Apesar de redigido em
fins do século XIX, este soneto de Prudhomme revela suficiente atualidade, especialmente
no que concerne à forma como damos trato à máxima cristã de não fazermos nada a
alguém que não queiramos que este nos faça, sobretudo quando em contraste com o
que se costuma chamar por “especismo”, uma discriminação moral que concede
status superior aos humanos em relação a outras espécies, como forma de justificar
a exploração e o tratamento injusto de animais não humanos.
Parece ao autor francês
que há suficiente hipocrisia na prática quotidiana de uma sociedade que se
beneficia da exploração de outros seres vivos, o que expõe, sem dúvida, brechas
entre os ideais morais abstratos – como a sobredita “Regra de Ouro”: a seus
olhos, a ética pura nada mais consiste do que num luxo incompatível com a
necessidade biológica de alimentar-se e de subsistir.
À diferença do homem
civilizado, que não considera “próximo” a nenhum ser vivo do qual se alimenta –
estranha excludente que lhe permite violar o preceito em causa sem incorrer em
remorsos –, o canibal comporta-se de um modo mais “franco e imparcial” – afirma
o poeta –, pois não faz distinções e reconhece abertamente que se alimenta do
seu próximo – outros seres humanos.
Sopesados todos os
argumentos e afirmações de Prudhomme, subjaz nos versos uma visão pessimista da
natureza humana: não seríamos capazes de viver segundo os nossos mais altos ideais
e, pior ainda, construímos sofisticados sistemas de negação para autojustificar-nos,
ou noutros termos, refinados mecanismos racionalizadores de autoengano.
J.A.R. – H.C.
Sully Prudhomme
(1839-1907)
Ce précepte m’émeut...
Ce précepte m’émeut: “Ne
fais pas au prochain
Ce que tu ne veux pas
qu’il te fasse à toi-même.”
Pourtant s’il le faut
suivre en sa rigueur extrême
Il n’est d’autre
avenir que de mourir de faim.
Vivre sans nuire! Ô
songe ambitieux et vain!
Le prochain, quel
est-il? Voilà le grand problème.
Qu’il végète ou qu’il
pense, et qu’on l’abhorre ou l’aime,
Tout être a, dès qu’il
sent, quelque chose d’humain.
Et n’alléguons
jamais, meurtriers hypocrites,
La souveraineté que
nous font nos mérites.
Tout vivant souffre,
aucun ne s’est donné son rang.
L’homme civilisé,
charité bien étrange!
N’appelle son
prochain nul être dont il mange.
L’anthropophage est
seul impartial et franc.
Dans: “La Justice”
(1878)
Pastores e ovelhas
(David Teniers, o
Jovem: pintor flamengo)
Provérbio
“Não faças a ninguém
aquilo que não queres
Que te façam também” –
a sentença pondera –
Se é mister, com
rigor, seguir estes dizeres,
É só morrer de fome o
fim que nos espera.
Viver sem ser
nocivo... ilusão! – se o disseres.
O próximo quem é? – este
problema impera:
Quer vegete ou quer
pense ou seja um anjo ou fera,
Algo de humano tem
todo ser entre os seres.
Nunca aleguemos,
nunca, hipócritas sangrentos,
O alto grau que nos dão
nossos merecimentos;
Tudo o que vive e sofre
– esta é a razão fatal.
O homem civilizado –
é a compaixão de agora!
Não julga seus iguais
os seres que devora...
O antropófago, só, é
que é franco e imparcial.
Em: “A Justiça”
(1878)
Referências:
Em Francês
PRUDHOMME, Sully. Ce
précepte m’émeut... In: __________. Poésies de Sully Prudhomme: 1878-1879.
Paris, FR: Alphonse Lemerre Éditeur, 1880. p. 104.
Em Português
PRUDHOMME, Sully. Provérbio. Tradução de Álvaro Reis. In: MAGALHÃES JR., Raymundo. Antologia de poetas franceses: do século XV ao século XX. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Tupy, 1950. p. 402.
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