não posso dizer nada sobre ele porque ainda não serviu connosco; depois da campanha, ou de qualquer outra expedição, poderei dar-lhe uma caracterização dele, contaram-me que é um homem pleno de humor e que poderia ter entrado em Juromenha quando esta estava cercada pelos Espanhóis se a coragem não o tivesse abandonado, foi então capturado, e poderia ter escapado tal como os restantes, tem uma grande intriga com o Privado[1], e era para ter sido o nosso general da artilharia se o Rei não tivesse conferido [o posto] a João da Silva de Sousa.

Roque da Costa Barreto, sargento-mor de batalha, um fidalgo determinado e polido, e com o tempo poderá provar ser um bom comandante.

Jacques de Balandrié, sargento-mor de batalha, um fidalgo francês determinado, polido e de grande experiência, e capaz de comandar um exército, se um sério embaraço e teimosia em se agarrar ao que ele próprio planeia, o que por vezes não é capaz de dominar na sua paixão, não tivesse sido um impedimento para tal.

João da Silva, tenente-general da cavalaria e o melhor comandante de cavalaria em Portugal, grande amigo de estrangeiros (que é suposto ter sido a causa do seu infortúnio), está desgostado e pensa-se que não irá servir.

Luís da Costa, tenente-general da cavalaria, um fidalgo muito polido, mais apto para a toga do que para a espada.

De todos os comissários gerais não há nenhum que seja oficial determinado, servem na esperança de acrescentamento.

Dos mestres de campo de infantaria, alguns são bons e alguns são maus, e alguns não são uma coisa nem outra; da primeira espécie há poucos, da última muitíssimos.

Muitos dos majores[2] são bons e muito agressivos, e por conseguinte os tenentes de mestre de campo general que deles provêm são geralmente bons, no entanto já vi um capitão de cavalos que esteve preso por cobardia ter sido preferido para o cargo.

Beira

            O partido de Penamacor é comandado por Afonso Furtado de Mendonça, ele tem [sob o seu comando] mestre de campo general, general da artilharia, general, tenente-general, comissários gerais da cavalaria, mestres de campo, etc., como no Alentejo.

            Este fidalgo não goza de grande reputação, tem sido desafortunado na maioria dos seus desígnios, ainda assim é mantido [no cargo] por um forte apoio na Corte (…).

            O partido de Almeida tem aproximadamente os mesmos efectivos e oficiais que o de Penamacor.

            O governador das armas Pedro Jacques de Magalhães é um dos melhores e dos mais afortunados oficiais da sua nação em Portugal, é coxo e começa a envelhecer, o que eu creio ser a razão pela qual é cúpido, um grande pilhante, já o tenho ouvido dar ordem para juntar todos os caldeirões que os seus homens pudessem encontrar em toda a Galiza, e em breve [tinha] um grande número deles carregados na sua carriagem particular, a sua principal guarnição é Almeida, a do inimigo oposta à dele [é] Cidade Rodrigo.

Trás-os-Montes

            Esta província é comandada pelo Conde de São João, ele tem 5.000 infantes e 800 cavalos. Tidos como os melhores homens em Portugal, porque o seu general é realmente um dos melhores homens da sua nação, é um fidalgo de grandes pensamentos, polido, afável, determinado, muito devoto, e [seria] um muito completo fidalgo se pusesse de lado uma pequena arrogância, que as maneiras da sua nação e a sua grande ascendência (tudo isto dito sine macula) lhe incutiram. Não digo nada dos outros oficiais destas partes porque não os conheço, apenas o nosso tenente-general da cavalaria, um Pedro Jacques de Magalhães[3], que é culpado de vinte e quatro mortes (assassinatos), mas isso não é nada neste Reino.

(…)

Entre Douro e Minho

            Conde do Prado é governador das armas, bem mais apto para ser um criador de gado do que um general.

            O seu mestre de campo general é um antigo soldado dos Países Baixos, não tem nada em si, mas tem servido muitos anos[4].

            Pedro César [de Meneses] é general da cavalaria, um espadachim, mas de não muito boa conduta.

            O general da artilharia é um simples asno[5].

Estremadura

            O Marquês de Marialva é governador das armas.

            O Conde da Torre é mestre de campo general, um fidalgo galante, competente, mas não tão reputado como bravo na campanha contra os Castelhanos, como em casa com a espada e rodela, ou a fazer cabriolar Gomos contra um touro[6], ele é um cavaleiro muito bom.

            O general da cavalaria é Simão de Sousa de Vasconcelos, ele é merecedor do cargo porque é irmão do Conde de Castelo Melhor.

           O tenente-general da cavalaria, Luís Lobo, é muito apto para o cargo, tanto pela sua pessoa como pelo valor.

O Reino do Algarve

            O Reino não tem nada digno de nota excepto dois ou três pequenos portos, quantidade de figos e passas, é comandado por um capitão-general, o Conde de Avintes, eu não o conheço. O mestre de campo general é um italiano, João Vannicelli. Os generais da artilharia e da cavalaria são sargentos-mores de batalha no Alentejo.

Notas:

[1] O autor refere-se ao Escrivão da Puridade Luís de Vasconcelos e Sousa, 3.º Conde de Castelo Melhor.

[2] O autor refere-se aos sargentos-mores, posto que no exército inglês correspondia ao de major.

[3] A identificação do oficial está errada. Seria Domingos da Ponte Galego.

[4] Ao contrário do que a passagem possa fazer entender, não se trata de um militar holandês, mas sim de um oficial português que serviu nos Países Baixos espanhóis durante a monarquia dual. Trata-se de D. Francisco de Azevedo e Ataíde, sobrinho do antigo comissário geral do Alentejo e tratadista militar D. João de Azevedo e Ataíde.

[5] O “simples asno” seria António Soares da Costa, o Machuca.

[6] O termo “Gomos” pode designar o nome do cavalo favorito do conde. O autor do relatório sublinha assim a predilecção do fidalgo pela tourada a pé (com espada e rodela) e a cavalo.

Fonte: The National Archives, State Papers, Portugal, SP89/7, “A Description of the military power of Portugal and the characters of the commanding officers”, anonymous, s. d. [1666], fls. 344 v-347.

Imagem: Pedro Jacques de Magalhães (1600-1688), futuro Visconde de Fonte Arcada, referido no documento enquanto governador das armas do partido de Almeida (Beira). Óleo de Feliciano de Almeida, c. 1673-1675, na Galeria dos Ofícios em Florença.

Uma posição do Conselho de Guerra sobre deslocação de população na província do Alentejo (1662)

Corria o ano de 1662 e a província do Alentejo preparava-se para sofrer, pelo segundo ano consecutivo, a campanha vitoriosa do exército de Filipe IV, comandado pelo seu filho natural, D. João José de Áustria. Em 1661 tinham sido tomadas algumas localidades e o cortejo de pilhagens e saqueios não encontrara oposição por parte do exército provincial – o mesmo estava prestes a repetir-se no Verão desse ano, elevando para quase uma dezena as praças em poder dos espanhóis. Por seu lado, intrigas palacianas na corte de Lisboa desgostavam o Conde de Schomberg, levando-o a ponderar o regresso a França e a abandonar a tarefa de reorganização do exército português.

Perante um cenário nada animador e a falta de meios humanos, a Rainha Regente – provavelmente dando crédito a um aconselhamento privado – assinou um decreto que ordenava a prisão de quem se mudasse de uma comarca do Alentejo para outra, supostamente para evitar ser integrado nas unidades de infantaria e cavalaria da milícia de Auxiliares (cuja base de recrutamento era a comarca de residência dos indivíduos). No entanto, o Conselho de Guerra tomou uma atitude prudente, com consideração pelo factor humano, de forma a não causar maiores dissenções numa província a ferro e fogo:

“[…] Vendo o Conselho o decreto referido, lhe pareceu representar a Vossa Majestade que ele se não pode praticar sem algumas declarações, por haver muitos homens na província de Alentejo que nela perderam suas casas e fazendas, particularmente os de Arronches e Portalegre e doutros lugares, e os obriga a necessidade a buscarem seu remédio em outra parte, além do que há muitos que, morando em umas comarcas, se casam em outras, aonde têm suas fazendas ou as herdam de seus parentes mortos e as vão beneficiar; pelo que deve Vossa Majestade ser servido mandar declarar se se entende também o decreto com estes. E o que parece ao Conselho é que Vossa Majestade [mande] escrever ao capitão general das armas não consinta estas passagens, se não for examinando as causas que para elas há, e sendo justas lhes conceda as licenças.

Lisboa, 27 de março de 1662”.

A 12 de Abril, um decreto régio valida o parecer do Conselho de Guerra.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1662, mç. 22, cx. 81, consulta de 27 de Março de 1662.

Imagem: Carl Fabritius, A Sentinela, 1654.

1.º de Dezembro de 1640: o fim da Monarquia Dual e a Restauração da Independência de Portugal

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Olhando para além da guerra que resultou do 1.º de Dezembro de 1640 e que é a razão de ser deste blog, já lá vão quase 17 anos de publicações. Agradeço em particular ao estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral, que tem prestado preciosa colaboração neste espaço. A todos, um Bem Hajam. 

Apontamentos sobre a situação da cavalaria do exército da Província do Alentejo nos últimos meses da guerra

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Após a batalha de Montes Claros em 1665, o exército espanhol perdeu a iniciativa no conflito ibérico, devido à escassez de recursos materiais e financeiros. No entanto, a penúria de meios e alguns velhos hábitos continuaram a afectar o mais importante exército provincial português, o do Alentejo, impedindo uma exploração efectiva e plena daquela vitória.

Em 1666 o abade de Saint Romain foi enviado à corte portuguesa por Luís XIV, a fim de evitar um entendimento entre Portugal e Espanha. O prosseguimento da guerra era crucial para os interesses franceses, opostos aos do outro aliado de Portugal, a Inglaterra. Deste modo se entende a preocupação de Schomberg em 1667, entre outros aspectos, com a falta de preparação da cavalaria portuguesa para manter a capacidade operacional. Numa carta dirigida a Saint Romain, escrita em Estremoz em Janeiro de 1667, Schomberg expõe a situação da cavalaria portuguesa da província do Alentejo:

“[…] Enquanto se desculpam uns com os outros e o general da cavalaria e outros chefes vão embolsando os seus dinheiros, deixou-se instalar a miséria, a tal ponto que o general da cavalaria é forçado a avisar o Conde [ele próprio, Schomberg] que a cavalaria está na sua maior parte depauperada e morre cada vez mais, e o pouco que resta está sem armas e sem estojos de pistolas, e depois de se fazer examinar que armas tinham dezoito companhias na guarnição de Elvas, encontraram-se somente cem pares de pistolas em muito mau estado […], e não havia 1.500 cavalos capazes de percorrer quatro léguas”.

Já no final desse ano de 1667, tendo entretanto havido o golpe palaciano que depôs D. Afonso VI e afastou o seu escrivão da puridade e valido, o 3.º Conde de Castelo Melhor, e por conseguinte ficando aberto o caminho para a cessação das hostilidades com Espanha, a situação da cavalaria do Alentejo continuava a ser preocupante. No segundo exemplo que aqui se traz está presente a preocupação com a manutenção dos efectivos de algumas companhias, embora a presteza em resolver a situação possa ter sido motivada pelo facto de algumas delas serem unidades da guarda de oficiais generais. A carta régia para o general da cavalaria Dinis de Melo de Castro, datada de 19 de Dezembro (e da qual seguiu uma cópia para o Conde de Schomberg), refere o seguinte:

“[…] Vendo pela vossa carta o pouco número de cavalos com que se acham as quatros companhias dos tenentes-generais Diogo Luís Ribeiro, [e] Luís Lobo da Silva, e capitães Francisco Pereira Valdevesso [e] Francisco de Albuquerque, pelo que não são de serviço, fazendo a mesma despesa de mantimentos como se foram numerosas, razão por que devia ordenar se conservem no cômputo que se pratica ou se extingam, pois são inúteis na forma em que se acham. Pareceu dizer-vos que ao Senado da Câmara desta cidade ordeno, para logo partir para essa província todos os cavalos que cá ficaram das ditas companhias, e que não me fazendo assim se lhe dê baixa nos mantimentos. E por que é mais certo que se farão bons pela Contadoria Geral desse Exército, ordeno ao governador das armas dele [o Conde de Schomberg], que neste caso lhe mande dar baixa nos ditos mantimentos enquanto na reformação geral de que se fica tratando se não der outra forma”.

A carta é assinada pelo Infante regente D. Pedro, futuro D. Pedro II.

Fontes: Carta de Schomberg a Monsieur Saint Romain, in AIRES, Cristóvão (1902), Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas, vol. II, pgs. 107-108; ANTT, Conselho de Guerra, Livros de Registos, Lv.º 34.º (1667-1671), 1665, fls. 24 v e 25.

Imagem: Dinis de Melo de Castro (1624-1709), óleo de Feliciano de Almeida (pintura de 1673-75), Galeria dos Ofícios, Florença.

As agruras de um capitão da cavalaria de auxiliares em 1665

van der stoffe novaDiogo Martins do Amaral, um beirão natural de Souto que prestava serviço militar desde 1654, era capitão da cavalaria de auxiliares, tendo formado à sua custa uma companhia de 50 cavalos, com a qual servia desde 1661. Integrado nos reforços que anualmente o exército da província da Beira enviava a outros exércitos provinciais, servira em duas ocasiões no Alentejo e numa outra no Minho. Em Agosto de 1665 o Conselho de Guerra recebeu uma petição sua, na qual expunha as dificuldades por que passava.

Relatava Diogo do Amaral que, tendo sido capturado pelo inimigo após ter recebido três ferimentos, por via dos quais esteve em risco de vida, permaneceu 11 meses prisioneiro até ser transferido para Telena. Aqui foi posto a ferros por um período de 7 meses “pelos muitos danos que a sua companhia tinha feito ao inimigo”, tendo chegado a haver tentativas para o matar na prisão. Uma troca geral de prisioneiros trouxera-o de volta ao reino, encontrando-se numa situação de muita pobreza, pois o inimigo queimara as suas casas, perdendo tudo o que nelas tinha. E porque no decurso de 11 anos em que servia Sua Majestade, não tinha recebido mercê alguma, havendo-se achado em muitas ocasiões e recentemente na batalha de Montes Claros, pedia mercê que lhe fosse paga patente de capitão pago (ou seja, do exército profissional), ou em alternativa que lhe fosse permitido vender os cavalos da sua companhia.

Atestando os bons serviços do oficial, o governador das armas do partido de Riba Côa (um dos dois distritos militares em que encontrava dividida a província da Beira) Pedro Jacques de Magalhães confirmava o que era apresentado na petição. O capitão ocupava aquele posto havia 4 anos, levantara a companhia comprando a maior parte dos cavalos, tinha estado preso e os castelhanos lhe queriam tirar a vida pelo dano que lhes causou e que era merecedor do que pedia, dando como exemplos anteriores os dos capitães João Álvares Soveral, Manuel Tavares e António Delgado.

Ponderada a situação, o Conselho de Guerra deu parecer favorável e a petição recebeu a aprovação régia em 3 de Setembro de 1665.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1665, mç. 25, cx. 91, consulta de 29 de Agosto de 1665.

Imagem: Combate entre cavaleiros, pintura a óleo de Jan van der Stoffe (meados do séc. XVII).

A ocupação do cargo de capitão-mor na província do Alentejo, 1645-1646

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À semelhança do artigo do mês passado, apresento aqui o quadro dos capitães-mores da província do Alentejo em 1645-1646, baseado em dois documentos remetidos ao Conselho de Guerra em cada uma daquelas datas.

O quadro é apresentado em ficheiro PDF e pode ser descarregado aqui.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, maço 5, Rellação das praças da Raya, das Prouincias de Alentejo. Beira. Tras os Montes. Entre Douro e Mynho, e do Reyno do Algarue, e nomes dos Capitães mores dellas, e os que uencem soldo e uencem a sua custa, proveniente da Contadoria Geral; idem, 1646, mç. 6, n.º 303, Relação de todos os capitãos mores, e Sargentos mores que de presente ha nas praças destas fronteiras de Alentejo, pagas na forma da gente de guerra deste Exercito comseus assentos na lista da primeira plana da corte na man.ra Seguinte.

Imagem: Vila Viçosa: local onde existiu o forte de São Bento (na zona arborizada à esquerda, aqui vista a partir do perímetro muralhado), já em ruínas aquando do cerco que o Marquês de Caracena colocou à vila em Junho de 1665. Foto de JPF.

A ocupação do cargo de capitão-mor na província de Trás-os-Montes, 1645-1646

Montalegre

Em Julho de 2009 publiquei um artigo sobre o  cargo de capitão-mor, seguindo-se outros dois, em Janeiro de 2012, sobre a ocupação desse cargo nas províncias que eram fronteiras de guerra em 1645  – Alentejo e restantes. Em Setembro de 2023 foi a vez de apresentar a situação do Reino do Algarve em 1646.

Regressamos agora à província de Trás-os-Montes, a fim de compor um quadro mais completo para o período de 1645-1646. São incluídas informações adicionais constantes no documento apresentado no Conselho de Guerra em Junho de 1646. Note-se que neste período estava em curso uma reforma do aparelho militar, com a aprovação de variada legislação, tendo em vista melhorar a eficácia dos exércitos provinciais e reduzir as despesas com a sua manutenção.

O quadro é apresentado em ficheiro PDF e pode ser descarregado aqui.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, maço 5, Rellação das praças da Raya, das Prouincias de Alentejo. Beira. Tras os Montes. Entre Douro e Mynho, e do Reyno do Algarue, e nomes dos Capitães mores dellas, e os que uencem soldo e uencem a sua custa, proveniente da Contadoria Geral; idem, 1646, mç. 6, n.º 303.

Imagem: Castelo de Montalegre. Foto de JPF.

Charles de Lagrange Petitiére, ou as agruras e desmandos de um mercenário francês

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Passada a fase das operações ofensivas (1643-46) e instalada a guerra de desgaste nas diversas fronteiras do reino, a necessidade de militares estrangeiros diminuiu, embora fossem bem vindos todos os que tivessem experiência de guerra em postos de comando superior. O desembargador Cristóvão Soares de Abreu, residente na corte francesa, em correspondência enviada ao Conselho de Guerra propunha ocasionalmente vários nomes, por vezes indicados ou aprovados por personalidades como o Marechal de Turenne. Alguns desses nomes aliavam a linhagem familiar ao reconhecido bom desempenho em tempos de guerra. No entanto, chegados a Portugal, nem sempre as expectativas criadas pelos mercenários e pelo seu empregador – no caso, D. João IV – se concretizavam da melhor maneira para ambas as partes.

Charles de Lagrange Petitiére (referido frequentemente como “Carlos de Lagrange” nas fontes documentais) foi um desses oficiais mercenários. Desembarcado em Lisboa no início da década de 50, foi-lhe atribuído o comando de uma companhia de cavalaria no exército provincial de Trás-os-Montes. Não era uma fronteira particularmente movimentada em termos de operações de guerra – mesmo considerando a pequena guerra de depredação – e os efectivos provinciais também não eram muito numerosos (um total de 1.564 militares pagos em 1652, dos quais 286 eram de cavalaria). De carácter conflituoso e violento, cedo começaram os problemas do capitão francês com outros militares e com a população civil.

Um dos oficiais com quem Lagrange se incompatibilizou em Trás-os-Montes foi o holandês Rudolf van Estrenem. Chegado a Portugal em 1641 como tenente de dragões no regimento mercenário das Províncias Unidas, van Estrenem (referido pelo menos num documento oficial de 1647 como sendo “de nação alemã”) continuou a servir após a dissolução do regimento, tendo sido promovido a capitão de infantaria num terço português pelos seus bons serviços. Permaneceu no Alentejo até 1647, quando foi preso em Elvas por ter morto um outro militar estrangeiro e enviado para Lisboa. Condenado a degredo por dez anos para uma das partes de África, escreveu ao Conselho de Guerra rogando a comutação da pena. Os conselheiros solicitaram ao Rei que atendesse ao pedido, convindo muito que este experiente oficial, com provas dadas desde o início da guerra, fosse degredado para uma das províncias do reino e não para África. Apesar da resposta de D. João IV à consulta do Conselho de Guerra indiciar uma negativa (“Faça-se justiça, que ela é a que há-de defender, e não perdoar velhacarias”), o certo é que acabou por ser dado provimento ao pedido do condenado, que assim foi enviado para a província de Trás-os-Montes. Aí alcançou o posto de sargento-mor do terço pago.

No início de 1652 surgem as notícias acerca das desavenças do capitão Charles de Lagrange com o sargento-mor van Estrenem, de que resultou a prisão, em Março, do oficial francês. Numa carta enviada do seu cárcere em Bragança ao Príncipe D. Teodósio, Lagrange roga que possa ser enviado para Lisboa, de forma expor a sua defesa, mas a 30 de Março D. Teodósio escreve ao governador das armas de Trás-os-Montes, o Conde de Atouguia, ordenando que este faça seguir o processo pelos trâmites habituais.

Em Maio volta a enviar uma petição, desta vez ao Conselho de Guerra, pois encontrava-se há dois meses preso e sem vencimento de soldo. Solicita que seja pago o que lhe está em dívida de soldos atrasados, para com isso se poder sustentar. O Conselho considera justa a petição do capitão, por ser estrangeiro e não ter outro sustento, e que se não fosse assim pereceria na prisão. Recordam os conselheiros que os oficiais e cabos de guerra que estivessem presos por algumas culpas que se lhes imputassem não podiam vencer mais do que o soldo de soldado (meio tostão por dia), mas que Lagrange, por ser estrangeiro, não tinha como se sustentar de outro modo.

Lagrange acabaria por ser condenado a dois anos de suspensão do seu posto, acrescido de multa de 20.000 réis. Como era habitual nestes casos, apelou no sentido de obter o livramento da condenação, o que conseguiu em meados de 1653, já após o falecimento do sargento-mor van Estrenem. Em Julho obteve uma licença régia válida por 9 meses, após petição, para se deslocar a França, a fim de ir buscar a mulher e dois filhos e tratar dos seus negócios para que, mais abonado, pudesse voltar a servir D. João IV. Foram-lhe concedidas duas pagas (dois meses de vencimento como capitão) para ajudas de custo – mas o oficial continuava a queixar-se dos soldos em atraso e do muito que tinha gasto no processo de livramento.

Charles de Lagrange Petitiére cumpriu a palavra de regressar a Portugal, mas manteve a conduta quezilenta que lhe havia causado embaraços anteriormente. Deste modo, uma carta régia de 30 de Março de 1656 enviada ao governador das armas Joane Mendes de Vasconcelos refere que “tem entendido que o capitão de cavalos Carlos de Lagrange Petitiérre tem cometido muitos e graves excessos e demasias na província de Trás-os-Montes, e não bastando ser preso e condenado em degredo, comete maiores desordens, chegando a quebrar com o seu comissário geral por vezes e ficarem irreconciliáveis e o mesmo com os cabos, e porque destas desavenças pode resultar entre eles grandes danos, e perturbações muito contra o serviço de Deus e meu, hei por bem e vos mando despeçais dele o dito Carlos de Lagrange e me proponhais sujeitos para a sua companhia, na forma de minhas ordens”.

Assim terminou a carreira de Charles de Lagrange em Portugal, toda ela passada num teatro secundário de operações e recheada de problemas com a justiça.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1652, mç. 7, cx. 43, consulta de 6 de Novembro de 1647; idem, mç. 12, cx. 56, consulta de 8 de Maio de 1652; idem, 1653, mç. 13, cx. 58, consulta de 19 de Julho de 1653 e Decreto de 22 de Julho de 1653; Secretaria de Guerra, Livro de Registos, Lv.º 16, 1652-54, fl. 27 v, carta régia de 30 de Março de 1652; idem, Lv.º 19 (1654-57), folha 89 v, carta régia de 30 de Março de 1656.

Imagem: O descanso dos soldados (c. 1645-1650), de Jacob Duck (1600-1667).

Ainda a tentativa de tomada de Alconchel em Agosto de 1653 – dúvidas quanto à datação do evento

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Quando foi aqui publicada a primeira parte dos artigos sobre a tentativa de recuperação de Alconchel, prontamente o estimado amigo e investigador Juan Antonio Caro del Corral salientou a provável confusão feita pelo memorialista Mateus Rodrigues ao relatar o evento. De facto, apesar de ser muito provável que Mateus Rodrigues tenha juntado apontamentos sobre acontecimentos que testemunhou ou lhe contaram enquanto serviu na cavalaria do exército do Alentejo, o seu Memorial foi redigido já depois de ter deixado o serviço, apresentando lacunas e confusões (em meses e, por vezes, anos) aqui e ali. No que a este caso diz respeito, vou respigar o que foi escrito em comentários ao primeiro dos dois artigos (em Abril de 2024), trazendo-os para aqui e dando forma a este artigo.

Começo por apresentar o que Juan Antonio Caro del Corral apresentou no primeiro comentário:

Los relatos sobre acontecimientos de guerra del soldado Mateo Ruíz siempre son fuente de noticias de especial interés, porque se trata de las declaraciones de un testigo coetáneo, e incluso protagonista, de los hechos narrados. Desde esa visión personalísima nos aporta datos y curiosidades que normalmente son obviados en las cartas y documentos oficiales, más preocupados en describir de forma genérica el acontecimiento, sin entrar en pormenores.

Sin embargo, a pesar de esa viveza y detalle del relato, hay que tener en cuenta que Mateo redacta sus Memorias militares bastante tiempo después de que hubieran sucedido, cuando gozaba del descanso y licencia tras sus muchos años de servicio. Es por ese motivo que los recuerdos le juegan a veces malas pasadas. En su afán por dar a conocer todas sus aventuras, mezcla unos sucesos con otros, sin guardar orden cronológico. Nos los va contando a medida que le fluyen a la memoria, posiblemente porque ese post-recuerdo da prioridad a aquellos acontecimientos que, en su opinión, fueron más importantes, bien porque se significaron en relación al desarrollo general del conflicto, bien porque a Mateo le causaron una impresión mayor que otros de menor repercusión mediática.

Por otro lado, en ocasiones los relatos de Mateo no son recuerdos de sus vivencias personales, sino que se deben a lo que escucho decir y contar a otros militares; historias que, por el motivo que fuera, se hacían populares alcanzando enorme eco propagandístico. Por lo tanto cabe suponer que están sujetas a errores y añadidos, que se iban incorporando poco a poco, a medida que el relato ganaba fama y que con todo ello se pretendía dar ejemplo y motivación para el resto de tropa. En cierto modo era un ardid de los altos mandos para crear una atmósfera favorable a los intereses de Portugal y aglutinar el favor de toda la sociedad.

De lo anterior se entiende que Mateo confunda fechas, datando sucesos en épocas distintas a las que realmente sucedieron; aunque no sólo equivoca cronología, pues en su revoltijo de noticias también yerra al situar a ciertos personajes en sitios y momentos dónde, según la documentación de archivo que hemos tenido la oportunidad de consultar, no estuvieron.

Pues bien, el caso del intento para entregar el castillo y plaza de Alconchel al ejército castellano, gracias a la delación de un supuesto traidor, es uno de los ejemplos de confusión en los que el bueno de Mateo solía recaer de cuando en cuando.

Según nos indica, el suceso aconteció durante el verano de 1653. Primer error: en realidad, y siguiendo nuestra hipótesis, debemos situarlo varios años atrás, concretamente en 1647.

En aquella época gobernaba las armas castellanas el marqués de Molinghen, quién, como era habitual, disponía de toda una red de espías que le suministraban noticias sobre el estado y movimientos de las tropas lusitanas. Uno de los informantes era Manuel de Acuña, capitán de infantería que tenía a su cargo el gobierno de la guarnición estante en el castillo de Alconchel, plaza ganada por Portugal desde la campaña del año 1643. Segundo error de Mateo, quien nos sitúa a Manuel con la misma categoría militar, pero sirviendo en Elvas, añadiendo que la relación de este oficial con el presidió alconchelero se reducía a <<.. ele capitão viveu em o castelo de Alconchel alguns dois ou três anos…>>, es decir, que omite a Manuel como gobernador, situándolo simplemente como un soldado más de su guarnición. Tercera equivocación.

Continua manteniendo que Manuel informaba directamente de sus pesquisas a Molinghen. Cuarto yerro en sus recuerdos. En verdad Manuel tenía contactos, pero no en Badajoz, sino en una población cercana a Alconchel. Nos referimos a Barcarrota, defendida por el capitán Francisco Pérez, gobernador que había trabado amistad con Acuña, y fruto de la cual surgió la propuesta de rendición y entrega. Quinto error.

Insistimos en que todo esto ocurría realmente en 1647, y no en 1653, tal como nos dice Mateo.

Parece que Manuel no estaba plenamente satisfecho con su cargo de gobernador (ya desde el mismo estallido de la guerra en diciembre de 1640, había mostrado su descontento con la causa bragancista, si bien aceptó seguir sirviendo al nuevo monarca, pero guardando en secreto sus contactos castellanos), y aprovechando el contacto de Francisco, quiso pasar a Castilla con toda su familia, pues pensaba que ofreciendo la plaza obtendría el beneplácito castellano para admitirle, e incluso gozar de ciertas prebendas en recompensa. Según Mateo, Acuña directamente pretendía huir. Sexto error, pues ya sabemos que tenía un propósito: pasar a Castilla.

Molinghen, siendo informado de la propuesta de rendición, hizo convencer a Manuel para que continuará en su cargo, pues de esa manera podría ofrecerle información y llegado el momento de ejecutar el plan, resultaría mucho más sencillo culminarlo.

A partir de aquí es dónde se mezclan ambos relatos: el de documento de archivo, y el de los recuerdos de Mateo, generando dudas.

La historia que Mateo escucho sobre el trato que Manuel hizo con otro soldado portugués es a destacar. Este previamente había huído a Castilla tras cometer un crimen. Hay que suponer que ambos vivían en Badajoz, dónde se conocieron, y estaban pendientes de recibir la orden para guiar a los castellanos y conquistar Alconchel.

Pero los documentos no avalan este relato, pues lo que destacan es que Manuel no había pasado a Castilla, sino que continuo gobernando el castillo e informando en secreto para entregarlo a Molinghen. Parece que debió ser en ese interín de intercambio de datos y planificación cuando conoció al soldado huido, al cual convenció para unirse a citado plan.

Las idas y venidas, sumado a ciertos rumores, levantaron sospechas en los mandos portugueses, que pusieron en la diana a Manuel, haciéndolo preso en la cárcel de Elvas. Cabe imaginar que, quizás, fuera una delación del soldado amigo de Manuel, ya conocedor del intento, quién diera aviso del plan orquestado, o sea, que tal como nos cuenta Mateo, fuera entonces cuando decidió regresar a Portugal, y para ser perdonado por su asesinato contará lo que sabía, acudiendo a Olivenza con el aviso que puso en alerta a las tropas.

Retomando nuestra idea, obviamente el encarcelamiento dio al traste con los planes de ganar Alconchel; aún así, Molinghen intento mantener el plan activo, e incluso hizo lo posible por liberar a Acuña <<…de cuia prision yntento romper e sacar los castellanos que estauan en ella, y passarse assi a estos Reynos…>>, palabras que declaró Manuel años después. Pero no lograron su libertad.

Condenado a muerte, parece que Acuña obtuvo algún tipo de apoyo, porque se le conmuto la pena de muerte por la de destierro tras pasar tres años en prisión, lo cual nos sitúa cronológicamente en 1650. Lo enviaron a Angola, y de regreso al año siguiente (1651) fue nuevamente preso, pero en esta ocasión lo hicieron los ingleses. Libertado, en 1652 le encontramos en Elvas. Aquí se reúne con su esposa e hijo, que le estaban esperando. Cabe mencionar que Mateo habla de 5 matrimonios, uno de ellos, el último, precisamente en Elvas, y con dos hijos, en vez del único que cita Manuel en su biografía. Séptimo error, aunque aquí podemos otorgar a Mateo la ventaja de la duda. Para entonces ya se debía estar añadiendo nuevos datos al relato popular.

La idea de Manuel está clara. Quiere dejar su vida en Portugal y pasarse con su familia a Castilla. Lo tiene complicado, pues a pesar de haber cumplido la pena que se le impuso por su intento de traición, todavía le vigilan de cerca, sobrellevando como mejor puede el desprecio de sus paisanos.

Con evidente peligro, por fin logran su objetivo, y durante el verano de 1652 consiguen cruzar la frontera y presentarse en Badajoz, dónde gobierna el marqués de Leganés, el cual, tras conocer el periplo de Manuel y valorando los servicios y méritos ofrecidos en tiempos de Molinghen, le acoge favorablemente, concediéndole el mando de una compañía de arcabuceros, ayuda de 50 escudos mensuales, y la esperanza de un hábito de cualquiera de las Órdenes, amén de otros premios.

Entonces…

¿Qué pasa con el relato de Mateo y la historia del segundo confidente gracias a cuyo arrepentimiento no se logró tomar Alconchel?

Tras analizar la Memoria biográfica de Manuel de Acuña y contrastarla con la narración de Mateo, aparte de encontrar las diferencias (errores que adjudicamos al revoltijo de recuerdos de Mateo, tal como ya se explico) que ya hemos manifestado, nuestra opinión es que el intento sobre Alconchel tuvo lugar en 1647, que no se logró y que a partir de entonces hubo sospechas sobre Manuel, siendo preso por ello tres años, enviado a Angola, preso de nuevo, regresado y huido finalmente a Castilla.

Creemos que el contubernio entre Acosta y el soldado acusado de asesinato, se fraguó en aquel año de 1647, durante alguno de los viajes que realizó Manuel, tanto a Badajoz como a la corte madrileña para ultimar los detalles del plan.

Entre 1645 y 1647 encontramos referencias a sucesos de guerra en torno a la plaza alconchelera, más ninguno parece afirmar que el intento era ganar el castillo, sino llevar a cabo robos y destrozo del campo, como era habitual en las numerosísimas escaramuzas de cada día. Cabe la posibilidad de que una de ellas fuera la causa en que se apoya el relato de Mateo, incorporando luego datos que se iban conociendo poco a poco sobre los personajes, y que de ahí surja lo inconexo del mismo. Sí sabemos que en torno al verano de 1647, y bajo liderato de Molinghen, una de aquellas escaramuzas tuvo mayor repercusión que el resto. Por eso hemos planteado tal fecha al situar el intento frustrado.

Al contrario, en 1653 no hay noticia alguna que cite Alconchel entre los objetivos del ejército castellano, ni tampoco del reclutamiento de tropas para encaminarlas hacía algún otro lugar de Portugal. Puede ser que, en caso de ser cierto el intento del verano de 1653 sobre Alconchel, y que éste resultará fallido, tal como nos lo narra Mateo, las fuentes castellanas silenciaran su derrota. Pero no lo creemos así, porque de una u otra forma, debería haber quedado alguna constancia, directa o indirecta, si no del intento en sí, al menos del movimiento de tropas para llevarlo a cabo, tal como sucede en cualquier otro acontecimiento, según nuestra experiencia de documentación de archivo.

Solamente a finales de año se observa actividad militar, comprobanda documentalmente por parte de ambos bandos, con los combates de Arronches y correría sobre el Valle de Matamoros.

En definitiva, sin minimizar la importancia del relato de Mateo, que nos sigue atrayendo y utilizando como fuente primordial, pensamos que se deben puntualizarse sus recuerdos, ubicándolos en las fechas y lugares correctos, tal como nos dicen los documentos oficiales. No obstante, y a la espera de nuevos datos que aporten luz a este mar de dudas, dejemos que la pluma de nuestro soldado siga conduciéndonos hacia esa lectura agradable y un tanto romántica de sus aventuras.

Na minha resposta, fiz referência ao Conde da Ericeira, como a seguir exponho:

De facto, Mateus Rodrigues confunde por diversas vezes os anos e os meses dos acontecimentos. Mas no caso da intenção de tomar o castelo de Alconchel em 1653, o próprio Conde da Ericeira se lhe refere, ainda que de forma muito sucinta:

“Poucos dias depois de derrotar esta companhia, lhe chegou aviso [ao comissário geral francês Duquesne] por um soldado português que fugiu das tropas castelhanas, de que o tenente-general Ibarra (que já estava livre da prisão, por se haver ajustado troco geral de prisioneiros) marchava a interprender a praça de Alconchel; empresa fomentada por Manuel da Cunha, português, que servia de capitão de cavalos em Badajoz. Tanto que Duquesne teve esta notícia, socorreu tão prontamente Alconchel, que constando a Ibarra a sua diligência, se retirou sem intentar a empresa.” (Ericeira, História de Portugal Restaurado, Lisboa, na oficina de Domingos Rodrigues, 1751, Parte I, Tomo II, Livro XII, pg. 411).

Como muito bem refere Juan Antonio Caro del Corral, a memória de Mateus Rodrigues não é muito firme no recordar as datas exactas de certos acontecimentos e é muito provável que tenha feito alguma confusão entre os pormenores que apontaste para 1647 e este episódio de 1653, para além de embelezar o seu discurso, aqui e ali, com a vox populi. Todavia, em outras ocasiões o seu testemunho é corroborado por fontes coevas, sem o colorido que ele acrescenta à narrativa.

Por fim, fica aqui a hipótese avançada por Juan Antonio:

Efectivamente, había leído lo que dice Ericeira al respecto, pero según el testimonio de Acuña, otorgado en Badajoz a comienzos de 1653, ya se había malogrado el intento castellano de tomar Alconchel cuando el susodicho aún estaba al frente de su gobierno militar. Y eso me lleva, según la cronología de su Memorial, aunque no cita el año, pero restando los que él contabiliza desde que sospecharon y le pusieron preso, a la fecha de 1647, además, el citar a Molinghen y al capitán Pérez como sus interlocutores en el trato, corroboran dicha datación, pues fue entonces, y no después (1653), cuando ambos aparecen fungiendo sus respectivos cargos.

No obstante, y tomando a Ericeira como base, pudo muy bien ocurrir todo lo que he narrado en el comentario original, es decir, que en 1647 Acuña se ofreciera a la entrega aprovechando que era el gobernador de la plaza; que a raíz de ello sospecharan y lo encarcelarán, dándose al traste la operación. Que Acuña fuera sentenciado a muerte en el juicio por el delito de traición, pero conmutándoselo por la pena de exilio en Angola, dónde estuvo 3 años. A su regreso, el navío fue atacado por ingleses, que nuevamente le hicieron preso, logrando quedar libre tiempo después, para regresar a Portugal, dónde no debió sentirse seguro por todos sus antecedentes, decidiendo entonces pasar a Castilla. Supongo que fue en esta segunda etapa portuguesa cuando entro en contacto, otra vez, con las autoridades, en esta ocasión el marques de Leganés, quien tras ver su hoja de servicios recupero la sorpresa de Alconchel pidiendo a Acuña, al cual se le había concedido puesto en una compañía, que liderase el operativo guiando a las tropas españolas, siendo acompañado por el recién liberado Ibarra. Pero, tal como nos dice Mateo y corrobora Ericeira, de nuevo el plan se vino abajo por la delación de un supuesto amigo de Acuña.

Mis dudas sobre todo son si ese amigo corresponde a esta segunda etapa, o es un recuerdo del primer intento fallido, cuando descubrieron el plan de Acuña; descubrimiento que, quizás, se debiese al chivatazo de ese supuesto amigo.

Toda la documentación simanquina que he manejado no menciona en ningún momento la segunda intentona; sólo, en todo el año 1653, se cita a Manuel de Acuña al comienzo del mismo, es decir, en enero, con un Memorial en el cual relata sus servicios esperando recibir gracia del marqués de Leganés. Y de ese Memorial es donde tomo los datos para mi hipótesis de 1647.

Pero, insisto, pudiera ser que en 1653 se retomará lo que falló en 1647.

Cuestión distinta es que Mateo reúna en un mismo relato hechos y circunstancias que ocurrieron en dos momentos distintos, aprovechándose de que ambos tenían el mismo objetivo y también casí idénticos protagonistas.

Espero que en mi próxima visita al archivo, que será en breve, pueda localizar nuevas noticias que disipen las dudas al respecto de este interesante acontecimiento.

Da minha parte, não tenho em minha posse quaisquer documentos que aludam ao episódio, mas irei em breve pesquisar no Arquivo Nacional da Torre do Tombo sobre este evento, em demanda de mais pormenores sobre Alconchel (em 1647 e 1653).

A única referência a Alconchel que encontrei, entre o que possuo, é uma carta de D. João da Costa, governador das armas do Alentejo, para D. João IV, reproduzida nas Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, (publ. P. M. Laranjo Coelho, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. II, pgs. 226-227) e datada de 17 de Dezembro de 1653. Nada, porém, sobre qualquer tentativa de tomada da praça, mas somente a recomendação de ser atribuído o governo da mesma ao veterano capitão de cavalaria holandês van Inguen, cuja enfermidade (sofria de gota) o impedia há anos de montar a cavalo, mas no qual era reconhecida a competência para governar Alconchel. Todavia, não chegou a ocupar tal cargo, pois foi dispensado do serviço por motivos de saúde em 1654, passando a receber soldo por entretenimento (ou seja, uma pensão de reforma).

Imagem: Assalto das forças portuguesas a Alconchel, em 1642. Gravura inclusa em VARELA, Aires, Sucessos que ouve nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguella, o segundo anno da Recuperação de Portugal que começou em 1º de Dezembro de 1641 e fez fim em o ultimo de Novembro de 1642, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1906 (2ª edição).

1653, Agosto – tentativa espanhola de reconquistar Alconchel (parte 2)

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Conclui-se aqui a transcrição da narrativa de Matheus Roiz (Mateus Rodrigues) acerca da tentativa espanhola de recuperar o castelo de Alconchel em 1653. O assunto não fica concluído, pois o estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral apresentou, num comentário à primeira parte desta narrativa, uma diferente perspectiva, baseada em fontes espanholas, a qual não coincide com o que o soldado português deixou escrito, quanto ao tempo, ao modo e às personalidades envolvidas. Interessante, porém, é a corroboração de fontes portuguesas acerca do essencial do testemunho de Mateus Rodrigues. O ponto da situação sobre este episódio da guerra será retomado no próximo artigo, onde será dado destaque à análise de Juan Antonio Caro del Corral e ao que contrapõem as fontes portuguesas, de modo a trazer a lume as diferentes versões. Mas deixemos correr a pena do memorialista, para já. 

Como o soldado se via em reino estranho e sem cabedal, nem quem lhe desse comer facilmente, se venceu às promessas do tal capitão, finalmente. Volveu o soldado com ele, e quando chegaram a Badajoz avaliou o capitão muito o soldado ao governador, dizendo-lhe que tinham ali uma grande guia, porquanto havia [no] passado estado em o dito castelo. Folgou o governador muito de que o soldado se volvesse com o capitão. E assim que com grande segredo trataram a jornada, juntando toda a sua cavalaria e a infantaria que tinham, mas com tanto segredo que nunca mais se soube nada.

Andava o soldado sempre com o capitão e já em Elvas sabíamos que ele trazia de Madrid uma patente para que em Badajoz lhe dessem uma companhia de cavalos. De modo que assim como o inimigo avistou a jornada, mandou juntar toda a cavalaria um dia em Badajoz e já tinha 1.500 infantes juntos, e assim como a cavalaria se juntou toda se puseram em marcha com tudo isto. A sua cavalaria era 1.800 cavalos e a tudo isto o capitão dando ordem e ia diante da gente, e ele mesmo dizia que havia de pôr o petardo às portas do castelo, e mais o soldado que ia com ele sempre diante e guiando a gente diante.

Este tal soldado foi fazendo uma consideração consigo no decurso do caminho, que não podia ele ter melhor ocasião para lhe perdoarem o caso em que se havia achado do que era aquela, em razão de fugir ao inimigo e vir a dar aviso a Olivença, que era a retirada mais breve que tinha. E assim fazendo esta consideração se resolveu aventurar-se a fugir aquela noite e dar consigo em Olivença. E assim como foi noite, fez que se ficava fazendo uma necessidade atrás, e como era de noite e em terra de azinhais muito bastos, deixou passar toda a gente. E assim como não viu ninguém, mete pernas a um muito bom cavalo que trazia. E em breves tempos chegou às muralhas de Olivença, que como ele sabia muito bem a campanha não se podia perder, e assim como chegou mandou recado ao governador da vila, que viesse Sua Senhoria logo muito depressa à muralha a falar com ele, que importava muito ao serviço d’El-Rei.

Tanto que deram o recado ao governador, ergueu-se logo da cama como um raio e veio à muralha a falar com o soldado, o qual lhe deu conta que o inimigo ia a tomar o castelo de Alconchel e que lhe mandasse abrir as portas, não viessem em seu seguimento alguma cavalaria do inimigo para o apanharem no caminho.

Logo o governador mandou muito depressa disparar muita artilharia para que o castelo estivesse alerta, e além disso visse o inimigo que era sentido, para que não fosse mais por diante.

Entrou o soldado para dentro, o governador avisou logo pela posta a Elvas, a Dom João da Costa, do caso que o soldado lhe havia dito, e assim mais logo mandou montar 60 cavalos escolhidos das tropas da vila, e com um tenente mesmo natural de Olivença por nome Francisco de Matos, um dos mais bizarros soldados que há hoje na cavalaria e muito prático na campanha, assim na nossa como na sua. E logo mandou o governador tirar 60 infantes dos terços, bons soldados, e disse ao tenente que Sua Mercê havia de levar ao castelo de Alconchel aqueles 60 infantes à garupa dos cavalos, e que os havia de meter dentro sem que os perdesse todos no caminho, que assim importava, e que lá visse por donde podia ir melhor, de modo que o inimigo o não visse nem sentisse. E como isto era de noite, era coisa que se podia fazer, mas com grande risco.

Saiu o tenente da vila já depois da meia-noite com os 60 cavalos e infantes à garupa, mas quando foi uma hora ante manhã já ele estava metido dentro do castelo e levava a ordem do governador para assistir lá por cabo enquanto o inimigo pelejasse com  ele lá. Assim como o tenente lá se viu, ficou logo pedindo a Deus que lhe levasse lá o inimigo, porque bem sabia ele que havia de ganhar ali boa comenda, porque o inimigo, nem que levasse toda Castela, uma vez que tinha gente de novo e bom cabo. Mas quando o tenente lá se viu, benzia-se mil vezes da miséria em que o castelo estava, assim de gente como de tudo, e dizia que não havia de custar ao inimigo nem 10 homens a tomá-lo, e que foi um notável aviso o do soldado, e assim que merecia que lhe dessem um bom prémio por isso.

Assim que o inimigo ouviu a nossa artilharia de Olivença, ficou parvo. E ainda a este tempo não tinha o capitão achado, nem nós, ao soldado. Mas procurando logo por ele para falar com ele sobre as peças de Olivença, como o haviam de achar se ele lá estava dentro da vila. E fazendo grandes diligências por ele, viram que não havia novas dele. Logo o capitão disse para o governador que ali ia [“]voto a Cristo que me há hecho este pícaro la mayor traição que jamás se há visto[”], e dizia coisas do diabo sobre o soldado, da traição que fizera.

Logo o inimigo fez alto com a gente toda, fazendo conselho sobre a matéria ajustaram entre si que já não era possível ir ao castelo, porque haviam de ter lá metido gente e era força estarem de mão posta, que era arriscarem-se muito. E resolutos neste conselho se volveram outra vez para trás e já estavam meia légua do castelo.

Assim como o mestre de campo general Dom João da Costa viu o aviso de Olivença. Logo começámos toda a gente de Elvas com grandíssima pressa a sair para fora da cidade e marchar na via de Olivença. E logo despachou muitos correios por todo o reino e a El-Rei para lhe mandar gente, e toda a gente paga das fronteiras lhe ia ordem para nos ajuntarmos em Juromenha, junto do Guadiana, para irmos a pelejar com o inimigo lá ao castelo. E assim como chegámos a Guadiana fizémos alto, aguardando que se ajuntasse toda a cavalaria e infantaria que havia por todas as fronteiras do Alentejo.

Estando ali quando veio o soldado de Olivença, o que havia trazido a nova e o que havia fugido ao inimigo, assim como chegou a gente logo foi a falar com Dom João da Costa, e ajuntou-se à roda do soldado toda a gente, ouvindo-lhe o que dizia do inimigo e o como lhe fugira. Dom João da Costa lhe falou, dizendo-lhe [“]Vossa Mercê, senhor soldado, pode dizer que foi um dos mais afortunados homens que se hão visto, pois que fugiu para Castela por um tão grande caso como foi o que Vossa Mercê, que todos três haviam feito, mas eu lhe dou minha palavra que não tão somente fica livre do caso, senão que logo em chegando a Elvas tem uma bandeira de alferes em um terço, e que não há-de parar aí senão em capitão de infantaria, pois soube dar um aviso de tanta importância como foi este[”]. E logo lhe meteu na mão 100 patacas [3.200 réis – pouco mais de metade do soldo que recebia, por mês, um soldado de cavalaria no exército do Alentejo] por uma gala [prenda]. O soldado abraçou, beijando-lhe a mão pela mercê e favor que lhe fazia de o honrar tanto.

De modo que logo naquele dia nos volvemos para Elvas, porquanto veio um aviso de Olivença, de como o inimigo era já retirado. De maneira que foi um caso notável da fortuna, que viu este soldado enforcar dois companheiros que com ele mataram ao lavrador, e ele quando os viu enforcar era já alferes, e os que enforcaram muito bem o viram com o dito posto, vejam bem que mágoa levariam no seu coração, vendo-se padecer e seu companheiro com tanta fortuna.  Por isso não há que fiar nela, porque dá mais rodeios e voltas do que dá o mar, que não há dúvida que neste caso se viu grande fineza, como foi o ver-se um dos três companheiros, que em tão raro caso se viram, como foi ver enforcar aos dois e ele ficar-se gloriando-se com o posto de alferes e ser hoje capitão. Mas nasceu já para ter tal ventura, que como ele se averiguava ir forçado à força com os dois para matarem ao lavrador, para efeiro de sua culpa já não ficava com tanta como os outros dois, mas contudo foi grande fineza a mudança que a fortuna fez.

Fonte: MMR, pgs. 321-326.

Imagem: Fortaleza de Juromenha, mencionada no texto. Foto de JPF.

 

1653, Agosto – tentativa espanhola de reconquistar Alconchel (parte 1)

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O episódio que aqui se traz, mais um respigado das memórias de Matheus Roiz (Mateus Rodrigues), não mereceu mais do que meia dúzia de linhas por parte do Conde da Ericeira na História de Portugal Restaurado. Trata-se da tentativa espanhola de recuperar o castelo de Alconchel, na posse dos portugueses desde 1643, depois de já ter sido ocupado brevemente em 1642. No entanto, o soldado de cavalaria ocupa várias páginas do seu manuscrito com a descrição do sucedido, provavelmente por ter conhecido alguns intervenientes ou ter ouvido contar, em primeira mão, os pormenores mais intricados do processo.

Havia em a cidade de Elvas um capitão de infantaria reformado, por nome Manuel da Cunha, o qual havia já servido a El-Rei Filipe antes da Aclamação em o Brasil. Este tal capitão era um homem muito estragado no modo de beber, que um negro que lhe desse vinho na rua, lá o havia de aceitar no meio da rua. E assim que para encarecimento da sua estragação e pouca alma, averiguavam que tinha cinco mulheres, todas vivas, com quem se havia casado e recebido: uma em Holanda com uma holandesa, que são hereges, e outra em Inglaterra e outra em França e uma em Castela, e a que tinha em Elvas com dois filhos. Vejam que casta de homem podia ser quem tais coisas fazia, e assim fez ele caso como quem era.

Este capitão havia já estado de guarnição com a sua companhia, sendo ele capitão viveu em o castelo de Alconchel alguns dois ou três anos. E como sabia muito bem o estado em que o castelo estava e a pouca gente que tinha, intentou uma notável traição para tomar o castelo e netregá-lo ao inimigo. De modo que se resolveu a fugir para Castela. E assim que como a mulher com quem ele estava vivendo era natural de Elvas, tinha parentes na cidade, e assim que formou que queria ir a Nossa Senhora dos (…) [em branco no original], a uma romaria e pediu cavalgaduras, as que lhe eram necessárias, as quais os parentes lhe emprestaram, que foram três éguas, uma em que ele foi, e uma para a mulher e a outra para os dois filhos. E assim com esta traça se saiu um dia de Elvas à tardezinha, dizendo que ia dormir a Vila Boim, que é uma légua da cidade. E tanto que foi noite, deu volta outra vez para trás e se foi andando para Badajoz. Quando a mulher se viu em Badajoz havia de morrer de paixão [ou seja, de desgosto], vendo o que havia feito seu marido. Contudo, como era sua mulher, era força ter paciência.

Assim como chegou à ponte de Badajoz, disse que estava ali um capitão que vinha fugido de Elvas. Deram logo parte ao governador, que logo lhe mandaram abrir as portas. Entrou para dentro foi logo diante do governador, dizendo-lhe muitas pataratas, que era grande embusteiro e sabia muitas velhacarias. E assim que queria ir a Madrid falar com Sua Magestade, que tinha um grande alvitre para lhe dar, o qual lhe disse logo ao governador que, como ele havia estado em aquele castelo de Alconchel, sabia muito bem suas fraquezas e sabia que estava em muito miserável estado de gente. E não há dúvida que falava verdade […]. Assim como o governador o ouviu e viu que lhe dava tão boas informações, deu-lhe logo o dinheiro para o caminho. E vendeu logo as três éguas e fez tudo em moeda e deixou algum à mulher para enquanto ele lá andasse. E logo pôs-se a caminho e deu consigo em Madrid, e falando com El-Rei Filipe, tais embustias e enredos lhe formou que lhe deu El-Rei uma patente de capitão de cavalos, para que o seu governador lhe desse em Badajoz, e assim mais lhe deu 100 escudos de renda e 50 para sua mulher e filhos. E que tomando Alconchel o fazia ser dele. De modo que, despachado desta sorte, lhe deu El-Rei uma ordem para que o seu governador fizesse tudo o que ele dissesse, que como este castelo foi seu e está há onze anos tomado e guarnecido com gente nossa e ser castelo de muita importância para o inimigo, porquanto fica próximo de Olivença e muito metido pela nossa campanha.

Chegou este tal capitão a Badajoz muito ufano e contente, brasonando dos portugueses e do nosso Rei, mas contudo não deixavam os fidalgos castelhanos de lhe notar muito aquilo e o tinham em má conta, contudo, como lhe viam as ordens de El-Rei e viam que dizia que havia de tomar o castelo ou morrer em a demanda. E não há dúvida que fazia uma notável traição, que o tomar-se não havia dúvida, em razão que não havia lá mais que 30 soldadinhos, tudo rapazes sem capitão nem quem defendesse o castelo, que não podia ser melhor ocasião para o bêbado do capitão fazer a sua a seu gosto. Mas a causa por onde a coisa foi desviada, é de notar que foi uma novela, e bem enredada.

Depois deste capitão ser fugido já para Castela, sucedeu matarem uns três soldados de Elvas a um lavrador da mesma cidade, por nome o Guita, muito rico, e os três soldados que o mataram, um era de infantaria, de alcunha o Aguiar, e os dois eram de cavalo, por nome um o Salgueiro e outro António Pinto. De modo que assim como mataram, trataram de fugir cada um por donde pôde. Dois deles foram parar ao Algarve e um, que era o Pinto, foi para Castela, que como viu o caso tão grande, considerou que não haviam de escapar em Portugal. Os dois que foram para o Algarve fizeram lá outro caso pior do que haviam feito, mas prenderam-nos e logo avisaram a Elvas, ao mestre de campo general Dom João da Costa, o qual mandou logo o preboste geral em busca deles lá, e assim como vieram logo os pôs na forca e os fez em quartos. E agora vão notando: o companheiro que fugiu para Castela, que sorte foi a sua que veio a passear em Elvas, aonde anda hoje feito capitão de infantaria. Mas foi tão bem afortunado que quando fugiu para Castela ia-se para Madrid, para ir a servir em as guerras da Catalunha.

De modo que andando este soldado em Sevilha, se encontrou com este capitão que vinha já na volta de Madrid para Badajoz, e assim como se toparam fez-lhe o capitão muita festa, porque o conhecia muito bem, que era este soldado grande pilhante e sabia muito bem o capitão que ele era bom soldado. E assim que lhe descobriu o capitão ao soldado a tenção que levava, dizendo-lhe se o queria acompanhar, que se obrigava a sustentá-lo enquanto durasse a coisa, e que se tomasse o castelo que lhe havia de fazer dar um posto com que tivesse de comer para todos os dias da sua vida.

(continua)

Fonte: MMR, pgs. 318-321.

Imagem: Elvas na actualidade (foto JPF).

O mestre de campo Francisco da Silva de Moura nas derradeiras batalhas da Guerra da Restauração

Azule2

A batalha do Ameixial (8 de Junho de 1663) permanece hoje bem recordada na História de Portugal. A vitória aí obtida pelas armas portuguesas foi o primeiro passo importante para acelerar o desfecho da Guerra da Restauração ou da Aclamação. O segundo seria dado dois anos volvidos, em Montes Claros. As evocações laudatórias contemporâneas destas vitórias, bem como a historiografia tradicional que as perpetuou na memória colectiva, ofuscaram a trama – por vezes menos gloriosa, mas não menos interessante – de acontecimentos vividos por alguns participantes, cujas referências permaneceram esquecidas nos arquivos.

Um desses exemplos é o do mestre de campo Francisco da Silva de Moura, comandante de um dos terços que combateu na batalha do Ameixial. Francisco de Moura, anteriormente capitão de cavalaria, foi promovido a mestre de campo em Dezembro de 1662, substituindo no comando do terço João Leite de Oliveira, que fora nomeado governador da praça de armas de Campo Maior. A unidade encontrava-se desfalcada de efectivos, pois em Fevereiro de 1663 estavam em formação duas companhias para incorporar o terço.

O terço de Francisco da Silva de Moura participou na campanha de 1663, tendo combatido no recontro do Degebe e na subsequente batalha do Ameixial. De acordo com a lista detalhada dos efectivos do exército português, contabilizados após uma mostra (passagem em revista das unidades e respectivo armamento) dias antes da batalha, o terço de Francisco de Moura contava somente 400 homens em estado de prontidão, metade do efectivo previsto na orgânica. No Ameixial, participou na decisiva fase da batalha em que as unidades de infantaria inglesa e portuguesa assaltaram as posições do exército espanhol no monte Ruivinho, acção que precipitaria a derrocada do exército espanhol. Mas o desempenho de Francisco de Moura levantaria algumas suspeitas.

Enquanto as unidades inglesas progrediam pelo flanco do dispositivo inimigo, o terço português lançou-se frontalmente para a áspera colina. O cerrado tiro de mosquetes e artilharia provocou baixas no terço e o avanço vacilou. É nesta ocasião que Francisco da Silva de Moura dá a ordem de “Alto!”, suspendendo a progressão. A alguns oficiais seus subordinados, que dele estavam próximo, disse que iam a caminho da perdição, pois receava que, por detrás da infantaria espanhola, houvesse cavalaria pronta a carregar (o que seria impossível, dada a natureza do terreno e do dispositivo defensivo espanhol); e acrescentou que deviam marchar mais para o lado esquerdo, para se juntarem ao regimento inglês que progredia no flanco. Porém, os seus subordinados recusaram obedecer, considerando que seria um sinal de cobardia. O sargento-mor do terço Manuel de Sequeira Perdigão ofereceu-se de imediato para fazer um reconhecimento, indo a cavalo pela planície do flanco esquerdo, onde a cavalaria dos dois lados combatia. Voltou pouco tempo depois, assegurando – como seria de esperar – que não havia cavalaria inimiga na elevação a que tinham de subir. E o avanço foi retomado, contribuindo o terço para a quebra da linha defensiva espanhola na colina.

Francisco da Silva de Moura foi acusado, após a batalha, de estar conluiado com o inimigo e de ter recebido dinheiro para trair o seu próprio exército. A denúncia terá partido dos seus subordinados, provavelmente de alguns capitães. E assim, o mestre de campo foi conduzido sob prisão a Lisboa.

Nas operações de cerco e retoma de Évora, ocupada pelos espanhóis desde 21 de Maio e recuperada a 26 de Junho, o terço foi comandado interinamente pelo sargento-mor Manuel de Sequeira Perdigão. Este oficial continuaria a comandar o terço até meados de Setembro, quando um decreto régio ilibou Francisco da Silva de Moura das acusações que sobre ele pendiam e mandou restituir o posto ao mestre de campo, considerando que tinha procedido na batalha como vassalo fiel e zeloso do seu serviço ao rei:

Mandando averiguar a causa, por que foi trazido de Alentejo preso o mestre de campo Francisco da Silva, se achou que nela não fora culpado, antes tinha procedido como vassalo mui fiel e zeloso de meu serviço, do que fico com grande satisfação. O Conselho de Guerra, tendo-o assim entendido, o faça restituir a seu posto, e se lhe diga, que tendo algum requerimento sobre seus serviços, lhe mandarei deferir como for justo, e com o favor que houver lugar. Em Lisboa, a 19 de Setembro de 1663.

No último dia de Dezembro de 1663, encontrando-se o terço aquartelado em Elvas, Francisco da Silva de Moura recebeu a visita do açoriano Sebastião Correia de Lorvela, que como ele fora mestre de campo e comandara um terço na batalha do Ameixial. Os ventos da fortuna sopraram de modo diferente para Sebastião de Lorvela, promovido ao posto de general da artilharia e responsável por passar mostra às unidades de Elvas. A lista que mandou coligir indicava que o terço de Francisco de Moura contava 590 soldados, dos quais somente 439 se encontravam capazes para pegar em armas, estando os restantes doentes.

O terço participaria na batalha de Montes Claros, em 17 de Junho de 1665. No meio dos combates, o mestre de campo Francisco da Silva de Moura viria a ser mencionado, mas desta feita nos relatos da refrega e por motivos diferentes do que sucedera no Ameixial. Assim, logo no início da batalha, adiantou-se com o seu terço, aparentemente por querer demonstrar o seu valor, destacando-se da linha inicial do dispositivo. As unidades de mosqueteiros foram desbaratadas perante a carga da cavalaria inimiga; todavia, perante a admiração de todos, reorganizaram-se duas vezes entre o furor do conflito, enquanto a firmeza da formação de piqueiros manteve os inimigos à distância. E desta forma o mestre de campo limpou a afronta que sobre ele tinha recaído dois anos antes.

Fontes: ANTT, CG, Secretaria de Guerra, Lvº 28, fl. 132 v, de 15 de Dezembro de 1663 – carta patente copiada com erro da data (seria 1662), pois as seguintes datam de Janeiro de 1663; idem, fl. 135; Decretos, 1663, mç. 22, dec. de 19 de Setembro de 1663.

Imagem: Batalha do Ameixial (pormenor do painel de azulejos da Sala das Batalhas, Palácio dos Marqueses de Fronteira e Alorna).